MAELI PRADO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Os empregos para quem recebe entre um e dois salários mínimos foram responsáveis por 87,3% do aumento no número de pessoas trabalhando entre 2023 e 2025, segundo especialistas. Esse crescimento gerou novas oportunidades para quem estava desempregado.
Em três anos, o número de trabalhadores com carteira assinada ou de forma informal aumentou em 4 milhões nessa faixa salarial, enquanto o total de empregos cresceu 4,6 milhões, de acordo com dados do IBGE analisados pelo economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4Intelligence.
Essa mudança fez com que os trabalhadores dessa faixa passassem a ser 37,1% do total dos empregos em dezembro de 2025, comparado a 34,8% em 2023 e 33,7% em 2019, segundo a Pnad Contínua.
Outras faixas de renda também tiveram crescimento, mas em menor escala.
Por exemplo, para quem ganha até um salário mínimo, houve um aumento de 295 mil trabalhadores em três anos, mas sua participação total caiu a 31,3%, ante 32,4% em 2023 e crescimento em relação a 2019 (29,2%).
Já os trabalhadores que ganham mais de dois salários mínimos aumentaram em 546,5 mil, mas sua porcentagem caiu para 30,3%, de 31,1% em 2023 e 34,8% em 2019. O número de trabalhadores com renda não informada caiu 254,5 mil no período.
Especialistas veem esse cenário como positivo porque o desemprego é maior entre os trabalhadores mais pobres, ou seja, foram criados empregos principalmente para grupos que tiveram mais dificuldade para conseguir trabalho.
Bruno Imaizumi comenta: “Há uma melhora na base da pirâmide salarial. Estão surgindo vagas para funções que não exigem alta qualificação, especialmente no comércio e serviços.”
Marcelo Neri, diretor da FGV Social, destaca que há sinais claros de redução da desigualdade no mercado de trabalho. “Foi na parte mais baixa da pirâmide que o emprego cresceu mais que a média e que nas faixas mais altas, que diminuíram um pouco.”
Neri conduziu um estudo com dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) que mostra crescimento das vagas formais para os mais pobres.
Entre janeiro de 2023 e setembro de 2024, os inscritos no CadÚnico, que reúne famílias de baixa renda, foram responsáveis por 91,5% das novas vagas formais.
Para os beneficiários do Bolsa Família, a criação de empregos formais foi de 71,1% nesse período.
Esse fortalecimento ocorreu após as regras do Bolsa Família mudarem em 2023, permitindo que famílias mantenham metade do benefício mesmo com contratação formal e possam voltar ao programa se a renda diminuir.
Neri explica que a população passou a buscar emprego com mais confiança, pois tem menos receio de perder o benefício por conseguir trabalho formal.
Além disso, Neri aponta que o crescimento dos salários entre a metade mais pobre da população foi de 3,75% nos 12 meses até o terceiro trimestre de 2024, acima da média geral de 2,01%.
Para ele, a ampliação dos programas sociais ajuda a entender esse crescimento: “Quanto mais a renda é distribuída para os mais pobres, maior o impacto, pois eles gastam mais de sua renda. Isso eleva o consumo e beneficia outros trabalhadores igualmente na base da pirâmide.”
O pesquisador do FGV Ibre, Daniel Duque, acrescenta que a formalização é uma das causas principais do crescimento do emprego entre os mais pobres. Desde 2021, a informalidade caiu de 39,6% para 38,1%.
Duque observa que a melhoria da escolaridade também estimula a contratação. Por exemplo, entre jovens de 24 a 29 anos com ensino médio completo, a participação no total cresceu de 51,7% em 2019 para 56,7% em 2025.
Ele ressalta ainda que o aumento do salário mínimo acima da inflação, de 9% desde 2023, também contribuiu, pois trabalhadores que ganhavam mais de dois salários passaram a receber entre um e dois salários mínimos.
Apesar do crescimento das vagas entre um a dois salários mínimos, Bruno Imaizumi alerta que isso revela a persistência da pobreza e desigualdade no Brasil: “Mais de 70% dos trabalhadores ganham até dois salários mínimos. Esse é o retrato de um país desigual, e só reformas de longo prazo podem mudar isso.”

