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Eleições americanas: uma democracia pouco democrática?

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Votar nos Estados Unidos é um direito de todos — ou pelo menos de todos aqueles que conseguem superar certos obstáculos

Fila de votação em Austin, no Texas: estado foi um dos que não flexibilizaram a legislação em 2020 para facilitar a votação à distância (AFP/AFP)

No dia 12 de outubro, a Justiça Federal americana decretou a legalidade de uma decisão tomada pelo governo do Texas que simboliza um dos temas mais controversos da política americana: a supressão do voto. A democracia mais antiga do mundo, no fim das contas, não seria tão democrática assim.

Dez dias antes, o governador do estado, o republicano Greg Abbott, havia determinado que cada condado poderia ter somente uma urna para receber os votos dos eleitores que queriam entregar pessoalmente as cédulas recebidas pelo correio.

Essa modalidade de votação permite que os votos sejam devolvidos também pelo correio, mas cortes de custos realizados pela estatal anunciados neste ano — e depois suspensos — causaram atrasos na entrega de correspondências. Muitos eleitores temem que suas cédulas não cheguem a tempo.

Condados são subdivisões administrativas. No Texas, segundo maior estado americano, eles são 254. Loving, o menor deles, tem apenas 169 habitantes; o maior, Harris, tem 4,7 milhões. Os críticos da decisão apontam que a medida imposta pelo governador é mais uma tentativa de criar obstáculos para o comparecimento dos eleitores.

O Texas foi um dos cinco estados que não flexibilizaram a votação à distância. Só pode pedir cédulas pelo correio quem tem mais de 65 anos ou tem algum tipo de deficiência. Em Houston, a quarta maior cidade americana, o único local para depositar esses votos fica no estacionamento de um estádio de futebol americano, sem acesso fácil por transporte público.

“Minha definição de supressão do voto é qualquer coisa que diminua a probabilidade de o eleitor votar”, disse numa entrevista à rádio NPR o responsável pela eleição no condado de Harris, o democrata Chris Hollins. “Criar inconveniências e obstáculos. Durante a pandemia, as pessoas têm de escolher entre arriscar a saúde ou abrir mão de seu direito de votar.”

Um sistema eleitoral confuso

Para um eleitor brasileiro, pode ser difícil entender a ideia de “suprimir o voto”. As eleições no Brasil são coordenadas por um órgão central, as regras são as mesmas no país inteiro, os locais de votação são muitos e o voto é obrigatório.

Nos Estados Unidos, a situação é muito diferente. Em primeiro lugar, ninguém é obrigado a votar. Mas isso também é verdade em diversas outras democracias, e em nenhuma delas existe um fenômeno remotamente parecido.

A principal explicação está no sistema federalista. Cada estado americano cria suas próprias regras eleitorais. Elas vão desde questões prosaicas como o horário de fechamento das urnas a quem pode votar — porque, mesmo com o direito assegurado, muitos cidadãos na prática são impedidos de participar do processo eleitoral.

Uma das maiores conquistas do movimento dos direitos civis foi a Lei do Direito ao Voto, de 1965. Ela determinava que mudanças nas regras eleitorais nos estados que pudessem prejudicar a participação negra em eleições tinham de antes ser aprovadas pelo governo federal.

A lei foi proclamada depois de uma onda de protestos no sul do país, onde o direito ao voto da população negra era restrito por medidas que incluíam o pagamento de taxas e provas de que o eleitor era alfabetizado, entre outras.

Mas a lei foi derrubada em 2013 pela Suprema Corte, com votos da maioria conservadora, sob a alegação de que o país havia mudado nas cinco décadas que tinham se passado.

O resultado imediato da decisão foi uma nova onda de regras e leis que ostensivamente servem para garantir a lisura do processo eleitoral — mas na prática criam barreiras para eleitores negros, latinos e eleitores de baixa renda.

Você é você mesmo?

Vários estados exigem que o eleitor apresente algum tipo de documento oficial de identificação para votar (nos Estados Unidos não existe o equivalente à carteira de identidade brasileira, então o documento mais usado é a carteira de motorista).

Estima-se que 25% dos negros com idade para votar não tenham carteira de motorista, ante apenas 8% dos brancos. Estima-se que até 10% do total de eleitores não tenha um documento de identificação oficial.

O objetivo declarado dessa regra é impedir fraudes, embora os casos de pessoas votando no lugar de outras sejam raros, segundo estudos. As regras também são confusas. No Texas, o documento de porte de arma é suficiente para votar, mas a identificação da Universidade do Texas, não.

Em alguns lugares, as complicações começam muito antes do dia da eleição. Uma das práticas é conhecida como “purga” dos eleitores registrados. Manter os registros atualizados é natural, afinal de contas, as pessoas vêm e vão.

Mas alguns estados criaram regras curiosas. Em Ohio, o eleitor que não votar em três eleições é automaticamente excluído do sistema e precisa registrar-se novamente — a menos que responda a um aviso enviado pelo correio, no formato de um cartão-postal. E os eleitores nem sequer são avisados da exclusão.

No ano passado, o estado planejava cancelar o registro de 240.000 eleitores, mas 20% deles haviam entrado na lista por erro do governo. Outros oito estados têm regras semelhantes.

Menos urnas

Outra medida utilizada para criar obstáculos à votação é o fechamento de seções eleitorais. Desde a derrubada da Lei do Direito ao Voto, quase 1.700 locais de votação foram fechados nos estados que estavam sujeitos à supervisão federal. Os fechamentos ocorrem de maneira desproporcional em áreas onde há presença significativa de minorias.

Considere o exemplo do Texas. Nos 50 condados que registraram o menor aumento da população negra e latina — na realidade houve uma redução de 13.000 habitantes — 34 seções eleitorais foram fechadas, segundo uma análise do jornal inglês The Guardian relativa ao período entre 2012 e 2018. Já nos 50 condados onde houve o maior aumento dessas duas populações — 2,5 milhões de pessoas a mais —, houve 542 fechamentos de locais de votação.

Nacionalmente, quase 1.700 seções eleitorais foram fechadas no mesmo período, segundo um relatório do The Leadership Conference on Civil and Human Rights. “Depois da cédula eleitoral, o elemento mais identificável do processo de votação da nossa democracia é a seção eleitoral”, afirma a entidade. “Mudar o local ou fechá-las é uma ruptura democrática.”

Isso significa mais gente em cada seção e filas mais longas — o que é especialmente problemático pois as eleições americanas sempre acontecem às terças-feiras. Muitas pessoas não podem se ausentar do trabalho para votar ou não têm com quem deixar os filhos.

“Eles usam o argumento da responsabilidade fiscal, mas é claro qual é o objetivo”, disse numa entrevista recente Carol Anderson, historiadora da Universidade Emory e autora de um livro sobre supressão do voto nos Estados Unidos.

Quem fiscaliza os fiscais?

A organização estadual das eleições dá origem a uma outra peculiaridade do sistema americano: os responsáveis pelas regras podem ser os próprios políticos que participam da disputa.

Foi o que aconteceu em 2018, quando Brian Kemp (republicano) disputou o governo da Geórgia contra Stacey Abrams (democrata). Kemp ocupava a secretaria de estado, responsável por estabelecer e fiscalizar as regras da votação e decretar oficialmente o vencedor da eleição no estado.

Mais de 53.000 inscrições de eleitores ficaram em suspenso por diferenças entre os nomes em seus documentos e o dos registros eleitorais (às vezes por uma abreviação ou pela falta de um hífen). Sete entre dez desses eleitores eram negros; três em cada dez habitantes da Geórgia são negros.

Votos enviados à distância foram invalidados porque as assinaturas não batiam com aquelas do sistema. Em algumas seções eleitorais, as filas eram de 3, 4 ou 5 horas. Prevendo o caos, a campanha de Abrams criou uma linha telefônica para receber denúncias de problemas.

Depois de inúmeras ações na Justiça e sem admitir a derrota nas urnas, Abrams encerrou sua campanha dez dias depois da eleição. Kemp foi eleito com uma vantagem de cerca de 55.000 votos, de um total de 4 milhões.

Partidários de Abrams afirmam que milhares de votos deveriam ser validados — pela lei do estado, caso a diferença entre os candidatos fosse inferior a 25.000 votos, haveria uma nova votação. Kemp só deixou a secretaria de estado dois dias depois da confirmação do resultado.

O excelente documentário Até o Fim: A Luta pela Democracia, disponível na Amazon Prime Video, conta a história da supressão do voto nos Estados Unidos e da eleição de Kemp

Confusão e desinformação

Uma forma menos óbvia de supressão do voto é a desinformação. Alguns eleitores não vão votar porque não sabem se sua seção ainda está aberta. Outros não têm certeza se seus registros ainda são válidos.

Em 2020, muitos têm medo que seus votos não contem porque serão enviados pelo correio. O maior divulgador dessa teoria — comprovadamente falsa, de acordo com décadas de experiência — é o presidente Donald Trump.

Há meses, Trump vem afirmando que a votação à distância abre o caminho para fraudes massivas, embora ele próprio tenha votado pelo correio em eleições passadas.

Trump tenta fazer uma distinção que não faz sentido, afirmam os especialistas em eleições. O voto pelo correio normalmente é uma opção para quem não poderá votar no dia, o chamado “voto ausente”.

Neste ano, por causa da pandemia, as regras para essa modalidade foram flexibilizadas, e em alguns estados todos os eleitores receberam cédulas pelo correio para evitar aglomerações no dia 3 de novembro.

O presidente diz que não há problemas com o “voto ausente” (modalidade que ele usou no passado), mas sim com a votação à distância “universal”. Mas o sistema é o mesmo para ambas.

Ao que tudo indica, as teorias da conspiração promovidas por Trump não têm surtido o efeito esperado. Até nesta quarta-feira, cerca de 65 milhões de eleitores já haviam votado antecipadamente (outra particularidade americana: algumas seções abrem dias antes da data oficial).

Mas o risco de contestações judiciais ainda não foi afastado. Mais de 300 processos em relação ao voto à distância já foram apresentados. Eles vão desde o prazo limite para recebimento das cédulas até a aderência às regras estabelecidas.

Na Pensilvânia, um dos estados-chave no colégio eleitoral, os eleitores têm de colocar suas cédulas num envelope em branco (para garantir o anonimato), que por sua vez vai dentro de outro envelope para postagem.

Se o eleitor esquecer de usar o envelope “de sigilo”, seu voto não será contabilizado. Quatro anos atrás, Donald Trump levou todos os 20 delegados da Pensilvânia no colégio eleitoral com uma vantagem de 44.000 votos. Um integrante da comissão eleitoral do estado afirmou que até 100.000 votos podem ser anulados neste ano por falta do segundo envelope.

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Escócia pedirá novo referendo de independência após eleições de 2021

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A Escócia realizou um referendo de independência em 2014, no qual 55% dos escoceses votaram pela permanência no Reino Unido

(crédito: Adrian Dennis/AFP Photo)

A primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, que é pró-independência, garantiu a seus apoiadores nesta segunda-feira (30/11) que pedirá ao governo britânico autorização para organizar um segundo referendo sobre a autonomia do país se seu partido vencer as eleições regionais de maio.

A chefe do Executivo escocês e líder do Partido Nacionalista Escocês (SNP) se dirigiu às bases do partido durante um congresso anual, realizado este ano por videoconferência devido à pandemia. Ela garantiu que aproveitará as eleições legislativas regionais de 2021 para defender o direito da Escócia, nação de 5,5 milhões de habitantes, de decidir seu futuro.

“No próximo mês de maio pediremos a vocês, povo da Escócia, que depositem sua confiança em nós para continuar esta tarefa de construir um país melhor”, disse ela.

“Pedirei sua autoridade, a de mais ninguém, para realizar um referendo sobre a independência legal na primeira parte da nova legislatura”, afirmou.

“E então, coletivamente, poderemos responder a essas questões fundamentais que levantei hoje, quem é o mais adequado para liderar a recuperação da Escócia e construir um futuro melhor”, acrescentou.

A Escócia realizou um referendo de independência em 2014, no qual 55% dos escoceses votaram pela permanência no Reino Unido. Na época, o principal argumento contra a separação era o risco de ficar fora da União Europeia.

Porém, ironicamente, após a vitória do Brexit em outro referendo dois anos mais tarde, a Escócia acabou sendo arrastada para fora do bloco com o resto do Reino Unido, apesar de ter rejeitado amplamente essa opção.

Sob o argumento de que esse cenário muda as coisas, Sturgeon prometeu exigir um segundo referendo, ao qual o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, se opõe veementemente.

O SNP registrou um grande avanço eleitoral nas eleições gerais britânicas de 2019 para o Parlamento de Londres, conseguindo 47 (contra 35 até então) dos 59 assentos eleitos na Escócia

Agora espera conquistar a maioria absoluta no Parlamento de Edimburgo, impulsionada pelo Brexit e pela boa aceitação pública de sua gestão da pandemia do coronavírus, enquanto o governo britânico de Boris Johnson sofreu críticas por sua política errática.

Pesquisas realizadas nos últimos meses mostraram que a maioria dos escoceses apoia a independência.

 

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Protesto contra restrições em Londres termina com mais de 60 detidos

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As detenções foram motivadas por uma série de infrações, principalmente “violação das restrições contra o coronavírus”

(crédito: Tolga Akmen/AFP)

Mais de 60 pessoas foram detidas neste sábado em Londres durante manifestações contra as restrições para lutar contra a propagação do novo coronavírus, informou a polícia.

As detenções foram motivadas por uma série de infrações, principalmente “violação das restrições contra o coronavírus”, tuitou a polícia de Londres, que pediu à população que não participasse nas manifestações, proibidas devido ao confinamento em vigor. “Prevemos que o número aumente”, completou a força de segurança.

Centenas de pessoas protestaram contra as medidas na capital britânica, aos gritos de “liberdade” e com faixas com frases como “parem de nos controlar”. Algumas manifestações foram marcadas por incidentes.

Depois de quatro semanas de um segundo confinamento, a Inglaterra deve retornar na quarta-feira a um sistema de restrições locais, em função da incidência do vírus.

Os estabelecimentos comerciais não essenciais reabrirão as portas e será revogado o pedido para que as pessoas permaneçam em casa. A recomendação do teletrabalho será mantida. Em áreas com elevado nível de alerta, os restaurantes e pubs permanecerão fechados.

Com mais de 57.000 mortos, a Grã-Bretanha é o país com o maior número de vítimas fatais da covid-19 na Europa.

 

 

 

 

 

 

 

 

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“Nos sentimos esquecidos”: covid deixa estudantes estrangeiros em Paris à beira da pobreza

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Longe da família, confinados em pequenos quartos e sem condições de trabalhar, muitos sobrevivem graças aos bancos de alimentos

(crédito: Ludovic Marin/AFP)

A pandemia de coronavírus deixou milhares de estudantes estrangeiros na França à beira da pobreza. Longe da família, confinados em pequenos quartos e sem condições de trabalhar, muitos sobrevivem graças aos bancos de alimentos.

Antes de chegar a Paris, sabia que seria difícil, mas a pandemia complicou tudo”, disse à AFP Jesús Alejandro, um venezuelano de 24 anos que chegou a Paris em março para cursar mestrado em Engenharia Mecânica.

Antes da pandemia, este jovem procedente de La Grita, no estado de Táchira (oeste da Venezuela), trabalhava meio-período em um restaurante fast-food para poder financiar seus estudos. Mas devido ao confinamento ficou sem emprego.

Manuella, uma brasileira de 35 anos que cursa um doutorado em Filosofia em Paris, sobrevive graças a suas economias. Ela perdeu o emprego como dançarina, que era sua principal fonte de renda, com o fechamento dos restaurantes e bares.

“Nós, os estudantes estrangeiros, somos os grandes esquecidos desta crise”, disse a brasileira de cabelos vermelhos, que reclama da falta de ajuda do governo francês, assim como do Brasil.

“A única ajuda que recebo é do ‘Restos du coeur'”, suspira, em uma referência a distribuição de alimentos que a associação francesa organiza toda quarta-feira em seu campus universitário.

As associações de ajuda alertam há meses sobre uma explosão do número de pedidos de ajuda de estudantes, sobretudo estrangeiros, muitos deles desempregados devido às medidas de confinamento.

Morgane Saby, diretora de uma unidade parisiense do Socorro Popular Francês, estima que os pedidos de ajuda por parte dos estudantes universitários “triplicaram três desde setembro”.

“A maioria vem da África Subsaariana e do Magreb, mas também temos alguns sul-americanos”, disse à AFP.

“A situação é particularmente difícil para os estudantes estrangeiros porque muitos ficaram sem trabalho e deixaram de receber ajuda de suas famílias, também sufocadas pela crise da covid”, pondera Laurence Marion, delegada-geral do campus universitário internacional de Paris.

Amna, una tunisiana de 29 anos, teve que deixar seu orgulho de lado e pedir ajuda pela primeira vez em sua vida para poder alimentar-se. “Não quero que me vejam como uma mendiga”, disse a jovem.

Com a suspensão de todas as obras de construção em março devido ao confinamento, esta estudante de Engenharia Civil perdeu um estágio em uma empresa que lhe garantia uma renda mensal e teve que aceitar um trabalho de caixa. “Foi o primeiro que me apareceu”, explica.

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Eleição presidencial nos EUA tem a maior participação popular em 56 anos

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Com 99,74% das urnas apuradas, foram contabilizados mais de 156,5 milhões de votos, o equivalente a 60,8% da população americana com idade para votar. Em 1964, participação foi de 61,4%.

Eleitores aguardam em uma longa fila para votar em Oklahoma na eleição presidencial dos EUA, em 3 de novembro de 2020 — Foto: Nick Oxford/Reuters/Arquivo

Antes mesmo da conclusão da apuração dos votos, a eleição presidencial americana deste ano já tem a maior participação popular, em relação à população em idade de votar, desde 1964.

Já são mais de 156,5 milhões de votos contabilizados até a manhã desta sexta-feira (27), segundo a agência de notícias Associated Press.

Os Estados Unidos têm atualmente 257,6 milhões de habitantes em idade de votar, segundo o “Projeto Eleições”, da Universidade da Flórida, que acompanha a disputa presidencial americana. O voto no país não é obrigatório.

Assim, mais de 60,8% dos americanos compareceram

às urnas neste ano, o maior nível de participação em 56 anos (ou 14 disputas presidenciais).

Os dados da população com idade para votar são do “Projeto Presidência Americana”, da Universidade da Califórnia (veja no gráfico abaixo).

Em 1964, quando o democrata Lyndon Johnson derrotou o republicano Barry Goldwater, 61,4% dos americanos com aptos para votar foram às urnas, segundo o projeto.

A pior participação popular registrada desde então foi em 1996, quando o democrata Bill Clinton se reelegeu contra o republicano Bob Dole. Só 49% dos americanos com idade para votar foram às urnas.

Trump x Biden

Apesar de a apuração oficial deste ano ainda não ter terminado, Joe Biden foi declarado vencedor pela imprensa americana no dia 7. O democrata será o 46º presidente americano.

Mas o republicano Donald Trump, que tentava se reeleger, até agora não reconheceu a derrota e tem recorrido a uma série de contestações judiciais para tentar mudar o resultado da eleição.

Sem apresentar provas, ele reclama de uma suposta fraude na apuração de estados decisivos. Mas, até agora, nenhuma autoridade reportou qualquer irregularidade na contagem dos votos.

Joe Biden recebeu 80.063.589 votos até o momento, a maior votação já recebida por um candidato a presidente na história dos EUA. Ele passou a marca de 80 milhões de votos na noite de terça-feira (24).

O recorde anterior era do também democrata Barack Obama, que em sua primeira eleição recebeu 69.498.516 votos. Biden foi vice de Obama durante os oito anos de governo (2008-2016).

O então presidente dos EUA, Barack Obama, ouve seu vice-presidente, Joe Biden, durante evento na Casa Branca, em foto de 13 de dezembro de 2016 — Foto: Carolyn Kaster/AP/Arquivo

O então presidente dos EUA, Barack Obama, ouve seu vice-presidente, Joe Biden, durante evento na Casa Branca, em foto de 13 de dezembro de 2016 — Foto: Carolyn Kaster/AP/Arquivo.

Trump, que se tornou o primeiro presidente americano a não conseguir se reeleger desde George H.W. Bush em 1992, tem 73.904.195 até o momento.

Em 2016, o republicano foi eleito com 62.984.825 votos (quase 11 milhões a menos do que em 2020). Sua adversária, a democrata Hillary Clinton, recebeu 65.853.516 votos, mas perdeu no Colégio Eleitoral.

Com 99,74% das urnas apuradas, o rapper Kayne West teve 66.281 votos e está em 7º na corrida presidencial, atrás de vários nomes menos conhecidos:

  • 3. Jo Jorgensen: 1.855.628 votos
  • 4. Howie Hawkins: 391.738
  • 5. Roque De La Fuente: 87.788
  • 6. Gloria La Riva: 83.780
Combinação de fotos mostra os candidatos independentes e de partidos de terceira via que disputam os votos de Trump e Biden na eleição presidencial dos EUA em 2020 — Foto: Divulgação

Combinação de fotos mostra os candidatos independentes e de partidos de terceira via que disputam os votos de Trump e Biden na eleição presidencial dos EUA em 2020 — Foto: Divulgação.

Votação antecipada recorde

A eleição presidencial deste ano foi marcada por uma forte mobilização e polarização e um recorde de votos antecipados, que impulsionaram a participação popular.

Mais de 100 milhões de americanos votaram presencialmente ou pelo correio antes do dia oficial da eleição, que ocorreu em 3 de novembro.

Eleitores vão às urnas em Arlington, na Virgínia, na votação antecipada das eleições presidenciais americanas — Foto: Al Drago/Reuters

Eleitores vão às urnas em Arlington, na Virgínia, na votação antecipada das eleições presidenciais americanas — Foto: Al Drago/Reuters

Por causa da pandemia do novo coronavírus, o voto antecipado – que até 2016 era disponível só em alguns estados – foi adotado em todo o país.

A pandemia é apontada também como um fator crucial para a derrota de Trump. Os EUA são o país mais afetado pela Covid, com mais de 260 mil mortes e 12 milhões de casos (cerca de 20% de todas as mortes e infectados do mundo).

Década de 60
Até o recorde deste ano, as maiores participações populares nas eleições presidenciais americanas tinham sido registradas na década de 60, na época do movimento pelos direitos civis (veja mais abaixo).

A porcentagem de americanos em idade de votar que foram às urnas em 1960, 1964 e 1968 foi de 62,8%, 61,4% e 60,7%, respectivamente.

Em 1960, a eleição com maior participação da década, o democrata John F. Kennedy derrotou o republicano Richard Nixon. Em 1964, Lyndon Johnson venceu Barry Goldwater.

Em 1968, os republicanos enfim voltaram à Casa Branca. Nixon concorreu novamente e, desta vez, derrotou o democrata Hubert Humphrey e o candidato independente George Wallace, que teve uma expressiva votação e ganhou em cinco estados.

Direito ao voto
Antes disso, os EUA registravam alto porcentual de participação popular nas eleições no século 19 e início do século 20. Mas essa porcentagem pode ser explicada porque muito menos pessoas tinham direito ao voto.

As mulheres só conquistaram esse direito em 1920, com a 19ª emenda à Constituição americana. A luta dos negros foi ainda mais difícil.

Apesar de a 15ª emenda ter garantido o direito ao voto aos negros em 1870, estados criavam diversos mecanismos para dificultá-lo, como a cobrança de taxas e testes de alfabetização e até a “cláusula do avô” (que impedia o voto de descendentes de escravos).

Isso mudou com a 24ª emenda em 1964 e a Lei de Direito ao Voto em 1965, aprovadas em meio ao movimento pelos direitos civis liderado por Martin Luther King.

O boxeador Muhammad Ali e o pastor Martin Luther King em foto de 29 de março de 1967 — Foto: Arquivo/AP

O boxeador Muhammad Ali e o pastor Martin Luther King em foto de 29 de março de 1967 — Foto: Arquivo/AP.

 

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Rússia começa a vacinar seus militares contra Covid-19

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Principal cientista de projeto nuclear iraniano é morto

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Ministério da Defesa acusa Israel pela morte de Mohsen Fakhrizadeh, que trabalhou no programa de armas nucleares do Irã por duas décadas. Ele foi baleado na cidade de Damavand, na província de Teerã, e chegou a ser hospitalizado, mas não resistiu.

Foto divulgada pela agência semi-oficial Fars mostra local onde o cientista iraniano Mohsen Fakhrizadeh foi morto na sexta-feira (27) — Foto: Fars News Agency via AP

principal cientista por trás do projeto nuclear iraniano, Mohsen Fakhrizadeh, foi morto nesta sexta-feira (27) em Damavand, na província de Teerã. Segundo o Ministério da Defesa do Irã, ele estava em um carro quando foi baleado e chegou a ser hospitalizado, mas não resistiu.

Testemunhas afirmam ter ouvido o barulho de uma explosão e em seguida o som de rajadas de metralhadoras.

O governo iraniano acusa Israel pelo ataque. Segundo o jornal “New York Times”, o cientista era um dos maiores alvos da Mossad, o serviço de inteligência israelense.

O porta-voz do gabinete do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu afirmou que ele não comentaria a morte de Fakhrizadeh.

O ministro das Relações Exteriores iraniano, Javad Zarif, postou uma mensagem na qual diz que o assassinato foi “uma covardia” e um ato terrorista, e diz que há “sérias indicações do papel israelense”.

“Terroristas assassinaram um eminente cientista iraniano hoje. Esta covardia – com sérias indicações do papel israelense – mostra uma guerra desesperada contra os perpetradores. O Irã apela à comunidade internacional – e especialmente à UE – para acabar com seus vergonhosos padrões duplos e condenar este ato de terror de Estado”, escreveu Zarif.

Armas nucleares

Fakhrizadeh era considerado o principal nome dos programas secretos iranianos para projetar uma ogiva atômica pelos serviços de inteligência dos EUA e de Israel e trabalhou no programa de armas nucleares do Irã por duas décadas, até que este foi oficialmente interrompido no começo dos anos 2000.

Há suspeitas, porém, de que ele continuou envolvido em planos secretos depois disso.

De acordo com a Associated Press, Fakhrizadeh liderou o chamado programa “Amad” ou “Esperança” do Irã. Israel e o Ocidente alegaram que se tratava de uma operação militar visando a viabilidade de construir uma arma nuclear no Irã. Teerã há muito mantém que seu programa nuclear é pacífico.

A Agência Internacional de Energia Atômica diz que o Irã “realizou atividades relevantes para o desenvolvimento de um dispositivo explosivo nuclear” em um “programa estruturado” até o final de 2003. Esse seria o programa Amad, que incluiu o trabalho em altos explosivos cuidadosamente cronometrados necessários para detonar uma bomba nuclear.

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quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

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