São Paulo, 23 – O dólar iniciou a semana com uma leve queda no mercado brasileiro, acompanhando a desvalorização da moeda americana no exterior. Apesar do anúncio de Donald Trump no fim de semana sobre o aumento das tarifas globais de 10% para 15%, o cenário da política comercial dos Estados Unidos parece mais favorável para o Brasil após a decisão da Suprema Corte dos EUA sobre a ilegalidade das tarifas recíprocas.
Após atingir uma máxima de R$ 5,1908 no início do dia, o dólar teve predominância em baixa, chegando a tocar R$ 5,1398 pela manhã. Com a queda do preço do petróleo e a redução da pressão sobre o dólar no exterior, a cotação estabilizou em torno de R$ 5,16 no período da tarde.
Ao final do pregão, o dólar à vista caiu 0,14%, fechando a R$ 5,1686, menor valor desde 28 de maio de 2024. Essa foi a terceira sessão seguida de queda, acumulando baixa de 1,51% em fevereiro e 4,40% em janeiro. No acumulado do ano, o dólar apresenta desvalorização de 5,84% frente ao real, moeda que tem o melhor desempenho entre as latino-americanas.
Para Andres Abadia, economista-chefe para a América Latina da Pantheon Macroeconomics, o enfraquecimento global do dólar favorece moedas emergentes de países com juros elevados, como o real. Ele destaca que a redução das tarifas de importação para 15% melhora a competitividade dos setores brasileiros que antes enfrentavam tarifas de até 50%, aliviando a pressão sobre os exportadores.
O índice DXY, que mede o desempenho do dólar contra seis moedas fortes, como euro e iene, apresentou queda de cerca de 0,10%, indicando a desvalorização da moeda americana. No ano, o índice acumula baixa superior a 0,60%. Além disso, os rendimentos dos títulos do Tesouro norte-americano caíram, refletindo a busca por maior segurança dos investidores.
Fernando Fenolio, economista-chefe da WHG, destaca o debate nos EUA sobre possíveis efeitos deflacionários acelerados pela inteligência artificial, que pode provocar aumento do desemprego e desaceleração econômica, levando à queda das taxas de juros e valorização de moedas emergentes como o real.
Fenolio também ressalta que a limitação das tarifas a no máximo 15% é positiva para o Brasil, que sofria com alíquotas mais altas. Ele estima o valor justo do dólar em cerca de R$ 4,90, considerando que o real está um pouco valorizado atualmente.
A consultoria 4intelligence aponta que o Banco Central iniciou a rolagem dos contratos de swap cambial que vencem em abril, possivelmente em volume inferior ao previsto, refletindo a melhora na percepção de risco soberano e o enfraquecimento do dólar frente ao real.
Bolsa
O Ibovespa teve queda de 0,88%, fechando aos 188.853,49 pontos, após ter atingido um recorde intradiário de 191 mil pontos. O volume financeiro foi de R$ 32,3 bilhões. Apesar do bom desempenho de empresas como Vale e Petrobras, as perdas no setor financeiro, principalmente em Itaú, Santander e Bradesco, pressionaram o índice para baixo.
Bruno Perri, economista-chefe da Forum Investimentos, comenta que Petrobras foi beneficiada pela manhã com o preço do petróleo, enquanto Vale avançou devido a um acordo na Índia e Telefônica Brasil destacou-se pelo balanço do quarto trimestre de 2025.
Rodrigo Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos, afirma que a queda na bolsa está ligada à realização de lucros frente ao aumento das tarifas americanas anunciado por Trump e à incerteza causada pela decisão da Suprema Corte.
Matheus Spiess, analista da Empiricus Research, destaca o clima de aversão ao risco global diante de uma possível escalada na guerra comercial, com o governo americano mantendo postura agressiva nas tarifas.
O líder democrata no Senado, Chuck Schumer, afirmou que os democratas irão bloquear tentativas de estender as tarifas impostas por Trump, argumentando que isso prejudica os consumidores americanos ao elevar os preços.
Juros
No mercado de juros futuros da B3, os contratos tiveram pouca variação, com leve volatilidade nos vencimentos mais longos, refletindo cautela em um dia com poucas notícias domésticas.
A redução da força do dólar no exterior e a queda das taxas dos Treasuries, em meio a incertezas políticas e comerciais, contribuíram para a estabilidade do mercado local de renda fixa.
Os contratos de DI para 2027, 2029 e 2031 mantiveram-se praticamente estáveis. As taxas dos títulos americanos recuaram, refletindo a busca por segurança dos investidores frente à possibilidade de aumento das tarifas e tensões internacionais.
Laís Costa, analista de renda fixa da Empiricus Research, aponta que o mau humor com empresas de tecnologia nos EUA influenciou a queda dos rendimentos do Tesouro americano e valorização dos títulos emergentes. Ela observa que dados domésticos importantes, como o IPCA-15 de fevereiro e o Caged de janeiro, ainda serão divulgados.
Os dados atuais indicam manutenção das expectativas inflacionárias para 2027 em diante, com ligeira queda para este ano, segundo o boletim Focus.
Cristiano Oliveira, diretor de pesquisa econômica do banco Pine, afirma que o cenário inflacionário continua favorável, com expectativas para inflação em torno de 3,8% em 2026, apoiadas na política monetária contracionista e no comportamento da taxa de câmbio.

