SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
O dólar iniciou o dia com uma pequena queda nesta quarta-feira (28), enquanto os investidores aguardam os anúncios das decisões sobre as taxas de juros no Brasil e nos Estados Unidos.
Este dia é chamado de “Superquarta” porque os principais bancos centrais dos dois países divulgam suas decisões de política monetária: o Federal Reserve (Fed), banco central dos EUA, às 16h, e o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil, às 18h, ao fim do pregão.
Os especialistas esperam que ambos mantenham as taxas inalteradas. No Brasil, a Selic permanece em 15%, e nos EUA, os juros variam entre 3,5% e 3,75%, após três cortes consecutivos.
Às 9h12, o dólar caía 0,27%, valendo R$ 5,1931. Na véspera, a moeda americana teve uma queda expressiva de 1,38%, cotada a R$ 5,206, enquanto a Bolsa subiu 1,78%, chegando a 181.919 pontos.
O movimento atual reflete uma mudança de investidores estrangeiros que estão transferindo capital para o Brasil. Desde o início de janeiro até sexta-feira (23), mais de R$ 17,7 bilhões entraram no país, segundo dados da B3, correspondendo a mais de 60% do volume anual desse tipo de investimento.
Essa valorização do real frente ao dólar e a alta da Bolsa foram impulsionadas pela divulgação do IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15) de janeiro, que apresentou avanço mensal de 0,2%, um pouco abaixo da expectativa de 0,22%, conforme a Bloomberg.
Apesar disso, o índice acumulado em 12 meses subiu para 4,5%, exatamente o teto da meta de inflação do Banco Central para o IPCA.
A decisão do Copom, que será anunciada nesta quarta, deve manter a taxa de juros em 15% ao ano, o maior nível dos últimos quase vinte anos. No entanto, o resultado do IPCA-15 pode levar o comitê a suavizar seu comunicado e sinalizar o começo de cortes na reunião de março.
Segundo André Valério, economista sênior do Inter, o dado divulgado hoje tem pouca influência na decisão imediata, mas pode indicar uma mudança no tom do comunicado para refletir a possível redução dos juros no próximo encontro.
Essa expectativa é reforçada pela tendência de desaceleração da inflação, resultado da valorização do real e da queda dos preços dos alimentos. A redução no preço da gasolina pela Petrobras também deve ajudar a diminuir o índice neste primeiro trimestre, explica Valério.
De acordo com o boletim Focus, especialistas indicam um corte de 0,5 ponto percentual na Selic em março como o início do ciclo de flexibilização da política monetária, com a taxa terminando 2026 em 12,25% e o IPCA em 4%.
João Abdouni, analista da Levante Inside Corp., comenta que os dados aumentam a confiança de que a política monetária mais rigorosa está controlando a inflação, o que favorece a expectativa de redução dos juros ou pelo menos um discurso mais ameno por parte do Banco Central.
Para a Bolsa, juros mais baixos costumam ser positivos, pois diminuem a atratividade dos investimentos em renda fixa e incentivam a busca por retornos maiores em ativos mais arriscados. A XP aponta que, nos últimos oito ciclos de redução de juros, o Ibovespa subiu em média 39,2%.
Apesar da previsão de volatilidade por conta das eleições presidenciais em outubro, o mercado acredita que a Bolsa continuará em alta ao longo do ano.
Além disso, o cenário favorece a diversificação dos investimentos para mercados menos impactados por tensões geopolíticas e econômicas, como aquelas geradas pelo governo do ex-presidente Donald Trump. O câmbio tem refletido essa tendência: o dólar recuou frente ao real depois que o Ibovespa ultrapassou os 183 mil pontos com entrada de capital estrangeiro.
João Duarte, especialista em câmbio da One Investimentos, destaca que a queda do dólar está ligada a um maior apetite por risco global e à saída de recursos dos EUA, com o Ibovespa subindo mais de 2% e atraindo capital para o Brasil.
Porém, a decisão do Fed nesta Superquarta traz preocupações devido aos ataques do ex-presidente Trump à autonomia do banco central. Apesar do consenso de manutenção dos juros entre 3,5% e 3,75%, há receios em relação à influência política sobre o órgão.
Se os juros forem mantidos, a decisão contraria o que Trump defendeu durante sua gestão: uma queda expressiva para cerca de 1,5%.
O contexto é delicado. Jerome Powell, presidente do Fed, é alvo de investigação federal desde o início do mês relacionada a uma reforma da sede do banco, avaliada em US$ 2,5 bilhões. Ele classificou publicamente a investigação como uma tentativa de pressioná-lo a reduzir os juros.
Matthew Ryan, chefe de estratégia de mercado da Ebury, observa que, embora o resultado da reunião seja esperado, a retórica do Fed deve ser mais firme devido aos fortes dados econômicos e aos ataques políticos.
Com o mandato de Powell terminando em maio, o mercado teme que a escolha do novo presidente do Fed seja influenciada por interesses políticos em detrimento dos dados econômicos.
