RAPHAEL DI CUNTO
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – A direita exerce um domínio expressivo nas redes sociais no país, mas qual é a verdadeira dimensão dessa supremacia? Dados da consultoria Bites, compilados pela Folha de S.Paulo, indicam um grande desafio para o governo Lula (PT): os principais políticos de esquerda, juntos, acumulam menos da metade dos seguidores da direita e alcançaram apenas um terço do engajamento que estes últimos obtiveram neste ano.
Em 2025, as postagens promovidas pela direita geraram um engajamento — medido por curtidas, comentários e compartilhamentos — 2,5 vezes maior que o de políticos de esquerda e também dos partidos de centro e centro-direita juntos. Um maior número de interações significa que a informação alcança um público mais amplo e tem maior repercussão.
A análise, conduzida pela Folha, abrange os 250 parlamentares federais, senadores, presidente, ex-presidente, ministros, primeiras-damas, governadores e prefeitos das capitais com o maior número de seguidores. A Bites reuniu os dados dos cinco principais veículos sociais no Brasil: Facebook, Instagram, YouTube, TikTok e X (antigo Twitter), no período de 1º de janeiro a 30 de maio.
Embora a quantidade de parlamentares seja relativamente equilibrada nesse recorte — 84 do centro ou centrão, 88 da direita e 78 da esquerda — o engajamento dos perfis ligados à direita é bem superior.
Segundo o levantamento, políticos de direita sumaram 1,48 bilhão de interações nos primeiros cinco meses do ano, enquanto os de esquerda alcançaram apenas 417 milhões. Já o centro e o centrão registraram um desempenho mais modesto, com 171 milhões de reações.
A média de interações por publicação é maior na direita, com 12.894 por post, enquanto as postagens dos aliados do presidente Lula obtêm em torno de 4.699, e o centro e centrão aproximam-se de 3.900 interações.
De acordo com o diretor técnico da Bites, André Eler, a maior organização e sintonia da direita nas redes é um fator determinante para essa diferença: “Trata-se de uma bolha mais ativa e engajada, gerando maior volume de interações, com mais pessoas interessadas constantemente nesse conteúdo.”
Já a esquerda enfrenta dificuldades para manter uma linha unificada, exemplificada pelos deputados federais Guilherme Boulos (PSOL-SP) e Tabata Amaral (PSB-SP), ambos influentes, mas com discursos divergentes.
Outro obstáculo para a esquerda, aponta Eler, é a falta de organização: nem todos os ministros do governo possuem redes sociais, e o presidente Lula, principal liderança do grupo, muitas vezes evita confrontos nas plataformas digitais.
Os 33 ministros do governo com perfis nas redes acumulam, juntos, pouco mais da metade dos seguidores que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) possui sozinho.
Destaques na lista de políticos da esquerda incluem nomes que foram candidatos presidenciais recentemente, como Fernando Haddad (Fazenda), com 7,2 milhões de seguidores, e Marina Silva (Meio Ambiente), que soma 5,7 milhões.
Por sua vez, os políticos do centro e centrão, em geral, têm menor afinidade com as redes, mas vêm apostando nessas plataformas como ferramenta para conquistar apoio eleitoral.
O atual presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), adota uma comunicação mais informal, mas ainda não atinge grande audiência. Seus perfis nas principais redes somam cerca de 300 mil seguidores, posicionando-o no 210º lugar no ranking da Bites, atrás de muitos colegas parlamentares.
Contudo, Motta figura entre os políticos do centrão com maior engajamento por publicação, com média de 3.624 interações. Já o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que já ocupou o cargo em 2019 e 2020 e possui 627 mil seguidores, recebe uma média de 1.129 reações por post.
Esses números ainda são inferiores aos da esquerda, que recentemente direcionou suas críticas nas redes contra o Congresso devido à derrubada do decreto do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) e dificuldades na aprovação da pauta governamental.
Os personagens em destaque no centro e centro-direita nas redes sociais são, muitas vezes, fora da política tradicional, como humoristas, influenciadores ligados a causas animais ou de pessoas com deficiência, artistas e líderes religiosos, que nem sempre abordam temas relacionados a seus mandatos.
Exemplos incluem o deputado federal Fábio Teruel (MDB-SP), cantor gospel que compartilha orações no YouTube, e o deputado Célio Studart (PSD-CE), cujo último vídeo no Instagram mostra um ator caracterizado como Superman encantado por um cachorro fantasiado em evento no Brasil.
Além disso, políticos populares como prefeitos e governadores também têm presença relevante, como Eduardo Paes (PSD), que está em seu quarto mandato à frente da cidade do Rio de Janeiro.
Segundo Eler, esses políticos enfrentam mais dificuldades para gerar engajamento em pautas nas redes por não fazerem parte da polarização dominante: “Na prática, dependem da política tradicional, por meio de emendas parlamentares e cargos, para se destacarem. Isso funciona bem, mas é uma maneira diferente de atuar nas redes.”

