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Mundo

Direita extrema defende valorização da família para aumentar nascimento de crianças na Alemanha

Foto: Banco de Imagens

BÁRBARA BLUM e VICTOR LACOMBE
São Paulo, SP (Folhapress)

Uma foto em preto e branco de 1937 exibe uma mulher amamentando um bebê na capa de uma revista intitulada “Neues Volk” (Novo Povo, em alemão). Esse era um periódico que circulava na Alemanha durante o regime nazista, exaltando a raça ariana, entendida como brancos de cabelos e olhos claros originários da Europa nórdica.

Oito décadas depois, em 2017, uma imagem retrata uma mulher grávida de pele clara deitada em uma toalha xadrez azul sobre a grama. Seu sorriso é visível na imagem de um cartaz em alemão com os dizeres: “Novos alemães? Faremos os nossos!”. Esse é um cartaz do partido de direita radical alemão AfD (Alternativa para a Alemanha).

O cartaz aborda uma questão importante para países desenvolvidos e adotada pela extrema direita europeia: a queda nas taxas de fertilidade. Para esse partido, que é contra a imigração, essa situação não será resolvida pela entrada de estrangeiros, mas sim pelo aumento do número de bebês nascidos de mulheres alemãs.

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Dagmar Herzog, professora de história na City University of New York e autora do livro “Unworthy Lives” sobre eugenia na Alemanha do século 20, aponta que essa ideia remete ao eugenismo prevalente na era nazista. Ela afirma que enquanto movimentos conservadores em países do Leste Europeu promovem políticas pró-natalistas, eles evitam se associar ao nazismo e à eugenia, ao menos até o momento.

Segundo a historiadora, as políticas nazistas incentivavam o controle de natalidade para pessoas consideradas deficientes ou com problemas mentais, enquanto promoviam o aumento de nascimentos entre indivíduos considerados saudáveis, bonitos, fortes e inteligentes. AfD e outros grupos de extrema direita na Europa parecem evitar um tom abertamente eugenista, pelo menos atualmente.

A semelhança está na crença de que a solução para a baixa fertilidade deve vir de um grupo específico, no caso, os alemães.

Em seu programa de 2017, a AfD defende que o casamento e a família merecem proteção especial do Estado, pois são o núcleo da sociedade e fundamentais para a coesão social. A imigração em massa é descartada como solução para o declínio populacional, sendo vista como um fator que pode gerar conflitos e provoca mudanças culturais indesejadas. A AfD também propõe uma discussão pública para fortalecer o papel dos pais e reduzir o estigma em torno dos papéis tradicionais de gênero.

Na versão mais recente do programa de 2025, o partido reafirma suas posições e define família como composta por pai, mãe e filhos, criticando a desvalorização do trabalho doméstico e a influência da chamada sociedade “woke”. Eles também expressam oposição ao direito ao aborto.

Nas eleições de fevereiro deste ano, a AfD alcançou seu melhor desempenho desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

A questão da baixa natalidade é antiga. O demógrafo Frank Swiaczny, pesquisador sênior do Instituto Federal de Pesquisa Populacional da Alemanha, explica que desde 1972 o país registra mais mortes do que nascimentos, sendo a taxa média de 1,5 filho por mulher, valor insuficiente para manter a população estável. Para isso, seria necessário alcançar 2,1 filhos por mulher.

Swiaczny observa que a valorização da família como base da sociedade não é exclusividade da extrema direita, mas que associações dessa causa com restrições aos direitos reprodutivos podem ser contraproducentes em sociedades com baixa natalidade. Mesmo políticas que oferecem incentivos financeiros e ampliam o acesso a creches não conseguiram elevar a taxa de natalidade para o nível desejado.

Países nórdicos, vistos como exemplos em igualdade de gênero e bem-estar social, também apresentam diminuição nas taxas de natalidade: Finlândia caiu de 2,72 em 1960 para 1,26 em 2023, Suécia de 2,13 em 1990 para 1,45 em 2023, e Dinamarca de 2,57 em 1960 para 1,5 em 2023.

O demógrafo alerta que políticas conservadoras que pressionem a mulher a assumir exclusivamente o papel doméstico podem piorar a queda nas nascimentos. Além disso, ele destaca que a decisão sobre ter filhos deve ser livre e espontânea, respeitando os direitos humanos. Políticas demográficas não podem forçar objetivos populacionais de forma autoritária.

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