Gustavo Zeitel
São Paulo, SP (FolhaPress)
A recente rejeição no Congresso dos decretos que propunham o aumento das alíquotas do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) expõe um quadro complicado para o presidente Lula (PT) na corrida eleitoral de 2026, segundo especialistas em ciência política. Esse episódio não apenas revela o enfraquecimento político do governo, mas também levanta dúvidas sobre a habilidade de Lula em angariar suporte entre os parlamentares para sua reeleição.
O tema do IOF se soma a vários contratempos da administração petista com o Congresso no decorrer do ano, além de marcar o início de uma colaboração entre o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), em oposição ao Planalto.
Na Câmara, o projeto que derrubou os decretos foi aprovado por ampla maioria, enquanto no Senado a decisão foi simbólica, sem contagem de votos. É a primeira vez desde o governo de Fernando Collor que um decreto presidencial é rejeitado pelo Legislativo.
Beatriz Rey, professora de ciência política da USP, comenta que a falta de habilidade do governo em articular politicamente terá consequências graves para Lula nas próximas eleições. Ela aponta que os partidos estão se distanciando da administração, o que deve resultar em uma considerável perda de apoio no ano eleitoral.
Além disso, Beatriz Rey observa que o presidente parece mais focado em um legado internacional do que em garantir a aprovação de projetos prioritários. Ela destaca a instabilidade nas relações entre o governo e o Congresso, que é afetada pela gestão da coalizão, dificuldades na articulação política e a falta de disposição do Legislativo para dialogar.
Os parlamentares enfrentam um governo com baixa popularidade, refletida em pesquisa Datafolha que indica 40% de desaprovação e apenas 28% de aprovação para Lula, rompendo com a tendência de recuperação.
Ela ressalta ainda a dificuldade de definir uma base sólida para o governo. Embora teoricamente 16 dos 19 partidos poderiam compor a coalizão, na prática cinco deles, mais à direita, favorecem o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), para as próximas eleições, o que contribui para as derrotas governistas no Congresso.
De abril a maio, o presidente enfrentou oito derrotas dentro de sua própria base, incluindo a saída de integrantes do PDT e a aprovação de projeto na Câmara que contestava ações no STF.
Em fevereiro, houve mudança na equipe de articulação política, com a saída do ministro Alexandre Padilha (PT) e a entrada de Gleisi Hoffmann, então presidente do PT, mas os problemas continuaram.
Marco Antonio Teixeira, professor de ciência política da FGV, destaca que a insatisfação do Congresso ocorre em meio a uma reforma ministerial incompleta e pressão por mais recursos para emendas parlamentares. Ele explica que ministrar pastas não proporciona tanto benefício, já que parlamentares podem direcionar recursos para suas bases de outras formas. Isso, aliado à baixa popularidade, afasta aliados.
Marco Antonio Teixeira afirma que o presidente chegará a 2026 apenas com os aliados fiéis, sem repetir a ampla frente que teve antes. Para ele, a rejeição do IOF representa a piora das relações entre Executivo e Legislativo.
No início do ano, o então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), mantinha uma relação cordial com Lula, destacando a aprovação de projeto importante. A relação com o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), era marcada por desconfiança, mas acordos eram respeitados — o que não ocorreu no caso do IOF.
Marco Antonio Teixeira conclui que a solução depende do próprio presidente assumir o papel de articulador político, já que os demais envolvidos não obtiveram sucesso.

