NATHALIA GARCIA E ADRIANA FERNANDES
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
Em novembro de 2025, quando o Banco Master foi liquidado, seus depósitos no Banco Central somavam apenas R$ 22,9 milhões, menos de 1% dos R$ 2,537 bilhões exigidos pela autoridade reguladora para o grupo financeiro de Daniel Vorcaro.
Durante o ano de 2025, o banco falhou repetidamente em cumprir a obrigatoriedade de depósitos compulsórios, acumulando déficits crescentes desde novembro de 2024, conforme relatado pelo Banco Central (BC) ao Tribunal de Contas da União (TCU).
Em 8 de maio de 2025, o Master solicitou uma dispensa temporária para o recolhimento desses depósitos, mas o pedido foi recusado pelo BC devido à falta de respaldo legal.
O BC alertou os gestores do Master sobre os riscos dessa situação, que poderia levar à intervenção para proteger a estabilidade do sistema financeiro. A legislação exige que, em casos assim, os responsáveis compareçam ao BC e apresentem um plano de ação a ser cumprido em até seis meses. Foram realizadas mais de 30 comunicações alertando para a necessidade de correção.
A exigência do depósito compulsório foi imposta em novembro de 2024, ainda sob a gestão de Roberto Campos Neto. A atuação do banco chamou atenção da autoridade devido a queixas relacionadas ao plano de negócios do Master, que dependia muito do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), e à composição dos ativos, que incluíam precatórios supostamente valorizados indevidamente.
Em abril de 2024, Campos Neto também incentivou uma auditoria externa focada em precatórios, que não encontrou irregularidades. Outra investigação analisou, a partir de fevereiro de 2024, certificados de recebíveis imobiliários (CRIs) e carteiras de crédito criadas pelo Master para desenvolvimentos de projetos, identificando operações com empresas desconhecidas a partir de setembro do mesmo ano.
Mais tarde, foram identificados desvios estimados em R$ 11,5 bilhões em fundos administrados pela Reag, alegadamente usados em fraudes associadas ao banco. Cerca de R$ 5 bilhões estavam vinculados a CRIs e R$ 6 bilhões a operações de crédito. Essas informações foram parcialmente obtidas por meio de um convênio entre BC e CVM, iniciado em 2021, que permite o intercâmbio de dados sobre cotistas em fundos de investimento, com suporte de inteligência artificial para análise.
O BC não percebeu as fraudes em 2024, limitando seu diagnóstico à insuficiência de capital. A atuação do BC nos anos anteriores está sendo avaliada para determinar se poderia ter agido de forma diferente para evitar a crise.
Em depoimento à Polícia Federal em dezembro de 2025, o diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, afirmou que a falta de liquidez do Master era evidente e que já havia um processo administrativo em andamento por essa deficiência. Ele questionou como o banco gerava tanto crédito sem ter liquidez suficiente.
No primeiro semestre de 2024, o BC monitorou continuamente o risco de liquidez do Master e exigiu providências, incluindo um plano de contingência. No segundo semestre, o banco não conseguiu cumprir as metas de captação: captou somente R$ 2 bilhões dos R$ 15 bilhões previstos.
Mesmo assim, o Master continuou contratando operações financeiras de longo prazo e baixa liquidez. A partir de novembro de 2024, não conseguiu mais renovar integralmente as obrigações vencidas captadas por plataformas de investimento.
Após advertência do BC, o banco cessou a concessão de crédito corporativo e cedeu carteiras, além de buscar possíveis compradores para reorganização societária, incluindo a venda total ou parcial do grupo.
Em 8 de abril de 2025, o BC informou ao Master que as medidas tomadas até então eram insuficientes para reduzir o risco de liquidez. Uma semana depois, o banco solicitou ajuda financeira de curto prazo ao FGC, que concedeu R$ 4,3 bilhões em assistência até outubro de 2025, incluindo R$ 90,2 milhões em captações garantidas.
Em maio de 2024, iniciaram-se negociações para venda de ativos pessoais de Vorcaro ao BTG, injetando R$ 954 milhões no banco. Dois meses depois, venderam ações da seguradora Kovr por R$ 418,6 milhões.
Em agosto de 2025, o BC aprovou a transferência do controle do Banco Voiter para Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro. No mês seguinte, foi vendida uma participação no Itaminas Fundo de Investimento por R$ 401 milhões.
Em setembro de 2025, Master e BC firmaram um acordo para recompor a liquidez em até dois dias úteis, prazo estendido até o fim do mês após a entrada de recursos das vendas recentes e extensão da assistência do FGC.
No mesmo mês, o BC rejeitou a compra do banco pelo BRB, em uma negociação que abrangia R$ 23 bilhões em ativos, após uma análise que durou cerca de cinco meses.
O Master apresentou um novo plano baseado na extensão da ajuda financeira do FGC até dezembro de 2026, mas o fundo decidiu estender o apoio apenas para o Will Bank.
O Banco Central afirmou ao TCU que buscou sempre a solução menos custosa para a sociedade, seja por negociação, redução gradual das atividades ou interrupção das captações para evitar maiores prejuízos aos credores.
As tentativas de solucionar a crise, incluindo negociações com o BRB e a venda de ativos pessoais do controlador, não alcançaram os resultados esperados, levando à decisão de liquidar o banco.
Linha do Tempo
- Fevereiro de 2024: BC analisa CRIs e carteiras de crédito do Master para projetos empresariais.
- Abril de 2024: Auditoria externa em precatórios não identifica fraudes.
- Novembro de 2024: Master compromete-se a tomar medidas como cessão de carteiras e busca de reorganização com instituições financeiras.
- 28 de março de 2025: BRB anuncia compra do Banco Master, dependendo de aprovação do BC.
- 8 de abril de 2025: BC considera insuficientes as medidas do banco para risco de liquidez.
- 15 de abril de 2025: Master pede assistência financeira ao FGC.
- Maio de 2025: Iniciam negociações para venda de ativos pessoais de Vorcaro ao BTG.
- Julho de 2025: Início da venda de ações da seguradora Kovr.
- Agosto de 2025: Transferência do controle do Banco Voiter aprovada pelo BC.
- Setembro de 2025: Venda do Itaminas Fundo de Investimento registrada.
- 4 de setembro de 2025: Master e BC firmam novo acordo para recomposição de liquidez.
- 3 de setembro de 2025: BC rejeita compra do Master pelo BRB.
- 18 de novembro de 2025: Liquidação do Banco Master decretada pelo BC.
