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De espião da KGB ao “11 de setembro russo”: a história de Vladimir Putin

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Para parte dos russos, Putin representa o líder que estabilizou o país após a queda da URSS. Após referendo, o presidente poderá ficar no poder até 2036

Putin em celebração pelos 75 anos do fim da Segunda Guerra: herdeiro soviético (Host Photo Agency/Getty Images)

O referendo de sete dias que terminou na Rússia nesta quarta-feira, 1, fez o mundo novamente olhar para o histórico do presidente russo Vladimir Putin à frente do país, de mais de 144 milhões de habitantes e herdeiro da extinta União Soviética. Os russos na casa dos 20 anos nunca conheceram outro líder no poder, e, para o futuro, há pouca ou nenhuma opção de outros candidatos promissores na oposição ou dentro do partido governista. No século 21, só Putin comandou a Rússia na prática, alternando entre cargos de presidente e primeiro-ministro.

Com os resultados do referendo, a população aprovou por mais de 70% dos votos uma reforma constitucional que permitirá a Putin ficar no poder até 2036 caso siga vencendo as eleições — por mais 12 anos após o fim de seu atual mandato, em 2024.

A mudança já havia sido aprovada pelo Parlamento em março, mas analistas apontam que o desejo do presidente foi levar a votação a referendo para demonstrar apoio popular. Em meio a tudo isso, Putin terá também de lidar com o avanço do coronavírus na Rússia, que já é o terceiro país em número de casos, atrás de Brasil e Estados Unidos — manter o referendo em meio à pandemia foi uma das críticas feitas pela oposição ao presidente.

Na reportagem abaixo, publicada originalmente em 2017, a Exame destrincha parte do histórico do presidente à frente da Rússia, seus feitos no cargo e as críticas a ele.

Putin com a rainha Elizabeth, do Reino Unido, em 2003: presidente está no poder na Rússia desde 1999 (Tim Graham Photo Library/Getty Images)

O homem da KGB

A Rússia está de volta ao jogo da geopolítica nos últimos anos. O país da Europa oriental tem se portado cada vez mais como herdeiro soviético e, apesar de a Guerra Fria ter acabado há mais de 20 anos, novos embates com o Ocidente se delineiam no mapa. Para resgatar seu título de superpotência, o país tem tem feito questão de provar sua influência no tabuleiro, marcando presença nos assuntos que vão da Síria aos Estados Unidos. O mestre nesse xadrez imperialista? Vladimir Putin.

No poder desde 2000, o presidente russo representa, para grande parte da população de seu país, aquele que estabilizou o país após a queda da URSS na década de 90 e que não se curva aos interesses ocidentais. “Ele não é um grande orador, não é um líder carismático, mas chega até o russo médio porque passa credibilidade. Ele representa o que muitos acreditam ser um poder necessário para resgatar a autoridade russa que foi perdida”, diz o historiador Sidney Ferreira Leite, especialista em Relações Internacionais e pró-reitor do Centro Universitário Belas-Artes.

Um homem fisicamente forte, ex-espião do serviço secreto soviético e centralizador, Putin é respeitado por seus conterrâneos, mas seu perfil discreto e ao mesmo tempo incisivo intriga o resto do mundo. Para o senador americano John McCain, Vladimir Putin é um “assassino e um agente da KGB”. Já para Donald Trump, “um líder bem melhor” do que o ex-presidente americano Barack Obama.

Filho de uma operária e de um soldado da marinha que lutou na Segunda Guerra, o homem mais poderoso da Rússia cresceu num subúrbio de São Petersburgo, segunda maior cidade do país — chamada de Leningrado até 1991, herança da Revolução Russa que instaurou o comunismo em 1917. Nascido em 1952, foi criado como filho único, uma vez que os irmãos morreram ainda crianças. “Não posso dizer que éramos uma família muito emocional. Não conversávamos muito”, contou ao documentário The World’s Most Powerful President, da rede americana Freedom TV.

Em 1975, então com 24 anos anos, entrou para o treinamento da KGB, o serviço secreto russo, logo após concluir o curso de Direito pela Universidade de Leningrado. Por seu alemão fluente, trabalhou para a KGB na Alemanha Oriental e viu de perto o início da queda do Muro de Berlim, em 1989. O presidente conta que queimou documentos da KGB, na ocasião, para que opositores não os encontrassem. Putin permaneceria no serviço secreto até 1991.

De volta a São Petersburgo, Putin se aproximou do então prefeito Mayor Sobchak. Em 1994, se tornou vice-prefeito da cidade — e seria o início de sua vida pública. Dois anos depois, já em Moscou, conheceu o alto escalão da política russa. A escalada foi rápida. Passou a integrar a FSP, agência de inteligência que substituiu a KGB após o fim da URSS, foi nomeado diretor da instituição, logo depois garantiu o cargo de secretário do Conselho de Segurança e, em 1999, foi escolhido para ser primeiro-ministro do então presidente Boris Yeltsin — o primeiro líder eleito democraticamente após o fim da URSS.

Para muitos, boa parte da rápida ascensão de Putin se deve ao apoio de Yeltsin, e a relação dos dois é vista como controversa. Circula um boato de que Putin, no comando da FSP, teria chantageado o procurador-geral russo, Yury Skuratov, para impedir que ele investigasse o envolvimento de Yeltsin em um esquema de propina. Por isso, Yeltsin é acusado de ter escolhido Putin para ser seu braço-direito apenas por acreditar que ele, no futuro, o protegeria novamente de outras investigações.

Ninguém pode dizer que Yeltsin não estava certo: talvez por herança dos treinamentos de KGB, Putin tem fama de ser extremamente leal com os amigos. Quando assumiu a presidência pela primeira vez, em 2000, perguntaram qual era seu colega mais digno de confiança. Ele citou cinco pessoas na ocasião e, 17 anos depois, todas elas ainda ocupam cargos do alto escalão do governo.

Putin, em sua primeira vez como primeiro-ministro, em 1999: escolhido por Boris Yeltsin, primeiro líder eleito após o fim da URSS (Laski Diffusion/Getty Images)

O 11 de setembro russo
Yeltsin não só nomeou Putin como primeiro-ministro como anunciou que apostava nele para ser seu sucessor — e o seu pupilo, de fato, venceu as eleições do ano seguinte. Se hoje Vladimir Putin é o nome mais forte da política russa, na época ele era apenas um ex-espião da KGB praticamente desconhecido. Como conseguiu votos suficientes para se eleger presidente? Sua popularidade cresceu logo no início do seu trabalho como premiê, graças a uma ofensiva militar que muitos estudiosos classificam como o “11 de setembro russo”.

No fim da década de 1990, quando o império soviético se desmantelava, um dos territórios em disputa era a Chechênia, que se proclamara independente em 1991. Para retomar o controle da região, Yeltsin iniciou a Primeira Guerra da Chechênia em 1994, e o embate terminou com uma derrota da Rússia. Mas uma nova ofensiva russa liderada por Putin retomou o território. E a nova investida russa, mais dura, foi justificada por um atentado a um prédio residencial no centro de Moscou, que terminou com a morte de dezenas de russos. Segundo o governo, o ataque foi articulado pelos chechenos, mas, para os oposicionistas, Putin forjou o atentado para justificar a guerra e, de quebra, fortalecer seu nome no radar da política nacional. Uma jornalista e um ex-espião russo que tentaram investigar o caso apareceram mortos anos depois.

O fato é que o caso fez mesmo a popularidade de Putin crescer. Em dezembro de 1999, Yeltsin renunciou e Putin se tornou presidente interino. Em 2000, venceu as eleições logo no primeiro turno, com 53% dos votos. Putin está em seu terceiro mandato como presidente (2000, 2004 e 2012). Como a Constituição russa não permite três mandatos seguidos, nas eleições de 2008, ele voltou a ser primeiro-ministro e apoiou Dmitry Medvedev — seu atual premiê e escolhido a dedo para substituí-lo na presidência até que ele pudesse retornar ao cargo em 2012. Na prática, é Putin quem manda no país há mais de 16 anos. E, para as eleições de 2018, seu partido Rússia Unida já aparece com 40% de favoritismo nas pesquisas de intenção de voto.

Uma ajudinha do petróleo
Sua popularidade é inegável. Uma pesquisa de agosto do Levada Center, instituto russo independente e visto como confiável pela comunidade internacional, identificou que o presidente tinha 82% de aprovação. Outra pesquisa, do também confiável Associated Press-NORC Center for Public Affairs Research, mostrava uma percepção positiva de 81% em 2014. E, na receita do sucesso, um dos ingredientes foi a crise.

Putin assumiu num período economicamente muito difícil para a Rússia: após o fim da União Soviética, os primeiros presidentes, Mikhail Gorbachev e Boris Yeltsin, implantaram um plano de transição para o capitalismo, com privatização desenfreada que beneficiou oligarquias próximas ao governo. O resultado foi desastroso. “Com Yeltsin e Gorbachev, a Rússia perdeu o status de grande potência, e a década de 1990 foi um período de exceção na história de poder do país”, diz o historiador Angelo Segrillo, professor da USP e autor do livro Rússia: Europa ou Ásia.

Enquanto bilhões de dólares da elite russa eram enviados para o exterior, a Rússia se endividava com o Fundo Monetário Internacional, e o PIB caiu 40% só em 1999. “O colapso da União Soviética foi seguido pelo fim da segurança, um descontrole. Então o Putin veio e trouxe algum tipo de estabilidade, de segurança”, diz a historiadora Marci Shore, da Universidade Yale, e autora de The Taste of Ashes: The Afterlife of Totalitarianism in Eastern Europe (“O gosto das cinzas: a vida póstuma do totalitarismo na Europa Oriental”, em tradução livre).

Quando Putin assumiu, implantou algumas reformas, como a desvalorização do rublo russo, para favorecer as exportações. E os preços das commodities voltaram a crescer a partir de 2000. O barril de petróleo, um dos principais produtos russos, passou de 10 dólares para 100, em 2008. Resultado: na era Putin, o PIB subiu cerca de 7% ao ano, a renda e o consumo aumentaram e o número de pessoas abaixo da linha da pobreza caiu de 30% em 2000 para 14% em 2008. “Putin veio logo depois do fundo do poço e recentralizou o Estado”, diz Segrillo. “Muitos gostaram porque acham que ele colocou ordem na casa”. Os líderes centralizadores costumam ser um sucesso na Rússia – uma tradição que se estendeu desde o período dos czares até a Revolução Russa.

Putin e o presidente americano, Donald Trump: embates geopolíticos (Mikhail Svetlov/Getty Images)

O macho-alfa russo

Embora Putin governe a Rússia há mais de uma década, pouco se sabe sobre sua vida pessoal. Do casamento de 30 anos com Lyudmila Shkrebneva, de quem se divorciou em 2013, vieram duas filhas, cujas identidades são guardadas a sete chaves. Uma reportagem da agência de notícias Reuters apurou, embora sem conseguir confirmar a informação, que ambas são pesquisadoras e não usam o sobrenome Putin para não serem identificadas. Ora ou outra, o assunto volta à tona. “Eu nunca disse onde exatamente minhas filhas trabalham, o que elas fazem, e não pretendo fazê-lo agora por muitas razões, incluindo por uma questão de segurança”, declarou o presidente em dezembro passado.

De qualquer forma, Putin não é uma exceção entre os líderes russos, e que a discrição é quase uma característica cultural. “Nos Estados Unidos, tudo é muito público. Os candidatos fazem campanha com suas famílias, todo mundo conhece Michele Obama ou Jackie Kennedy. Mas na Rússia, eles quase nunca falam sobre isso”, diz a cientista política Valerie Sperling, professora da Universidade Clark e membro do Davis Center para Estudos da Rússia e da Eurásia.

Mas a discrição não impede que a imagem pessoal de Putin seja explorada — e trabalhe a seu favor. Principalmente nos primeiros anos de mandato, circulavam fotos do presidente cavalgando sem camisa, praticando esportes ou caçando animais selvagens. E esse é um dos fatores que o fazem reforçar a imagem de liderança e transmitir confiança aos russos. No artigo Capitalismo, autocracia e masculinidades na Rússia, a pesquisadora Tatiana Zhurzhenko estudou como Putin representa o típico homem soviético, o chamado muzhyk — independente, forte, trabalhador, patriota e leal. “O país inteiro sabe a lista de hobbies heróicos do presidente. Isso inclui lutar judô, andar a cavalo, mergulhar, pilotar uma Harley-Davidson ou um avião de caça, resgatar animais selvagens”, escreve Zhurzhenko.

Putin e o presidente americano, Donald Trump: embates geopolíticos (Mikhail Svetlov/Getty Images)

Cerco fechado à oposição

No começo, embora sempre controlador, Putin tentava administrar uma oposição relativamente plural. Mas, com o crescimento dos movimentos contrários ao seu governo, ele vem se tornando cada vez mais autoritário, controlando a imprensa, divulgando estatísticas estatais imprecisas e perseguindo inimigos políticos — são mais de 100 pessoas presas por orientação ideológica na Rússia, segundo a ONG de direitos humanos russa Memorial. Nas eleições de 2012, observadores da Organização para Segurança e Cooperação na Europa alegaram que faltou aos adversários de Putin “acesso genuíno” à mídia.

As investidas mais autoritárias do presidente não deixam de ser uma forma de manter o controle frente às ameaças. Para a historiadora e cientista política russa Lilia Shevtsova, pesquisadora da organização Chatham House de Londres e autora do livro A Rússia de Putin, “mais da metade da população já diz que a Rússia precisa de uma oposição. E essa oposição vai crescer, inevitavelmente. Mas é difícil dizer quando”. Com a queda nos preços do petróleo e outras commodities desde 2014 e as sanções econômicas do Ocidente, devido à anexação da Crimeia, o PIB russo caiu mais de 50% entre 2014 e 2015.

E os problemas não estão só dentro de casa. A aproximação da Ucrânia com a Europa Ocidental e com a Otan, aliança militar ocidental, preocupa Putin. E o discurso da organização de que precisa proteger os países bálticos da influência russa, ex-territórios soviéticos, também. “Putin recupera a visão de que a Rússia é o poder central da Eurásia, e que tem o direito de exercer hegemonia sobre os países da região”, diz Sidney Ferreira Leite, da Belas-Artes. Por isso foi tão importante para Putin anexar a Crimeia em 2014: o episódio serviu para mostrar ao Ocidente quem manda na região.

Para conseguir manter sua popularidade alta, é fundamental manter a postura bélica. De acordo com a pesquisadora Lilia Shevtsova, o presidente usa “um conflito político atrás do outro” para se “re-energizar” com o eleitorado. E para realçar sua principal força – a militar – para o resto do mundo. O principal território de influência da Rússia, hoje, é a Síria. Aliado de Bashar al-Assad e com atuação relevante do país, Putin conseguiu mostrar que, se o mundo quiser frear a maior crise de refugiados da história e combater o Estado Islâmico, a conversa vai precisar passar por ele. “Se envolver com a Síria foi o jeito do Putin de voltar para a mesa”, diz Valerie Sperling, da Clark University.

À distância, Putin também se tornou protagonista das eleições presidenciais americanas, se posicionando como aliado do republicano Donald Trump, após anos de sucessivos embates com o democrata Barack Obama. Mas as polêmicas não podiam ficar de lado: há suspeitas de que a Rússia teria tentado interferir no processo eleitoral e o FBI confirmou que hackers russos vazaram e-mails do Partido Democrata – não se sabe de a mando do governo ou não.

Assim que o novo presidente assumiu, ficou acertado que os dois países – historicamente inimigos – normalizariam as relações. Mas, ao lidar com um estrategista como Putin, é sempre difícil saber quais suas reais intenções. Em janeiro, um espião britânico também vazou um dossiê afirmando que a Rússia supostamente teria dados comprometedores sobre Trump – e que eles seriam usados para chantageá-lo no futuro. “Putin faz questão de deixar claro que ninguém vai tirar vantagem do seu país”, analisa Sperling. “Ele é o cara que quer fazer a Rússia great again”.

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Em Davos, Merkel manda recado a big techs e EUA diz que é preciso evitar monopólios

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Em discurso no Fórum Econômico Mundial, Merkel disse que os governos têm de se preocupar com processos de “concentração” e que o coronavírus expôs as fragilidades dos sistemas econômicos

Merkel: “Em tempos de globalização, quando se persegue uma política nacional, há que se pensar na interconexão global” (Hannibal Hanschke/Reuters)

Após fala do presidente chinês Xi Jinping abrindo o Fórum Econômico Mundial e pedindo maior “cooperação” entre os países, a chanceler alemã Angela Merkel também defendeu a necessidade de medidas globais no segundo dia do evento, na manhã desta terça-feira, 26.

Na fala, Merkel disse que a pandemia “mostrou de forma muito clara o quanto estamos interconectados” e que está é a “era do multilateralismo”. Mas não sem regras: a chanceler pediu competição no mundo tecnológico e, citando o discurso de Xi no dia anterior, afirmou que não acredita que o caminho a seguir seja uma divisão do mundo entre China e EUA.

Merkel afirma que a pandemia testou “a resiliência de nossos sistemas e sociedades” e que “nossa vulnerabilidade ficou óbvia”. A alemã usou como exemplo o fato de a pandemia possivelmente ter começado em animais e se espalhado para humanos — mostrando como o ser humano também é parte da natureza, independentemente dos avanços tecnológicos.

Perguntada sobre o discurso de Xi Jinping, Merkel disse que concorda com o chinês sobre a importância do multilateralismo mas disse que não há concordância “imediata” quando o debate se volta aos “sistemas sociais diferentes” entre os países — em crítica à falta de democracia na China. “A China se comprometeu ao quadro das Nações Unidas, e a dignidade do indivíduo tem um papel nesse quadro, então… temos de discutir essa questão, não importa de qual sistema social viemos”, disse, defendendo também que as relações comerciais exigem transparência.

Apesar das críticas ao modelo político chinês, Merkel também comentou indiretamente a guerra comercial entre China e EUA, deixando claro que a Europa não deve, neste momento, ter um lado claro no confronto. “Eu gostaria muito de evitar a construção de blocos, não acho que faria justiça a muitas sociedades se disséssemos: aqui estão os EUA, e lá está a China, e estamos nos agrupando com um ou outro. Não é meu entendimento de como as coisas devem ser.”

No fim do ano passado, União Europeia e China assinaram um histórico acordo de investimentos que mostra uma posição de maior independência europeia, segundo especialistas, após anos de distanciamento com os EUA no governo Donald Trump. Uma reaproximação com a Europa deve estar entre as principais medidas do novo governo de Joe Biden.

Freio nos monopólios e capitalismo de stakeholder

Em diversos momentos da fala, Merkel também citou uma preocupação com “processos de concentração” nas empresas, que, segundo ela “têm de ser parados caso se tornem muito poderosos”.

Citando o governo novo governo Biden, a chanceler disse que tem esperança de que, “especialmente com a nova administração americana”, a OCDE (grupo de economias desenvolvidas) possa continuar um trabalho de discussão sobre taxação, em especial a empresas digitais.

“Estamos em uma posição melhor para olhar a importância global de leis de competição de modo a prevenir monopólios. Porque nós de fato temos essas tendências, em todo o mundo. E temos que endereçar isso”, disse, sem citar companhias específicas, mas em claro recado às grandes empresas de tecnologia americanas, como Google, Facebook, Amazon e Apple.

A falta de concorrência no setor vem sendo questionada especialmente na Europa nos últimos anos, mas também dentro dos EUA. Merkel afirma que, se esse desafio não for enfrentado — ou se o for “de forma insuficiente” –, o mundo terá monopólios e muitos problemas.

Questionada sobre o papel do Estado e o capitalismo de stakeholder, que defende a geração de valor a todas as partes interessadas no negócio — um dos principais temas deste ano em Davos –, Merkel disse que é preciso encontrar “um balanço certo” entre as ações dos Estados e das empresas, de modo a não minar o empreendedorismo e a criatividade.

Disse, no entanto, que o Estado seguirá sendo crucial na busca por soluções — e frisou que essas medidas devem levar em conta o contexto do mundo, não só de seu próprio país. “Em tempos de globalização, quando se persegue uma política nacional, há que se pensar na interconexão global”, disse. Dentre os exemplos de medidas que cabem aos governos em todo o mundo, ela voltou a citar ações contra a concentração empresarial.

Merkel também comparou o capitalismo de stakeholder à chamada social market economy (economia de mercado social), o modelo que predominou na Europa pós-Segunda Guerra e que busca combinar um mercado capitalista livre com políticas sociais que estabeleçam competição justa e um estado de bem-estar social, com acesso a saúde, educação e outros direitos básicos. “Acredito que o capitalismo de stakeholder e a economia de mercado social são idênticas”, disse.

Sobre os temas ambientais, disse que é preciso que os países tenham “a mente aberta” para as novas tecnologias e que o mundo deve mudar suas políticas energéticas, avançando para frentes como carros elétricos e energias renováveis. Defendeu também que os governos devem colocar preços nas emissões de poluentes. “E isso tem de ser obrigatório, pois não acredito que nenhuma empresa individualmente faria isso por si mesma, ou o faria de forma rápida o suficiente — ao menos, não a totalidade das empresas”, disse.

Países em desenvolvimento

Merkel disse que a Alemanha defende que União Europeia, em seu plano de recuperação, não diminua o investimento na cooperação com países mais pobres, mas que “faça mais”.

“Estamos em um perigo presente claro que depois da pandemia nos termos mais voltados para dentro: industrializemos países, concentremos em nossas próprias políticas, e não nos importemos com os países em desenvolvimento. É algo que temos que evitar a todo custo”, disse.

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FBI intensifica repressão a milícias antes da posse de Biden

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Analistas alertam que a retórica divisiva de Trump alimenta essas facções. Capitólio é esvaziado após alarme falso

(crédito: AFP / Mathieu Lewis-Rolland)

A poucas horas da posse do democrata Joe Biden e do fim do governo do republicano Donald Trump, a capital, Washington, e as principais cidades dos Estados Unidos reforçaram a segurança, ante o temor de protestos violentos. O FBI (a polícia federal norte-americana) ampliou as investigações sobre a participação das milícias Oath Keepers (“Guardiões do Juramento”), Three Percenters (“Três Porcento”) e Proud Boys (“Garotos Orgulhosos”) na invasão ao Capitólio, no último dia 6, e alertaram que seguidores do magnata preparam manifestações armadas nos 50 estados. Na tarde de domingo, John Schaffer, 52 anos, entregou-se aos agentes depois de ser fotografado, no Congresso, usando um chapéu com a frase “Oath Keepers Lifetime Member” (“Membro vitalício do Oath Keepers”). No mesmo dia, Robert Gieswein, 24, integrante do Three Percenters, foi indiciado pelo ataque. Enquanto isso, membros do grupo Boogaloo Boys, ávidos por uma segunda Guerra Civil Americana, brandiram armas nas ruas de Salem (Oregon) e Richmond (Virgínia).

Apesar de contrária ao governo, a maioria das milícias de extrema-direita se alimentou do discurso de Trump. Os seus integrantes estampam a bandeira dos EUA com orgulho e disseminam teorias conspiratórias e fake news. Especialistas admitiram ao Correio que os grupos armados se impõem como ameaça à democracia. O medo de simpatizantes do republicano sabotarem a posse de Biden levou ao isolamento da Casa Branca e do Capitólio com arame e concreto. Mais de 20 mil membros da Guarda Nacional vigiam Washington. Um ensaio da cerimônia foi interrompido, ontem, por um “incidente de segurança”. Testemunhas relataram fumaça em área próxima ao Congresso. Após o prédio ser esvaziado, as autoridades anunciaram alarme falso.

Professor da Faculdade de Preparação para Emergências, Segurança Interna e Cibersegurança da Universidade de Albany (Nova York) e autor de Oath Keepers — Patriotism and the edge of violence in a right-wing antigovernment group (“Oath Keepers — Patriotismo e o limite da violência em um grupo antigoverno de direita”), Sam Jackson atribuiu a milícias de extrema-direita a principal ameaça contra a democracia. “São um risco aos valores da democracia deliberativa pacífica. Elas insistem que a política dos EUA está falida, que as eleições não funcionam e que o sistema é fraudado”, explica ao Correio.

De acordo com Jackson, as milícias operam dentro de salvaguardas da Primeira e da Segunda Emenda, que versam sobre a liberdade de expressão e o porte de armas. “A compreensão que elas têm em torno das garantias constitucionais não importa de uma perspectiva legal. É verdade que muitos estados nos EUA têm leis ou disposições constitucionais que proíbem organizações paramilitares desprovidas de vínculos com o governo”, afirma.

“As milícias promovem narrativas de conspiração que deslegitimam o processo democrático e o governo”, admite Arie Perliger — professor da Faculdade de Criminologia da University of Massachusetts Lowell e autor de American zealots: Inside right-wing domestic terrorism (“Zelotes americanos: Por dentro do terrorismo doméstico de direita”). Segundo ele, as facções usam as mídias sociais para ampliar a capacidade operacional a todo o território norte-americano. Em 2013, Stewart Rhodes, líder da Oath Keepers, externou a intenção de espalhar “tropas” pelo país para fornecer segurança “durante crises”. “A presença de policiais e de veteranos nas milícias lhes proporciona acesso à experiência militar e facilita a apresentação como se fossem patriotas”, acrescentou Perliger.

Richard Fontaine, diretor do Center for a New American Security, em Washington, lembra ao Correio que grupos domésticos têm matado mais nos EUA do que facções terroristas, como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico. “A combinação de incitamento, violência e ilegalidade vista no ataque ao Capitólio pôs em xeque a democracia americana.” Ele diz que as milícias se valem de um ecossistema de comunicações, no qual atores-chave circulam teorias da conspiração, disseminam desinformação, expressam queixas e se organizam. Hoje, na véspera de deixar a Casa Branca antes da posse de Biden, Trump deve anunciar mais de 100 perdões.

FBI indicia filho de brasileiros

 (crédito: Facebook/Reprodução)

crédito: Facebook/Reprodução.

A mensagem foi deixada por Samuel Camargo, 26 anos, em seu perfil no Facebook, à 1h54 de 7 de janeiro, apenas algumas horas depois da invasão ao Capitólio. “A todos os meus amigos, familiares e às pessoas dos Estados Unidos. Peço desculpas por minhas ações, hoje, no Capitólio, em D.C. Estive envolvido nos eventos que ocorreram hoje cedo. Sairei de todas as mídias sociais em um futuro próximo e cooperarei com todas as investigações que possam surgir sobre meu envolvimento. Lamento a todas as pessoas que decepcionei, pois isso não é o que sou nem o que eu defendo”, escreveu Camargo, que é filho de brasileiros, nasceu em Boston e vive em Fort Myers (Flórida). Às 15h57 do dia seguinte, ele publicou na rede social: “Acabei de falar com um agente do FBI (polícia federal americana). Acho que fui inocentado)”. Centenas de pessoas o criticaram e o ofenderam ao responderem a publicação.

Camargo foi indiciado pelo FBI por obstruir o trabalho das forças de segurança; invadir área restrita sem permissão; cometer violência física contra pessoas ou propriedades em áreas restritas; e por adotar uma conduta desordenada ou perturbadora para interromper uma sessão do Congresso. Testemunhas contaram ter visto o homem em diferentes momentos da marcha que antecedeu a invasão e em meio aos distúrbios no Capitólio. Ele teria posado para foto, no Instagram, ao lado de um “pedaço de metal” do prédio do Congresso, o qual teria sido retirado como recordação. O Correio tentou entrevistar amigos e familiares de Camargo, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.

Pontos de vista

 (crédito: Arquivo pessoal)

crédito: Arquivo pessoal.

Por Sam Jackson

Contrários ao governo
“Existe amplo movimento de pessoas nos EUA que veem o governo como problemático; que têm compreensão absolutista dos direitos de usar armas de fogo. É importante ver o continuum na extrema-direita, que inclui grupos que planejam a violência proativa e a defensiva. As milícias Oath Keepers e Three Percenters são favoráveis a Trump, mas não ao establishment. A percepção é de que o governo significa uma ameaça aos americanos.”

Professor da Faculdade de Preparação para Emergências, Segurança Interna e Cibersegurança da Universidade de Albany (Nova York)

Por Arie Perliger

Supremacia branca e antissemitismo
“O ethos do movimento das milícias de extrema-direita foi dominado, em seus primeiros anos, pela crença na ‘Nova Ordem Mundial’, em que o governo é visto como entidade sequestrada por ‘forças’ estrangeiras que visam promover a fusão dos EUA em Nações Unidas ou outra versão de governança global. Essas teorias da conspiração foram fundidas em ideias nativistas e antiglobalistas. No início da década de 1990, líderes de milícias adotaram a supremacia branca e antissemitismo.”

Professor da Faculdade de Criminologia e de Estudos da Justiça da University of Massachusetts Lowell

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Opositor Navalny será julgado nesta quarta na Rússia por difamação

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Alexei Navalny foi preso no domingo, ao voltar para a Rússia procedente de Berlim. Ficará preso pelo menos até 15 de fevereiro, no âmbito de um procedimento por violação de um controle judicial

(crédito: Dimitar DILKOFF / AFP)

Detido desde seu retorno à Rússia no domingo (17/01), o opositor Alexei Navalny será julgado nesta quarta (20/01) por difamação de um ex-combatente da Segunda Guerra Mundial, crime punível com multa, ou prisão – anunciaram seus advogados nesta terça (19/01).

O comitê de investigação russo abriu este processo de difamação contra Navalny em julho, acusado de ter divulgado “informações mentirosas e injúrias à honra e à dignidade” de um veterano da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

A pessoa envolvida havia manifestado na televisão seu apoio ao referendo constitucional do verão passado para reforçar os poderes de Vladimir Putin.

A investigação do caso foi suspensa durante a hospitalização do oponente na Alemanha, após seu suposto envenenamento em agosto. Navalny acusa o Kremlin pelo ocorrido, e as autoridades russas negam qualquer envolvimento.

Navalny foi preso no domingo, ao voltar para a Rússia procedente de Berlim. Ficará preso pelo menos até 15 de fevereiro, no âmbito de um procedimento por violação de um controle judicial. Está detido em Moscou, em quarentena, devido à pandemia da covid-19.

A depender da gravidade dos fatos, a difamação pode ser punida com multa de até 5 milhões de rublos (US$ 57 mil) e cinco anos de prisão. Também pode ser alvo de penas mais leves, como trabalho de interesse geral.

O serviço penitenciário russo havia alertado que Navalny seria preso em seu retorno, por ter violado o controle judicial que lhe foi imposto como parte de uma pena de cinco anos de prisão sob sursis por peculato. O opositor de Putin insiste na motivação política deste caso.

Desde o final de dezembro, ele é alvo de uma nova investigação de fraude por suspeita de ter gastado 356 milhões de rublos (US$ 4,8 milhões) em doações para seu uso pessoal.

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Montanhista russo-americano desaparecido é encontrado morto no Paquistão

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Alex Goldfarb participava de uma expedição para escalar o Broad Peak, um dos 14 picos do mundo com mais de 8 mil metros de altitude, e desapareceu no sábado (16/01)

Cordilheira Karakoram, na região montanhosa de Gilgit do Paquistão. – (crédito: AMELIE HERENSTEIN / AFP)

O montanhista russo-americano Alex Goldfarb, desaparecido desde sábado (16/01) em uma montanha no nordeste do Paquistão, onde buscava se aclimatar para a subida de inverno do Broad Peak (8.047 metros), foi encontrado morto – anunciou um porta-voz da expedição nesta terça-feira (19/01).

O corpo de Goldfarb foi avistado por um helicóptero de resgate no Pastore Peak (6.209 metros), na cordilheira de Karakórum, “onde parece ter caído”, disse o porta-voz Laszlo Pinter, em um comunicado.

Goldfarb participava, junto com o húngaro Zoltan Szlanko, de uma expedição para escalar o Broad Peak neste inverno boreal (verão no Brasil), Este é um dos 14 picos do mundo com mais de 8.000 metros de altitude.

Para se aclimatar, Alex e Zoltan iniciaram a subida do Pastore Peak no sábado, uma montanha que nunca foi escalada no inverno.

Julgando que as condições eram muito perigosas, Szlanko decidiu voltar, mas não conseguiu convencer seu parceiro a fazer o mesmo, segundo o porta-voz. Depois disso, Goldfarb não entrou mais em contato com sua equipe, como deveria ter feito.

Ele é o segundo alpinista morto em poucos dias no Karakórum. No sábado, o espanhol Sergi Mingote não sobreviveu a uma queda no K2 (8.611 metros de altitude). Segundo pico mais alto do mundo, ele fica a dez quilômetros do Broad Peak.

Nesse mesmo dia, uma equipe de dez nepaleses conseguiu a primeira subida de inverno do K2, o único “8.000” que nunca havia sido escalado no inverno.

O inverno é particularmente rigoroso no Karakórum, mais do que no Himalaia. Apelidado de “montanha selvagem”, o K2 está sujeito, no inverno, a ventos de até 200 km/h e a temperaturas que podem cair até -60°C.

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Socorristas seguem tentando resgatar mineiros soterrados na China

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Os mineiros estão soterrados há nove dias em uma mina de ouro na China. As autoridades sabem a localização de pelo menos 12 dos 22 mineiros

(crédito: AFP)

As equipes de resgate escavavam vários novos dutos nesta terça-feira (19/01), para tentar acessar o local onde estão pelo menos 12 dos 22 mineiros soterrados há nove dias em uma mina de ouro na China – informaram as autoridades.

Os socorristas correm contra o tempo, em meio ao aumento do nível de água que ameaça os mineiros no subterrâneo.

Em 10 de janeiro, uma explosão em uma mina de ouro em Qixia, na província de Shandong Oriental, deixou estes mineiros presos a várias centenas de metros abaixo da superfície.

Até agora, as equipes de resgate conseguiram entregar comida a esses trabalhadores, através de um duto escavado na rocha.

Os mineiros conseguiram, por sua vez, fazer chegar à superfície uma mensagem escrita à mão em uma página arrancada de um caderno. Nela, pediram que fossem enviados remédios e alertaram sobre o perigo do aumento das águas subterrâneas. O bilhete relatava ainda que quatro homens estão feridos.

Uma ligação entre os socorristas e os mineiros confirmou que 11 pessoas estavam a 540 metros no subsolo, e uma, 100 metros abaixo. Não se sabe onde estão os outros dez homens.

“A rocha perto da jazida é, principalmente, de granito (…) que é muito duro e isso está impedindo o resgate”, disse Chen Fei, prefeito da cidade de Yantai, na segunda-feira.

Além dos três dutos já perfurados, as equipes de resgate começaram a cavar mais três nesta terça-feira, de acordo com um mapa das operações de resgate divulgado pelas autoridades na rede social Weibo (o Twitter chinês).

A televisão pública CCTV mostrou dezenas de socorristas limpando o poço de saída, assim como guindastes e uma grande máquina de perfuração para chegar até os mineiros.

Dois funcionários de Qixia, o líder local do Partido Comunista e o prefeito, foram demitidos na semana passada, devido à demora de um dia entre o acidente e o lançamento da operação de resgate.

 

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Tribunal europeu condena Suíça por multar mendiga que pedia dinheiro na rua

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A mulher foi multada por mendigar em via pública. Após não pagar a multa ela foi presa por cinco dias

(crédito: Fabrice COFFRINI / AFP)

O Tribunal Europeu de Direitos Humanos (TEDH) condenou a Suíça, nesta terça-feira (19/01), por ter imposto uma forte multa a uma romena por mendigar em via pública.

“O Tribunal considera que a pena imposta à demandante não era unm medida proporcional nem para lutar contra a delinquência organizada, nem para proteger os direitos dos transeuntes, dos moradores e dos comerciantes”, alegou a instituição judicial do Conselho da Europa com sede em Estrasburgo.

A romena foi multada em 500 francos suíços (ou US$ 563 no câmbio atual) por mendigar na rua em Genebra, em janeiro de 2014.

Quando a mulher, que é analfabeta e está desempregada, não pagou o valor devido, foi posta em detenção temporária por cinco dias.

A mulher tinha “o direito, inerente à dignidade humana, de expressar sua angústia e tentar satisfazer suas necessidades mediante a mendicância”, afirma o veredicto.

Nesse sentido, a Corte considerou que a Suíça violou o artigo 8 do Convênio Europeu de Direitos Humanos, que garante a proteção da vida privada e familiar, e ordenou ao país a pagar à mulher US$ 1.118 por danos morais.

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quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

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