Tamara Nassif e Matheus dos Santos
Folhapress
O crime representa um custo de no mínimo R$ 107 bilhões por ano para as indústrias no Brasil, somando perdas causadas pelo mercado ilegal e despesas com prevenção e segurança.
Essa informação vem de uma pesquisa feita pela CNI (Confederação Nacional da Indústria), que entrevistou 1.398 empresas de 32 setores industriais de diferentes tamanhos em todo o país, entre 3 e 12 de novembro do ano passado.
Desses R$ 107 bilhões, R$ 68,8 bilhões são gastos somente em ações para evitar crimes, incluindo vigilância, monitoramento eletrônico, segurança cibernética e proteção pessoal.
Os outros R$ 39,1 bilhões correspondem a perdas diretas causadas por crimes, como roubo de cargas, furtos de matérias-primas, pirataria, contrabando e ligações ilegais de energia.
Fabrício Silveira, superintendente de política industrial da CNI e responsável pelo estudo, ressalta que esses recursos poderiam ser usados para investir, criar empregos e melhorar a produção.
A pesquisa indica que parte dessas perdas pode estar ligada ao crime organizado, embora não seja possível medir exatamente esse impacto. Segundo Silveira, setores como combustíveis e bebidas já apresentaram evidências de participação de grupos criminosos.
Ele cita casos no setor de metanol e nas operações com combustíveis onde a presença dessas organizações era forte.
Silveira também destaca que é difícil identificar exatamente quem está por trás dos crimes, já que as empresas conseguem quantificar as perdas, mas não identificar os responsáveis.
Mais de um terço das indústrias brasileiras são afetadas pelas perdas decorrentes do crime, com um impacto financeiro médio de 0,6% para pequenas, 0,8% para médias e 0,4% para grandes empresas.
Esse detalhamento é importante porque as micro e pequenas empresas representam quase metade da indústria nacional, segundo dados do Sebrae de 2024. Quando afetadas por crimes, elas tendem a reduzir investimentos e adiar projetos, comprometendo o crescimento econômico a longo prazo.
Os crimes mais comuns na indústria são o roubo de cargas, que lidera com 32% dos casos.
Silveira explica que os tipos de crime variam conforme o tamanho da empresa: as menores sofrem mais com furtos dentro das instalações, enquanto o roubo de cargas é mais frequente entre médias e grandes empresas.
Somente no Rio de Janeiro, a Firjan registrou mais de 3.000 casos de roubo de cargas em 2025, o que representa cerca de oito caminhões atacados por dia na região. O prejuízo estimado chegou a R$ 314 milhões para as empresas locais.
Outro problema frequente é a venda de produtos que não cumprem normas técnicas ou regulatórias, o que inclui a pirataria e a falsificação, que estão entre os ilícitos mais citados pelas empresas.
Essas práticas não só apresentam riscos para a saúde do consumidor, como também causam concorrência injusta, já que os produtos ilegais custam menos para serem produzidos.
Trinta por cento das empresas afetadas apontam que a perda de mercado, causada tanto pela concorrência ilegal quanto pelo roubo de cargas, é um dos principais efeitos negativos do crime, seguida pela perda de receita bruta (50%).
O estudo destaca que o roubo de cargas impede a entrega e venda dos produtos, impactando a receita, enquanto a venda de produtos fora das normas reduz o mercado das empresas que agem legalmente.
Além disso, as empresas citam o aumento dos custos com segurança (28%) e custos jurídicos extras (10%) como consequências do crime.
Para combater esses problemas, 77% das empresas adotam medidas de fiscalização e controle, 46% realizam ações de inteligência e 36% defendem o endurecimento da legislação.
A CNI ressalta que a ênfase na fiscalização reflete a necessidade de uma atuação mais firme do poder público nos pontos onde ocorrem a comercialização e circulação de produtos ilegais.

