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domingo, 22/02/2026

Crédito mais fácil para quem está endividado

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ALEX SABINO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Todo fim de tarde, Edilaine Santos da Silva, 33 anos, faz as contas das vendas com um objetivo bem claro: conseguir crédito para o seu negócio.

“Ter crédito é o que mais preciso para a minha loja. Faço isso para mostrar que estou tentando controlar meu dinheiro”, diz ela.

Com um bolo nas mãos, Edilaine desce apressada as escadas do seu apartamento e caminha pela viela onde mora, em Paraisópolis, a maior favela de São Paulo, que abriga 58,2 mil pessoas, segundo o IBGE em 2022.

Edilaine tem uma dívida de cerca de R$ 10 mil. Com os métodos tradicionais, seria impossível para ela conseguir crédito para sua loja, chamada “Delícias da Edi”. Mas a esperança está nas instituições que usam o chamado score comportamental ou social para liberar empréstimos.

Esse método, criado na Califórnia, EUA, surgiu da ideia de que pessoas sem acesso ao crédito tradicional precisam ser avaliadas de outra forma, considerando hábitos financeiros e pessoais na hora do empréstimo.

“É injusto, em um país como o nosso, avaliar empréstimos olhando só para o passado, quem pagou ou não alguma conta. O importante é como a pessoa se comporta com o dinheiro, qual sua relação com ele e se está comprometida com suas finanças”, explica Paula Esteves, 44 anos, fundadora do Instituto WorkLover, que ajuda pequenos empreendedores a não fecharem seus negócios.

Paula recomenda separar claramente o dinheiro pessoal do dinheiro da empresa para manter o controle financeiro.

Ela afirma que a confusão entre dinheiro pessoal e da empresa é uma das principais razões para empreendedores desistirem.

O G10 Bank, da ONG G10 Favelas, que atua em comunidades, tenta ajudar o comércio de Paraisópolis usando métodos alternativos para liberar crédito, como depoimentos de pessoas influentes na comunidade que ajudam a validar pedidos de empréstimo.

Gilson Rodrigues, fundador do G10 Favelas, comenta: “Criamos uma espécie de comitê de crédito, organizado por um movimento chamado ‘presidente de rua’, onde líderes de grupos de famílias ajudam a decidir se o crédito é liberado ou não”.

“Essa análise vai além dos dados do Serasa, considerando participação no bairro, desempenho escolar dos filhos e envolvimento comunitário. Vários fatores que influenciam a decisão de liberar crédito”, complementa.

Um programa chamado Donas de Si, para mulheres empreendedoras de Paraisópolis, é coordenado por Paula Esteves. Ela incentiva essas mulheres, como Edilaine, a usarem o aplicativo “Separadin” para separar as receitas pessoais das da empresa.

Paula e Gilson acreditam que o uso de scores comportamentais e sociais vai crescer, porque o método tradicional financeiro não é suficiente.

Em 2024, havia 6,2 milhões de MEIs inadimplentes, o que representa 40% dos registros ativos no país, principalmente por não pagarem o DAS, que inclui INSS, ISS e ICMS.

No ano anterior, 1,1 milhão de MEIs foram notificadas pela Receita Federal, com uma dívida total de R$ 26,7 bilhões.

No setor de pessoas físicas, o Brasil atingiu um recorde em abril de 2025, com 70,3 milhões de inadimplentes, cada um devendo em média R$ 4,7 mil.

O pesquisador Zhongyuan Xu, da Universidade Emory, nos EUA, afirma que “como o crédito tradicional não capta todo o risco, dados alternativos têm grande importância nos modelos de avaliação, pois consideram uma variedade maior de informações”.

Zhongyuan publicou um estudo chamado “Score de crédito usando dados alternativos: uma máquina de aprendizado” pela Goizueta Business School.

Outros especialistas defendem o uso de inteligência artificial para registrar mudanças nos hábitos financeiros, uso de aplicativos, frequência de recargas, compras pela internet e cruzamento de dados entre vendas e localização para avaliar crédito.

Paula conclui: “O que importa é estar comprometido com as finanças. Se a pessoa se relaciona bem com o dinheiro, ela poderá pagar. Se a dívida é muito alta, não há decisão a tomar, apenas continuar vivendo a vida”.

Edilaine quer sair desse ciclo. Ela saiu de um relacionamento abusivo para viver sozinha com seus seis filhos. A primeira gravidez foi aos 14 anos e o filho mais velho tem 18. O ex-marido não permitia que ela fizesse cirurgia para evitar gravidez.

Hoje, ela vende entre R$ 400 e R$ 500 em bolos por mês na comunidade, e uma vez por semana ela instala um ponto na avenida Ibirapuera, onde já tem clientes, além de ir à estação de metrô Giovanni Gronchi.

“Assim vou conseguindo dinheiro e me sustentando. Quando conseguir crédito, vai ficar muito mais fácil”, acredita ela.

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