ANA PAULA BRANCO
FOLHAPRESS
O sistema brasileiro de crédito para compra de imóveis está passando por mudanças. O objetivo é diminuir a dependência dos bancos na captação de recursos pela poupança, mas isso pode deixar os juros mais altos para quem deseja financiar um imóvel em épocas de taxas elevadas.
Essa alteração será feita aos poucos e estará totalmente em vigor em 2027. A principal alteração é que a poupança será substituída gradualmente por recursos do mercado financeiro, como letras imobiliárias. Essa proposta foi elaborada após discussões entre governo, bancos e construtoras.
Gilneu Vivan, diretor de Regulação do Banco Central, afirmou que os primeiros resultados dos testes são positivos, com aumento nas operações de crédito imobiliário.
O novo modelo visa incentivar o mercado a buscar alternativas à poupança para financiar imóveis. Isso traz um desafio: não está claro ainda como serão definidos os índices usados para reajustar os contratos de financiamento.
Com maior participação dos títulos do mercado financeiro, os bancos terão que administrar melhor os riscos financeiros dessas operações, e os consumidores buscam contratos com valores mais estáveis e previsíveis.
Michel Cury, presidente da Abecip e diretor de crédito imobiliário do Itaú, destacou que o maior desafio está em equilibrar o risco dos financiadores com a necessidade de segurança dos compradores, que por vias gerais financiam a compra mais importante e pelo maior prazo de suas vidas.
Essa mudança pode causar aumento no custo dos financiamentos, segundo Cury.
O Banco Central também alertou sobre a possibilidade de aumento no preço do crédito habitacional, já que os bancos dependerão mais do mercado financeiro para captar recursos.
Atualmente, no Sistema Financeiro de Habitação (SFH), há um limite de juros de 12% ao ano sobre o índice usado.
Gilneu Vivan explicou que essa regra pode ser problemática em períodos de juros altos, pois o custo de captar recursos no mercado acompanha a situação econômica.
No novo modelo, 80% dos recursos devem ser destinados a operações dentro do SFH, com a poupança tendo um papel complementar para ajudar a reduzir os custos.
Mesmo com juros altos, a demanda por crédito imobiliário continua forte. No primeiro semestre, as concessões para compra e construção de imóveis cresceram 23% em comparação ao mesmo período do ano anterior, totalizando R$ 180,9 bilhões.
Por outro lado, a poupança tradicional não acompanha esse crescimento, com retirada líquida de R$ 273 bilhões nos últimos cinco anos e estabilidade recente no volume total.
Os bancos estão assim buscando outras fontes para financiar o crédito imobiliário.
O Banco Central continuará monitorando e poderá ajustar o modelo durante sua implantação.
Inês Magalhães, vice-presidente de Habitação da Caixa, afirmou que o novo modelo é importante, mas deve ser considerado junto com outros fatores como participação do crédito no PIB, regras regulatórias e processos cartoriais.
Ela destacou que o financiamento habitacional é complexo e requer uma visão ampla.
Além disso, mesmo com a busca por novas fontes, o FGTS e a poupança continuam sendo essenciais para o financiamento imobiliário, embora não sejam suficientes para sustentar o crescimento sozinhos.
