GABRIEL GAMA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
O dinheiro que o governo destina para cuidar do meio ambiente e evitar incêndios nas florestas em 2026 será 17% menor do que em 2025. Para o próximo ano, estão previstos R$ 495,8 milhões, que é R$ 101 milhões a menos do que os R$ 596,9 milhões do ano passado.
Esse valor é o menor desde que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciou seu terceiro mandato, considerando a inflação. Além disso, o orçamento para 2026 é menor até que o de 2024, quando o Brasil teve 278,2 mil focos de incêndio, o pior número desde 2010.
A análise foi feita com dados oficiais do orçamento federal depois que Lula sancionou a Lei Orçamentária Anual. Esse valor inclui três ações importantes para combater queimadas e fiscalizar o meio ambiente, todas ligadas ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).
Segundo o ministério da ministra Marina Silva, inicialmente estavam previstos R$ 507,4 milhões para estas ações, mas o Congresso reduziu R$ 11,5 milhões, chegando aos R$ 495,8 milhões aprovados. O MMA também informou que, dependendo da necessidade no decorrer do ano, esses valores podem ser ajustados conforme o risco de queimadas e a situação climática.
Em 2025, após algumas mudanças no orçamento, o valor para essas ações subiu para R$ 613,6 milhões, dos quais R$ 606,5 milhões foram realmente destinados. Além disso, no final de 2024, o governo liberou recursos extras para combater queimadas, e em 2025 foram aplicados R$ 185,3 milhões de forma emergencial. Com isso, o total gasto em 2025 foi 59,7% maior que o previsto para 2026.
A parte do orçamento destinada para prevenir queimadas em áreas federais prioritárias, que são regiões que o Ibama deve proteger com mais cuidado, teve a maior queda: passou de R$ 128,7 milhões para R$ 66,6 milhões, uma queda de 48% já corrigida pela inflação.
O dinheiro para o controle e fiscalização do meio ambiente, também de responsabilidade do Ibama, caiu 24%, de R$ 305,2 milhões para R$ 232,7 milhões. Para a fiscalização e prevenção de incêndios em unidades de conservação federais, que é função do ICMBio, o corte foi menor, de 6%, caindo de R$ 209 milhões para R$ 197,1 milhões.
Especialistas estão preocupados com esses cortes e temem que o número de queimadas aumente em 2026, especialmente se o fenômeno El Niño voltar, o que normalmente provoca mais secas na Amazônia, agravando o problema. Atualmente, ainda não se sabe se o El Niño vai acontecer.
Gustavo Figuerôa, biólogo e diretor de comunicação da ONG SOS Pantanal, destaca que é importante ter um orçamento que cresça para a prevenção de incêndios florestais. “É preocupante que o orçamento suba e desça todos os anos, pois isso interrompe trabalhos que estão começando”, alerta.
Ele acrescenta que o investimento deve aumentar para no futuro evitar gastos altos com ações emergenciais. “É uma questão estratégica: prevenir é muito mais eficaz e barato do que combater incêndios depois que eles começam.”
Livia Moura, ecóloga e assessora técnica do Instituto Sociedade, População e Natureza, diz que esses cortes comprometem a nova Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, criada em 2024. Essa política prioriza o uso do fogo controlado para evitar incêndios maiores e enfatiza o trabalho preventivo.
Ela alerta que as ações principais dessa política são as primeiras a serem cortadas quando falta dinheiro, o que pode prejudicar muito a prevenção.
Ane Alencar, especialista em fogo e diretora de ciência do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), considera o cenário para 2026 difícil. “Não é o momento para cortes no orçamento. O ano eleitoral costuma ser problemático para o meio ambiente, e pode acontecer um evento climático de impacto, como o El Niño”, afirma.
Ela também observa que a atenção às questões ambientais diminui durante o período eleitoral para presidente e governadores. “É um tempo em que o foco do país está em outra questão”, explica.
Além disso, na Amazônia, pessoas podem usar fogo e desmatar ilegalmente por causa da incerteza sobre qual governo estará no comando e qual será a política ambiental adotada.
