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sábado, 30/08/2025

Corrupção abala reputação de Javier Milei na Argentina

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O governo do presidente argentino Javier Milei enfrenta o momento mais difícil desde que assumiu, em dezembro de 2023. Gravações que envolvem sua irmã, Karina Milei, em um suposto esquema de propinas têm gerado desconfiança tanto na política quanto na sociedade e no mercado, em meio à queda da popularidade do presidente e ao aumento da tensão eleitoral.

As primeiras gravações vieram a público em 20 de agosto. Em uma delas, Diego Spagnuolo, ex-diretor da Agência Nacional para a Deficiência (Andis), acusa Karina Milei – secretária-geral da Presidência e vista como braço direito do presidente – de receber propina de indústrias farmacêuticas em contratos para fornecimento de medicamentos à rede pública. Spagnuolo também acusa o subsecretário Eduardo “Lule” Menem de fazer parte do esquema.

“Karina leva 3%”, diz em trecho da gravação. O ex-funcionário, que também foi advogado de Milei, afirma ter informado o presidente sobre as irregularidades. Após o vazamento, ele foi demitido, e novos áudios vieram a público, aumentando as suspeitas.

Resposta do governo

Karina Milei ainda não se manifestou publicamente. Já Javier Milei defende a irmã veementemente.

Em entrevista à emissora C5N, Milei declarou que as alegações são falsas e prometeu responsabilizar judicialmente o ex-aliado: “Tudo o que ele fala é mentira. Vamos tomar medidas legais para provar isso”.

O caso atinge a capacidade de governar do presidente. Pouco antes das eleições na província de Buenos Aires e dois meses antes da eleição legislativa de meio de mandato, Milei vê sua imagem enfraquecida.

A denúncia está sob investigação judicial. O juiz federal Sebastián Casanello emitiu 16 mandados de busca, resultando na apreensão de celulares de Spagnuolo e de executivos da farmacêutica Suizo Argentina, citada nos áudios.

Fracassos no Congresso aumentam isolamento político

Além do desgaste eleitoral, derrotas seguidas no Congresso ampliam a sensação de fragilidade política. Neste mês, a Câmara rejeitou o veto do presidente a uma lei que destinava mais recursos ao atendimento de pessoas com deficiência, setor onde surgiram as denúncias.

Esse movimento foi interpretado como um sinal claro de que a base parlamentar do presidente está enfraquecida.

No Senado, o governo também enfrentou dificuldades. Parlamentares recusaram uma série de decretos para reduzir despesas públicas e aprovaram aumentos no orçamento para saúde e universidades públicas, contrariando a agenda de ajuste fiscal defendida por Milei.

Protestos nas ruas

A pressão política se refletiu em manifestações. Na última quarta-feira (27/8), Milei foi atacado durante uma carreata em Buenos Aires, quando manifestantes cercaram sua comitiva, lançaram pedras e objetos contra veículos oficiais, forçando o presidente a sair escoltado do local.

Pesquisas recentes revelam rápido desgaste da imagem do presidente. Um estudo da Universidade Torcuato di Tella mostra que o índice de confiança no governo caiu de 2,45 para 2,12 em um mês, uma queda de 13,6%.

Outros levantamentos apontam que a aprovação do governo caiu oito pontos nas últimas seis semanas. Atualmente, Milei está atrás do governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, e da ex-presidente Cristina Kirchner, seus principais adversários políticos.

Sobre os áudios, 62,5% dos entrevistados acreditam que revelam corrupção séria no governo, enquanto 32,8% consideram ser uma manobra política, alinhados à versão oficial do governo.

Reação dos mercados e riscos econômicos

Com a crise na popularidade, o risco-país, indicador da confiança dos investidores internacionais, subiu para 829 pontos, o maior desde abril. Esse aumento encarece o crédito externo e ameaça a capacidade da Argentina de renegociar dívidas que vencem em 2026.

Esse cenário é delicado, pois Milei baseia sua política econômica em forte ajuste fiscal, com cortes de gastos e busca por maior estabilidade cambial. Até julho, a queda da inflação e a estabilidade do dólar reforçavam a perspectiva de recuperação econômica, mas os escândalos políticos e a perda de apoio no Congresso provocam desconfiança entre investidores.

A situação ainda é complicada na política interna, já que a perda de apoio reduz as chances de aprovar reformas importantes para sua equipe econômica, como alterações na previdência, nas leis trabalhistas e no sistema tributário.

Milei tenta reverter a queda na popularidade e minimizar os impactos do escândalo, afirmando que tudo faz parte de uma manobra política da oposição, e alerta para o risco de fraudes eleitorais.

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