FÁBIO PESCARINI
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Todo mês é assim. A gerente de tecnologia da informação Marília Bianchini, 38 anos, apressa-se para descer até o subsolo. Moradora do Rio de Janeiro, ela pega um carro por aplicativo para ir trabalhar na zona sul de São Paulo.
Ao atravessar o saguão do aeroporto de Congonhas pelo piso quadriculado protegido por patrimônio histórico, como fez no dia 1° de dezembro, sente que está passando por parte da história da aviação brasileira, especialmente aquela mais romântica.
“Pena que estamos sempre com pressa e não notamos a beleza daqui”, comenta.
Marília acompanha a recente transformação do antigo aeroporto, que celebrará 90 anos em 2026.
Durante o trajeto, ela observou hangares sendo demolidos e entulhos ocultos por tapumes. Essas reformas fazem parte da maior reestruturação desde a fundação de Congonhas, em 12 de abril de 1936, em uma área da zona sul paulistana escolhida por estar longe das enchentes do rio Tietê.
O investimento de R$ 2,4 bilhões pela empresa espanhola Aena, que administra o aeroporto há pouco mais de dois anos, prevê que as obras terminem em junho de 2028.
Uma das principais mudanças é a criação de uma nova área de embarque, com 19 pontes de acesso direto a aviões, um aumento em relação às atuais 12.
Essa atualização visa ampliar a distância entre as pistas de taxiamento e a principal, que atualmente não cumpre requisitos internacionais, e também entre as aeronaves estacionadas.
O diretor-presidente da concessionária, Santiago Yus, explica: “Esse redesenho permitirá estacionar aviões maiores, como o Airbus A321”.
Atualmente, somente três posições das pontes de embarque suportam aviões com grandes envergaduras, pois a distância entre as asas impede o uso das outras posições.
Além disso, o aeroporto está em processo para obter a certificação definitiva da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), que será concluída após o término das obras.
A reforma está dividida em três fases: a primeira compreende a demolição de estruturas antigas, instalação de canteiros, intervenções no pátio de aeronaves e melhorias nas pistas de taxiamento.
Na segunda fase, as companhias aéreas foram transferidas para hangares provisórios para possibilitar a construção do novo terminal e a recuperação do hangar antigo da Varig, destinado à futura sala de embarque remoto, de onde os passageiros são transportados de ônibus até os aviões.
A última fase inclui a instalação das pontes de embarque no novo terminal e implementação do sistema de controle e processamento de bagagens, prevista para 2028.
Em agosto, a sala de embarque remoto foi ampliada de 1.400 m² para 3.300 m², comportando agora duas salas VIPs. Após a conclusão das obras, essa área será ampliada para restituição de bagagens.
O investimento inicial de R$ 150 milhões inclui também a modernização dos balcões de check-in e o aumento dos pontos de inspeção de 11 para 16.
Na parte externa, hangares de aviação executiva foram realocados para áreas próximas à pista auxiliar para evitar cruzar a pista principal.
Em dezembro de 2023, pouco depois da Aena assumir a gestão, o asfalto quebrou causando o afundamento de um avião da Gol que seguia para Vitória.
Para 2026, está planejado o deslocamento do ponto de carros por aplicativo para a cobertura do edifício-garagem na praça Comandante Lineu Gomes, e a inauguração da linha 17-ouro do metrô que chegará ao aeroporto.
A meta da concessionária é ampliar o número anual de passageiros para 29 milhões, sem ultrapassar o limite atual de 44 pousos e decolagens por hora, o que será possível graças à capacidade para aviões maiores e operações mais ágeis.
Em 2028, espera-se retomar os voos internacionais para a América do Sul, interrompidos na década de 1980, após parecer favorável da Secretaria Nacional de Aviação Civil (SAC).
Mesmo antes do fim das obras, espera-se que o número de passageiros atinja 25 milhões em 2025, ultrapassando o recorde anterior de 23 milhões.
As empresas aéreas Azul, Gol e Latam estão ampliando suas operações em Congonhas, adicionando ou aumentando voos para 13 rotas, principalmente para capitais turísticas.
A Azul planeja mil voos para o Nordeste, com 150 mil assentos disponíveis.
A Gol destaca a localização central do aeroporto que permite voos frequentes e horários convenientes.
Construído com arquitetura art déco por Ernani do Val Penteado e Raymond A. Jehlen e tombado como patrimônio, o aeroporto cresce sem perder seu caráter quase centenário.
Santiago Yus considera a data dos 90 anos do aeroporto romântica e importante.
Gianfranco Beting, conhecido como Panda, 62 anos, lembra quando, aos quatro anos, observava aviões do ombro do tio na “Prainha de Congonhas”, nome dado ao aeroporto pela época, início dos passeios dominicais dos paulistanos.
“Ali comecei a descobrir minha paixão por aviões”, conta.
Panda, publisher da revista Flap International, autor de 18 livros sobre aviação e colecionador de mais de 900 mil fotos, tem grande admiração pelo aeroporto. Sua esposa, Sharon, sugeriu fazer o casamento deles em 1999 no restaurante do terraço de Congonhas.
“No momento do sim, um Fokker 100 da TAM acelerou na pista, o juiz de paz não ouviu e tive que repetir”, lembra o consultor e ex-vice-presidente da Transbrasil, que também foi um dos fundadores da Azul.
Para ele, a reforma é dolorosa como saudosista, mas necessária como passageiro. “Quando vi os hangares sendo demolidos, chorei, mas é o preço para termos um aeroporto moderno e de padrão internacional.”

