GEOVANA OLIVEIRA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRSS)
Hoje existe um método que pode adiar a menopausa no futuro. Por enquanto, ele oferece uma chance para que crianças diagnosticadas com câncer antes da puberdade, e também pacientes oncológicas que não têm tempo para congelar óvulos antes da quimioterapia, preservem a fertilidade.
Esse procedimento é o congelamento de tecido ovariano, que consiste em retirar, congelar e depois devolver ao corpo pedaços do ovário da própria paciente. O tecido se reconecta à circulação sanguínea e volta a produzir óvulos. Isso é diferente do congelamento de óvulos, onde os óvulos maduros são retirados diretamente e guardados para uso futuro.
O método foi desenvolvido nos anos 1990, inicialmente testado em ovelhas no Reino Unido. O primeiro nascimento humano possível graças a essa técnica aconteceu em 2004, na Bélgica, após o tecido ter sido preservado antes de tratar um linfoma de Hodgkin.
Embora seja mais conhecido na Europa, o congelamento de tecido ovariano começa a ganhar espaço no Brasil. Em 2019, a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva passou a considerar esse procedimento fora da fase experimental.
Apesar disso, ele ainda é menos usado do que o congelamento de óvulos, que permanece como o método mais utilizado para preservar a fertilidade, segundo o ginecologista Carlos Alberto Petta, membro da Comissão Nacional Especializada em Endometriose da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia).
De modo geral, salvo casos especiais, especialistas recomendam o congelamento de óvulos para quem deseja preservar a fertilidade, explica Petta.
Uma opção para pacientes com câncer
O congelamento de óvulos requer estímulo hormonal que pode levar 20 dias até a coleta. Muitas pessoas com câncer não dispõem desse tempo.
“Às vezes chegam pacientes e ouvimos que a quimioterapia começa em três dias”, comenta Petta. Nesses casos, a alternativa é retirar e congelar fragmentos do ovário em uma cirurgia rápida antes do tratamento.
Crianças com câncer que ainda não menstruaram não produzem óvulos maduros, portanto não têm outra opção. Para essa situação, segundo o ginecologista Edvaldo Cavalcante, da Clínica Genics de reprodução assistida, o congelamento de tecido ovariano é a única maneira de preservar a fertilidade.
Mulheres com endometriose que vão passar por cirurgia no ovário aproveitam para congelar parte do tecido com folículos, conforme comenta Petta.
O método também é indicado para quem tem histórico familiar de menopausa precoce, vai fazer transplante de células-tronco ou está em tratamento para doenças autoimunes como lúpus com medicamentos que prejudicam os ovários.
Como o procedimento é realizado
A retirada do tecido ovariano ocorre durante uma cirurgia, geralmente feita por videolaparoscopia, podendo também ser laparotomia ou cesárea. Cerca de um terço do ovário é removido, preservando-se o restante.
No laboratório, o tecido é cortado em pedaços pequenos, em torno de um centímetro, e congelado pela técnica de vitrificação, que é rápida e minimiza danos às células, explica o especialista em reprodução assistida Philip Wolff, da Clínica Genics. O congelamento de óvulos é feito através de punção guiada por ultrassom, sob sedação leve e sem cirurgia.
Quando a mulher decide utilizar o tecido, os fragmentos são reimplantados perto do ovário que restou ou em outra parte do corpo. Depois de reconectado à circulação, ele volta a produzir hormônios e liberar óvulos, geralmente por volta de 19 semanas após o transplante, conforme diversos estudos indicam.
Cavalcante comenta que a expectativa futura é que a mulher consiga engravidar naturalmente após a reimplantação, sem a necessidade de fertilização in vitro. Atualmente, costuma-se estimular a ovulação para coletar os óvulos para fertilização.
O que dizem as pesquisas
Uma revisão científica de 2022 publicada na Human Reproduction Update analisou 568 mulheres e apontou que a taxa de gravidez foi de aproximadamente 37%, com 28% dos nascimentos ocorrendo com vida. Cerca de 69% das gestações aconteceram sem fertilização in vitro.
O tempo de atividade do tecido varia, com uma média em torno de dois anos e meio, sendo maior quanto mais jovem a paciente na hora da coleta.
Um pequeno grupo de cinco mulheres que realizou o procedimento antes de completar 22 anos manteve a função ovariana por seis a sete anos após o reimplante.
O desejo de adiar a menopausa
Além de preservar a fertilidade, os médicos acreditam que essa técnica possa, no futuro, aumentar o tempo antes da chegada da menopausa. A ideia é congelar tecido ovariano de mulheres jovens para reimplantá-lo décadas depois, próximo ao período comum da menopausa.
Esse interesse vem do aumento da expectativa de vida das mulheres. No passado, comenta Cavalcante, a menopausa ocorria perto dos 50 anos e a mulher tinha uma expectativa de vida menor após essa fase. Atualmente, ela pode passar muitos anos nessa etapa da vida. “Eu preciso que a mulher esteja ativa e funcional, tanto mental quanto fisicamente”, afirma o médico.
“Sonhamos com esse futuro. Se eu atrasar a menopausa de cinco a dez anos, imagina o benefício”, acrescenta Cavalcante. A vantagem seria produzir hormônios naturalmente, sem necessidade de reposição hormonal sintética.
Um estudo de modelagem matemática de 2024 sugeriu um atraso significativo na menopausa para mulheres com menos de 40 anos. Porém, é importante destacar que foi uma simulação, não um ensaio clínico com mulheres saudáveis. Ou seja, é uma hipótese promissora, ainda sem comprovação clínica.
Situação no Brasil
No Brasil, o método ainda está em fase inicial e disponível em poucos centros. O procedimento é regulamentado pela Anvisa por normas para congelamento de tecidos germinativos, as mesmas que se aplicam a óvulos, embriões e espermatozoides, explica Petta.
O uso da técnica para adiar a menopausa em mulheres saudáveis está restrito a pesquisas clínicas.
Em 2021, o Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou um parecer afirmando que esse uso só é permitido dentro de protocolos aprovados pela rede brasileira de ética em pesquisa com seres humanos.
Por enquanto, dizem os especialistas, a criopreservação de tecido ovariano não é o método mais indicado para quem deseja preservar a fertilidade sem urgência.
