FOLHAPRESS
A situação de conflito no Oriente Médio, especialmente no Irã, pode prejudicar os agricultores brasileiros, segundo especialistas e informações de mercado. Essa região é um destino crucial para as exportações agrícolas do Brasil e também uma fonte importante de fertilizantes, como a ureia.
O Oriente Médio é um dos principais fabricantes de fertilizantes do mundo, e o estreito de Hormuz é uma rota marítima vital para essas exportações. Aproximadamente 35% das exportações globais de ureia passam por esse caminho, conforme dados do grupo CRU. A ureia é o fertilizante nitrogenado mais usado no planeta.
O aumento da tensão entre Estados Unidos e Irã, envolvendo também países vizinhos, pode levar ao cancelamento de contratos de grãos e à falta de fertilizantes no Brasil, que depende muito de importações, devido a interrupções no tráfego pelo estreito de Hormuz.
Exportadores estão considerando descarregar grãos em Omã para evitar riscos no golfo Pérsico, segundo a consultoria Argus. Argus comentou à Reuters que ainda não há certeza sobre essa opção, e a alternativa pode ser o cancelamento dos embarques. Também não se sabe se as cargas poderiam continuar de Omã até o destino final por terra ou ferrovia.
Produtos a granel como milho passam pelo estreito de Hormuz, diz Arthur da Anunciação Neto, sócio-diretor da Alphamar Agência Marítima. Esse estreito também é passagem para cerca de 45% da produção mundial de enxofre, essencial na fabricação de fertilizantes fosfatados, além de grandes volumes de amônia, usada em fertilizantes nitrogenados, o que aumenta a preocupação com a navegação por ali.
Os preços dos fertilizantes já subiram bastante. A ureia granulada no Oriente Médio ficou mais cara em torno de US$ 130 (R$ 678,39), atingindo entre US$ 575 e US$ 650 (R$ 3.000,58 a R$ 3.391,96) por tonelada desde a última sexta-feira (27). No Egito, os preços de exportação subiram US$ 125 (R$ 652,30), ficando entre US$ 610 e US$ 625 (R$ 3.183,22 a R$ 3.261,50) por tonelada, segundo a Argus.
Os contratos futuros de amônia na Europa também tiveram alta, sendo negociados por US$ 725 (R$ 3.783,34) por tonelada para abril, um aumento de US$ 130 (R$ 678,39) comparado a fevereiro.
A situação perigosa para a navegação elevou o custo do seguro marítimo, diz Neto. Dez navios com mais de 600 mil toneladas de soja e farelo brasileiros estavam planejados para o Irã, informou a Alphamar. Dependendo do cenário, essas cargas podem ser desviadas para outros locais.
O Irã foi o principal destino das exportações brasileiras de milho no ano passado, comprando cerca de 9 milhões de toneladas, cerca de 20% do total. A maioria do milho brasileiro é embarcada no segundo semestre do ano.
Rotas alternativas de navegação
Os produtores de fertilizantes do Oriente Médio, especialmente o Irã, são também fornecedores importantes para o Brasil. A consultoria Agrinvest informa que o Brasil importou 100% da ureia que usou em 2025, sendo que 41% dessa quantidade, quase 3 milhões de toneladas, vieram por Hormuz.
Francisco Vieira, sócio-diretor da Agroconsult, entende que o conflito deve limitar o fornecimento e aumentar os preços da ureia a curto prazo. Ele destaca que não se espera que o Irã continue enviando produtos, e a situação das fábricas no país é incerta.
Dados oficiais do Brasil mostram 7,7 milhões de toneladas de importações de ureia em 2024, com o Irã respondendo por menos de 2,5%, mas estimativas privadas indicam que o país pode ser origem de 1,3 a 1,4 milhão de toneladas.
As remessas do Irã frequentemente passam por Omã, por causa das sanções dos EUA que dificultam pagamentos internacionais relacionados ao Irã.
Tomás Pernías, analista da StoneX, comenta que podem existir rotas alternativas, mais afastadas do estreito de Hormuz, dependendo do país.
Possíveis problemas pela frente
Um conflito prolongado pode afetar o envio de fertilizantes antes do plantio da safra 2026/27 no Brasil, que começa em setembro. Thamires Cateli, fundadora da Hudie Consulting, afirma que a guerra no Irã fez com que os fornecedores retirassem suas listas de preços de ureia, travando o comércio mundial.
Alguns países podem compensar a falta da ureia iraniana, mas os impactos ainda são incertos. O Egito, que oferece cerca de 8% da ureia mundial, depende do gás natural de Israel, que também pode ser afetado, segundo Francisco.
A China, grande produtora de fertilizantes, diminuiu as exportações para atender seu mercado interno. A Rússia, responsável por cerca de 16% da oferta mundial de ureia em 2024, pode suprir esta demanda, porém ataques a instalações de fertilizantes, como o ocorrido em Smolensk, mostram riscos nessas cadeias alternativas.
