LUIS EDUARDO DE SOUSA
FOLHAPRESS
A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã está causando dificuldades na cadeia de fornecimento de remédios e materiais hospitalares, um problema que já vinha crescendo desde o aumento das tarifas pelo governo Trump no ano anterior.
O problema ocorre principalmente por causa da logística, segundo associações consultadas. O Brasil depende muito de insumos farmacêuticos que vêm da Ásia. Entre 85% e 95% dos ingredientes ativos para medicamentos (IFAs) são importados, usando rotas que passam pelo Oriente Médio. O país produz apenas cerca de 5% desses insumos.
O Ministério da Saúde teme que o preço dos produtos de saúde possa subir, conforme disse o ministro Alexandre Padilha durante uma visita a uma fábrica de medicamentos em Valinhos, São Paulo, no dia 3 de março.
Atualmente, a indústria usa a Arábia Saudita como uma base aérea para enviar os ingredientes ativos. Caso essa rota seja inviabilizada, os envios precisam ser desviados pela Rússia, que também enfrenta dificuldades por causa do conflito com a Ucrânia, ou pelo Oceano Pacífico, o que aumenta os custos.
Nelson Mussolini, presidente do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), explica que estudos internos indicam um aumento de 20% a 25% nos custos de logística, mas que as empresas do setor absorverão esses custos porque os preços dos remédios são regulados pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (Cmed).
Outra preocupação é que seguradoras estão dificultando a emissão de seguros para rotas afetadas pelo conflito, o que pode levar o setor a arcar com possíveis prejuízos. O Irã tem ameaçado navios na região em retaliação a seus rivais.
A situação logística também prejudica exportadores da Índia, que junto com a China fornecem 70% dos ingredientes ativos usados no Brasil.
O centro logístico de Dubai, fundamental para o transporte de produtos farmacêuticos especialmente aqueles que precisam de refrigeração, foi seriamente atingido após ataques iranianos com drones aos Emirados Árabes, em resposta à morte do líder supremo Ali Khamenei.
Norberto Prestes, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos (Abiquifi), afirma que os custos e o tempo de logística aumentaram, e o seguro ficou mais caro, o que vai impactar o setor. Ele salienta que ainda é cedo para prevêr falta de insumos, já que o setor monitora a situação.
Farmácias e laboratórios continuam funcionando normalmente. Fontes do varejo relatam que ainda não sentem impactos do conflito. A Associação dos Distribuidores Farmacêuticos (Abafarma) informa que suas operações seguem normais. Redes de medicina diagnóstica, como Fleury e DMS, também confirmam operação usual.
Embora não haja risco imediato de falta de remédios, a dependência do Brasil em relação a insumos de outros países é um problema, pois torna o país vulnerável a crises internacionais que afetam a cadeia global.
Desde o ano passado, após o aumento das tarifas impostas pelos Estados Unidos, o Ministério da Saúde intensificou as ações para garantir a produção nacional de insumos de saúde e diversificar os fornecedores do Sistema Único de Saúde (SUS).
Como resultado, o Brasil voltou a produzir insulina após 20 anos e tem investido em inovação e transferência de tecnologia, com 31 novas parcerias firmadas e aportes de R$ 5 bilhões por ano na indústria da saúde, conforme comunicado oficial do Ministério.
Em evento na Universidade de São Paulo (USP), também no dia 3 de março, o ministro Alexandre Padilha destacou que o Brasil precisa aumentar sua produção interna para depender cada vez menos da cadeia global.
