Em 2025, os avanços das tropas russas no campo de batalha e as negociações diplomáticas estagnadas foram os principais fatos da guerra na Ucrânia, já no seu terceiro ano. A dinâmica do conflito mudou das linhas de frente para as salas de reuniões em Washington, Moscou e nas capitais europeias mais importantes.
Sob forte pressão política e militar, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, passou a exigir um “ultimato ocidental” ao presidente russo Vladimir Putin, enquanto o ex-presidente americano Donald Trump tentou se apresentar como um mediador internacional. Enquanto isso, as forças russas consolidaram conquistas em áreas estratégicas como Zaporíjia, Pokrovsk e Kupiansk.
Diplomatas dos Estados Unidos, Europa, Ucrânia e Rússia realizaram inúmeras reuniões e elaboraram propostas de paz, mas ficaram travados por divergências sobre territórios, garantias de segurança e o papel da Ucrânia na Otan.
Ao final de 2025, a situação ainda era descrita como uma “esperança delicada” pelos negociadores, sem avanços reais rumo a um cessar-fogo. Para o professor Leo Braga, especialista em Relações Internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie do Rio, os progressos nas negociações são frequentemente cancelados por retrocessos no campo, já que a Rússia age motivada por uma política de expansão, diminuindo as chances reais de paz.
A atuação de Trump como mediador e suas dificuldades
Após mediar o cessar-fogo entre Israel e Hamas, Donald Trump tentou repetir o sucesso na Ucrânia, mas enfrentou grande complexidade. Em fevereiro, seu primeiro encontro com Zelensky após voltar à Casa Branca terminou em conflito, quando o presidente ucraniano recusou assinar um acordo sobre exploração de recursos naturais sem garantias de segurança, que Trump não quis conceder.
Esse episódio congelou as negociações por meses até que Zelensky aceitou o acordo pressionado pelas perdas territoriais e pela dependência da ajuda ocidental.
A tentativa mais audaciosa de Trump aconteceu no Alasca, onde se encontrou exclusivamente com Putin, sem a presença de Zelensky. Embora Washington tenha descrito o encontro como “produtivo”, a Rússia intensificou suas ações militares e a Ucrânia não obteve garantias concretas, com a denominada “janela de oportunidade” se fechando rapidamente.
Trump ainda reuniu Zelensky e líderes europeus na Casa Branca para tentar equilibrar a situação, mas uma cúpula trilateral entre EUA, Ucrânia e Rússia não se concretizou.
A crise dos mísseis Tomahawk
No fim de outubro, Zelensky pressionou Trump para autorizar o envio dos mísseis de cruzeiro Tomahawk, essenciais para ampliar a capacidade defensiva ucraniana. Putin respondeu ameaçando uma resposta severa caso o território russo fosse atacado com armas americanas.
Diante da tensão, Trump suspendeu a cúpula em Budapeste e evitou confirmar o envio dos mísseis, argumentando sobre a necessidade de preservar os arsenais dos EUA e de treinar as tropas da Ucrânia. Essa decisão irritou Kiev e gerou a percepção de que o ex-presidente americano buscava evitar um confronto direto com Moscou.
A França, então, anunciou a criação da “Coalizão dos Dispostos”, com 26 países comprometidos a garantir a segurança da Ucrânia após um possível cessar-fogo. Segundo o presidente francês, Emmanuel Macron, esses países se comprometeram a manter presença militar por terra, mar ou ar.
Dois planos de paz e um impasse
As negociações se complicaram com dois planos diferentes em circulação.
- Plano dos EUA — 28 pontos: reconhece o controle russo sobre Crimeia, Donetsk e Luhansk; propõe congelamento das posições em Kherson e Zaporíjia; veta a entrada da Ucrânia na Otan por constituuição; prevê eleições em 100 dias; e prevê uso dos ativos russos congelados com parte do lucro para os EUA.
- Plano europeu: não reconhece controle russo sobre territórios; defende debate das fronteiras baseado na linha de contato; não impõe veto formal à Otan; aposta em garantias multilaterais de segurança; e não inclui compensações financeiras aos EUA.
Zelensky considerou a proposta revisada europeia mais realizável, porém ainda insuficiente, enquanto Putin rejeita qualquer acordo que não assegure controle total sobre Donetsk, considerada sua “linha vermelha”.
Batalhas e exclusão nos bastidores diplomáticos
Enquanto os diplomatas tentavam negociar, Moscou acelerou sua ofensiva, conquistando áreas estratégicas como Pokrovsk, Vovchansk e Dimitrov, além de tentar capturar Huliaipole, em Zaporíjia. Putin celebrou, afirmando que as forças armadas mantêm a iniciativa em quase todas as frentes.
Kiev contestou parte das informações, mas admitiu a dificuldade devido à falta de efetivo e pressão em Kupiansk, Kramatorsk e Zaporíjia.
Nos bastidores, a situação política ficou ainda mais complicada para Zelensky, visto que Moscou e Washington realizam conversas paralelas frequentemente sem a participação do presidente ucraniano.
Propostas russas e resistência ucraniana
Em entrevista, o assessor russo Yuri Ushakov sugeriu a criação de uma zona desmilitarizada em Donetsk sob controle russo, incluindo a presença da Guarda Nacional e polícia russas para manter a ordem e a vida local. Essa proposta é vista como inaceitável por Kiev e a maioria dos países europeus.
Mesmo durante as negociações, Moscou anunciou avanços em Kharkiv e Zaporíjia. Zelensky, em visita a Kupiansk, afirmou que a Ucrânia continua resistindo, mas alertou para “posições difíceis de defender” devido à escassez de recursos humanos.
Cenários futuros para o conflito
Segundo o professor Braga, existem dois possíveis desdobramentos para a guerra. No primeiro, a redução ou condição do apoio militar e financeiro dos EUA ao plano dos 28 pontos de Trump forçaria a Ucrânia a aceitar negociações, cedendo território à Rússia, encerrando o conflito. Isso consolidaria as conquistas russas, enfraqueceria o multilateralismo e aumentaria a preocupação estratégica na Europa.
No segundo cenário, a Ucrânia rejeita o plano americano e mantém o apoio europeu, ainda que insuficiente para reverter os avanços russos, prolongando o confronto e desgastando Kiev, especialmente perante um possível afastamento dos EUA.

