Por Maria Clara Britto
Agência de Notícias do CEUB
Com a melhora nas taxas de cura e sobrevivência de pacientes com câncer, a medicina enfrenta novos desafios, como lidar com os efeitos colaterais que permanecem após o tratamento, incluindo a infertilidade.
Tratamentos como quimioterapia e radioterapia podem causar menopausa precoce ou infertilidade ao danificar os órgãos responsáveis pela produção dos gametas: ovários nas mulheres e testículos nos homens.
Efeitos
Alguns medicamentos usados na quimioterapia, principalmente os chamados agentes alquilantes, podem afetar a fertilidade ao danificar o DNA das células reprodutivas. Isso pode destruir folículos nos ovários ou células que originam espermatozoides nos testículos, reduzindo a quantidade de óvulos e espermatozoides e aumentando o risco de infertilidade.
Radioterapia pode causar danos dependentes da dose, principalmente em ovários, que são muito sensíveis, e cirurgias que removem ou irradiam órgãos reprodutivos também podem comprometer a fertilidade.
Esse dano varia conforme o tratamento e dose aplicados, não tanto pelo tipo de tumor. Tratamentos com agentes alquilantes, transplantes de medula e radioterapia pélvica apresentam maior risco de toxicidade para as gônadas.
Riscos
Em mulheres tratadas na infância ou juventude, a chance de falência ovariana precoce pode variar entre 6% e 34%. Com tratamentos muito tóxicos, o risco de menopausa aos 40 anos pode chegar a até 63%. Em homens, entre 15% e 30% podem apresentar problemas de fertilidade após o câncer.
Como funciona?
A preservação da fertilidade antes do início do tratamento é essencial. Uma avaliação rápida é feita para seguir com a estimulação ovariana que pode iniciar em qualquer dia do ciclo menstrual, associando medicamentos para manter os hormônios controlados quando necessário. Após cerca de 10 a 12 dias, os óvulos são coletados e congelados para uso futuro, tudo coordenado para não atrasar o tratamento do câncer.
Quando o tempo é curto, técnicas como a maturação de óvulos in vitro ou a criopreservação de tecido ovariano são alternativas eficazes. Para mulheres que passam por radioterapia pélvica, a transposição ovariana pode mover os ovários para fora da área de radiação, protegendo-os.
Novas técnicas permitem iniciar o estímulo imediatamente, sem necessidade de esperar o começo do ciclo menstrual, e a coleta ocorre em cerca de 10 a 14 dias, geralmente sem atrasar a quimioterapia.
Os resultados dependem da idade da mulher no momento do congelamento e do número de óvulos maduros congelados. A taxa de sucesso por óvulo é de 4% a 7%, variando com a idade, e mulheres acima de 35 anos podem ter chances de ter um filho com 10 a 15 óvulos congelados.
Homens
Para homens, a quimioterapia e radioterapia podem afetar a produção de espermatozoides, levando a baixa contagem ou ausência deles no sêmen, que pode ser temporária ou permanente, dependendo do tratamento. O risco aumenta com a dose acumulada de agentes tóxicos e radiação testicular.
O especialista Roberto de Azevedo Antunes explica que o risco varia conforme a exposição aos tratamentos e que opções de preservação estão disponíveis para homens também.
Custo
Os custos ainda são um desafio importante. Para mulheres, um ciclo completo em clínicas privadas pode variar entre R$17 mil a R$40 mil, com armazenagem anual de R$1 mil a R$1,5 mil. Para homens, os custos variam entre R$430 a R$1,8 mil por coleta e processamento, além do armazenamento anual entre R$1 mil e R$2,5 mil.
Uma conquista importante é que planos de saúde cobrem a criopreservação por indicação oncológica até o fim do tratamento quimioterápico.
No Brasil, há 192 clínicas de reprodução assistida, das quais apenas 11 são públicas. A maioria está nas regiões Sudeste e Sul.
O especialista Roberto de Azevedo Antunes destaca que o país avança em políticas públicas de preservação da fertilidade oncológica, embora ainda sem um padrão nacional definido, com centros públicos e projetos em andamento.
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira