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domingo, 22/02/2026

Como o trabalho por aplicativo pode atrasar a queda da inflação

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A transformação no mercado de trabalho causada pela tecnologia tem possibilitado que muitas pessoas que saem do emprego formal entrem rapidamente no mercado informal, principalmente pelo trabalho em aplicativos. Isso pode fazer com que a renda total do país não cresça tanto e atrasar a redução da inflação para a meta de 3% ao ano, apontam especialistas.

Em 2025, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) registrou a criação de apenas 1,27 milhão de empregos formais, o pior desempenho desde 2020. Mesmo assim, a taxa média de desemprego ficou em 5,6%, a menor da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que inclui empregos formais e informais.

O rendimento médio real do trabalhador cresceu 5,7% em 2025, chegando a R$ 3.560, e a massa salarial aumentou 6,4% no último trimestre do ano, confirmando a visão do economista André Perfeito de que a taxa Selic, principal taxa de juros da economia, não terá muito efeito sobre o mercado de trabalho.

André Perfeito explica que o mercado de trabalho está mudando por conta de novos formatos de emprego, como o trabalho por conta própria, uso de aplicativos e a vontade das pessoas de serem seus próprios patrões. Ele também menciona programas sociais como o Bolsa Família como parte desse cenário.

O economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, destaca sinais de desaceleração econômica e o aumento dos pedidos de seguro-desemprego no segundo semestre de 2025, indicando que o mercado de trabalho pode apresentar um ritmo mais lento em 2026.

Galhardo acredita que, apesar dessa desaceleração, a renda total gerada pelo mercado de trabalho informal, impulsionada por plataformas e aplicativos, deve continuar praticamente estável, mesmo com números fracos no emprego formal.

Um estudo do IBGE realizado em outubro do ano passado mostrou que trabalhadores que atuam em plataformas digitais têm renda média maior do que aqueles que não trabalham por aplicativos, mas também passam mais horas trabalhando.

Em 2024, o rendimento médio dos trabalhadores de plataformas foi de R$ 2.996, contra R$ 2.875 dos demais. Eles trabalharam em média 44,8 horas por semana, enquanto os demais trabalharam 39,3 horas. O número de trabalhadores em aplicativos cresceu cerca de 25% entre 2022 e 2024, chegando a pelo menos 1,7 milhão de pessoas envolvidas em transporte, entregas e outros serviços.

O pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), Daniel Duque, destaca que parte da baixa taxa de desemprego atual está relacionada à popularização do trabalho via aplicativos. Segundo ele, sem esse tipo de trabalho, a taxa de desemprego poderia estar até 1 ponto percentual maior.

Duque ressalta que os dados indicam que trabalhadores propensos a atuar em plataformas obtêm maior aumento de renda em comparação à média dos trabalhadores do país, com diferença em torno de R$ 300. Para esse grupo, os aplicativos não só aumentam as oportunidades de trabalho, mas também melhoram a renda.

Ele também compara o trabalho por aplicativo a um “colchão de renda”, que ajuda a proteger os trabalhadores contra perdas severas de renda em momentos de crise. Duque comenta que esse tipo de trabalho funciona como um programa de emprego garantido, com alta demanda disponível para quem perde o emprego formal.

Visão Contrária

O economista Henrique Danyi, do Santander, tem uma visão diferente e aponta que não há evidências claras de que o mercado informal esteja absorvendo trabalhadores que deixam o formal. Na verdade, o emprego formal tem mostrado maior resistência.

Danyi observa que o Caged tem indicado um nível resiliente de emprego formal desde 2023. Segundo ele, o mercado formal pode estar absorvendo trabalhadores informais.

Ele também explica que trabalhadores por conta própria que possuem CNPJ são formais e que a discussão sobre informalidade e formalidade está mudando para uma questão de composição e alocação de empregos. Danyi acredita que há maior flexibilidade no mercado, o que pode evitar quedas abruptas do emprego formal mesmo com algum crescimento da informalidade.

Já o economista-chefe do BTG Pactual, Mansueto Almeida, prevê que a taxa de desemprego fechará 2026 em 6%, acima dos 5,1% de 2025, mas ainda uma taxa relativamente baixa.

Mansueto explica que a taxa de desemprego de 5,1% em 2025 ocorreu mesmo com a desaceleração econômica no segundo semestre, e que uma queda na taxa de participação no mercado de trabalho contribuiu para esse resultado. Sem essa queda na participação, a taxa de desemprego teria ficado em torno de 5,8%.

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