FERNANDO CANZIAN
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
O setor agrícola brasileiro, fundamental para a economia do país, está diante de um desafio novo que pode mudar o comércio mundial nos próximos anos.
O Brasil depende muito da China, que compra 71% da soja e 54% da carne bovina exportadas pelo país. A China importa mais de 60% da soja que consome do Brasil e 40% da sua carne.
Mas a China decidiu que confiar tanto nas importações é um risco para sua segurança alimentar e lançou um plano para diminuir essas compras. Essas ações estão no 15º Plano Quinquenal chinês para 2026-2030.
É esperado que a China reduza em 25% a compra de soja até 2030, cortando 23,5 milhões de toneladas — quase um terço do que o Brasil vendeu para lá em 2024.
Sem outros mercados grandes o suficiente para comprar essa oferta, o Brasil corre o risco de vender menos e receber menos pelas suas commodities. Isso pode tornar terras agrícolas e infraestrutura menos valiosas.
A China mudou sua abordagem, aplicando ao campo a mesma estratégia que usou para se tornar líder mundial em painéis solares e carros elétricos.
No seu plano quinquenal, a segurança alimentar é prioridade, tão importante quanto a energia e finanças.
Pequim quer reduzir seu déficit comercial agrícola de US$ 124,5 bilhões apostando em autonomia e inovação na alimentação.
A China sabe que não pode ser totalmente autossuficiente por falta de terra e água — ela possui só 8% das terras cultiváveis para 15% da população mundial —, mas quer depender menos de outros países diversificando sua produção e investindo em tecnologia.
Patricia Ellen, CEO da Systemiq no Brasil, destaca que o Brasil ainda não está preparado para essa mudança e que é importante encarar essa transformação com urgência.
Ricardo Abramovay, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia, lembra que, apesar da terra ser propriedade do governo na China, há incentivo forte a investimentos privados em agricultura inovadora, como fazendas verticais perto de cidades.
O plano chinês prevê crédito barato oferecido por bancos estatais, subsídios e investimento contínuo em pesquisa para reduzir riscos e custos iniciais dos projetos.
Isso permite que as empresas criem capacidade produtiva antes de garantirem lucro, acelerando o progresso.
Abramovay afirma que os chineses acreditam no governo como garantidor da segurança alimentar, inspirado pelo sucesso industrial do país.
Na história recente, a China enfrentou a Grande Fome (1959-1961), causada por desastres naturais e políticas erradas, resultando em milhões de mortes por fome.
Marcos Jank, do Insper Agro Global, explica que as metas são claras: produzir 725 milhões de toneladas de grãos ao ano, mais que o dobro do Brasil, com terras irrigadas, mecanizadas e sementes avançadas. Ainda assim, ele alerta para a complexidade de mudar sistemas agrícolas rapidamente.
Jank também sugere que o Brasil busque novos mercados para não depender exclusivamente da China.
O Ministério da Agricultura e a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso não comentaram as novas políticas chinesas.
A China implantou o programa “Ação de Capacidade de 50 Milhões de Toneladas”, com metas rígidas para aumentar a produção interna de grãos até 2030.
Na área de biotecnologia, dá importância máxima à segurança das sementes, liberando variedades locais geneticamente modificadas de milho e soja para aumentar a produtividade entre 6% e 13%.
Outra medida é diminuir o uso de farelo de soja na ração animal de 14,5% para menos de 10% até 2030. Já se vê essa mudança em ação: a maior produtora mundial de suínos, Muyuan Foods, diminuiu o uso para 5,7% em 2023, economizando grandes quantidades.
Eduardo Martins, ex-presidente do Ibama, destaca que a China lidera na produção de aminoácidos, que aumentam o valor proteico das rações, tornando essa inovação econômica e prática em larga escala.
A longo prazo, a China quer deixar de ser o maior importador para competir globalmente, projetando ser exportadora líquida de aves, laticínios, ovos e peixes até 2040, aumentando a concorrência com produtores tradicionais.
Também investe em proteínas alternativas – vegetais, fermentadas e cultivadas em laboratório – para suprir entre 35% e 55% da demanda interna por carne até 2050.
O agro brasileiro é visto pela China ainda como fonte segura para suprimento imediato, enquanto o dos EUA é usado como influência política.
Com avanços tecnológicos, a China vai exigir produtos agrícolas com padrões ambientais rigorosos, sem desmatamento, e com rastreamento total, alinhando-se às normas europeias.

