Tulio Kruse
São Paulo, SP (FolhaPress)
O celular da soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana, 32 anos, foi desbloqueado e teve mensagens apagadas poucos minutos depois dela ser atingida por um tiro na cabeça, conforme relatório da Polícia Civil.
O único indivíduo presente no apartamento no Brás, região central de São Paulo, na manhã do dia 18 de fevereiro, era o marido dela, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto. Ele foi preso na semana passada, um mês após o ocorrido, sob suspeita de feminicídio e adulteração de provas.
A perícia conseguiu recuperar as mensagens que foram deletadas. Essas mensagens, enviadas na noite antes da morte de Gisele, tratavam do processo de divórcio entre o casal.
Uma das mensagens apagadas dizia: “Pode entrar com o pedido [de divórcio] essa semana”, enviada por volta das 23h. Outra mensagem anterior afirmou: “Já que decidiu separar”.
A polícia acredita que as mensagens foram deletadas pelo marido de Gisele. A defesa do tenente-coronel negou e disse que contratou um perito independente para analisar o celular.
O advogado Eugênio Malavasi afirmou: “Pedi a habilitação de um perito particular, contratado pelo coronel [Neto], para que ele possa analisar toda a prova pericial e emitir um parecer.”
O histórico mostra que o casal discutia a separação há semanas. Gisele expressava desejo de terminar o relacionamento, enquanto o marido evitava resposta direta.
Cinco dias antes do crime, Gisele disse ao marido que estava “praticamente solteira”. Ele respondeu: “Jamais! Nunca será!”
A perícia aponta que o celular foi desbloqueado pela primeira vez no dia da morte às 6h50 e novamente às 7h31, permanecendo aberto até às 7h58.
O horário do tiro que matou Gisele foi um ponto controverso desde o início, gerando suspeitas contra o tenente-coronel.
Neto afirmou que entrou no banheiro para tomar banho e ouviu o barulho um minuto depois. Porém, uma vizinha disse ter escutado o disparo às 7h28. O celular do tenente-coronel registrou uma ligação ao número 190 da Polícia Militar somente às 7h54.
O relatório diz: “A análise mostra que o celular da vítima foi acessado e desbloqueado minutos após o tiro. As últimas mensagens trocadas entre o casal foram apagadas, possivelmente pelo acusado.”
Além disso, as mensagens trocadas na véspera não foram encontradas no celular do tenente-coronel, o que sugere que ele também as apagou no próprio aparelho.
Em seu depoimento, Neto alegou que Gisele atirou contra si mesma depois que ele disse, nas primeiras horas da manhã, que havia decidido pela separação. Contudo, as mensagens indicam que ela já pedia o divórcio há semanas e que, na noite anterior, reiterou seu pedido para iniciar o processo.
Uma das mensagens apagadas dizia: “Agora podemos tratar de como vou sair”, enviada às 22h48. Outra mensagem dizia: “Você confundiu carinho com autoridade, amor com obediência, provisão com submissão.”
As análises da Polícia Técnico-Científica descartaram a possibilidade de suicídio e indicam que o tenente-coronel teria dado o tiro fatal na sala do apartamento.
As provas principais para a prisão do tenente-coronel incluem manchas de sangue na posição incorreta, marcas de agressão no rosto de Gisele (confirmadas após exumação do corpo) e contradições nos depoimentos do marido.
Neto desobedeceu uma ordem para não tomar banho, o que poderia comprometer provas pela possível remoção de sangue do corpo. A perícia indica que a posição do corpo foi alterada e que a arma foi colocada na mão da vítima após a morte.

