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Brasília

Celina, o “embrião de ouro” e a pergunta que o DF precisa fazer: onde estão os órgãos de controle?

Celina Leão em meio a questionamentos sobre relação com empresário ligado à Urbi no DF
Relação comercial privada envolvendo Celina Leão e empresário ligado à Urbi provocou questionamentos sobre possível conflito de interesses e atuação dos órgãos de controle.

Governadora confirmou negócio com empresário ligado à Urbi, concessionária do transporte público; relação privada com quem depende de decisões do próprio GDF levanta questionamentos sobre conflito de interesses e cobra respostas mais claras dos órgãos de fiscalização

Uma relação comercial privada entre a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), e um dos empresários que mantém contratos milionários com o próprio Governo do Distrito Federal colocou uma pergunta incômoda no centro do debate político de Brasília: quem está fiscalizando quem detém o poder?

Reportagem da jornalista Daniela Lima, publicada pelo UOL, revelou que Celina Leão e o marido fizeram uma parceria com o empresário Edmundo Pinheiro, proprietário da Urbi, para a aquisição de parte de um embrião de gado Nelore. O negócio, realizado em setembro de 2025, durante um leilão público, foi avaliado em cerca de R$ 500 mil e teria pagamento parcelado em 30 vezes. Naquele momento, Celina ainda era vice-governadora.

O problema institucional não está na compra de gado.

Está em quem aparece do outro lado da sociedade.

Edmundo Pinheiro é dono da Urbi, uma das cinco concessionárias responsáveis pelo transporte público do Distrito Federal. Segundo o UOL, a empresa possui o terceiro maior contrato de pagamento de tarifas do sistema. A reportagem apontou ainda que a Urbi recebe R$ 9,78 por passageiro dentro do modelo de tarifa técnica e que o conjunto das concessionárias representa desembolso estimado em cerca de R$ 200 milhões mensais aos cofres públicos.

Ou seja: não se trata simplesmente da governadora fazendo um investimento privado ao lado de outro empresário.

Trata-se da chefe do Poder Executivo mantendo uma relação patrimonial privada com um empresário cuja atividade econômica depende diretamente de decisões tomadas pela administração que ela comanda.

É uma diferença enorme.

Os contratos já estavam sob investigação

O caso se torna ainda mais sensível porque os contratos do transporte coletivo do DF não são uma página em branco.

O próprio MPDFT já investigou atos administrativos relacionados aos reajustes das tarifas técnicas das concessionárias. Em 2022, a Promotoria de Defesa do Patrimônio Público chegou a ajuizar ação buscando impedir novos aumentos de repasses e cobrar a devolução de valores considerados indevidos.

Na ocasião, o Ministério Público sustentou judicialmente questionamentos sobre a forma como esses pagamentos eram realizados, e a Justiça chegou a impedir temporariamente atos que implicassem determinados pagamentos de complementação tarifária.

Segundo o levantamento publicado pelo UOL, entre 2019 e maio de 2026 houve 63 revisões da tarifa técnica.

É justamente dentro desse ambiente — contratos bilionários ao longo dos anos, revisões tarifárias, perícias, questionamentos judiciais e dinheiro público — que aparece a relação privada da governadora com um empresário do setor.

Onde estão os “guerreiros” do MPDFT?

É aqui que surge uma pergunta que o cidadão do Distrito Federal tem o direito de fazer:

Onde estão os “guerreiros” do MPDFT?

Onde estão aqueles que, diante de fatos envolvendo patrimônio público, moralidade administrativa, impessoalidade e potenciais conflitos entre interesses públicos e privados, deveriam agir com independência e transparência?

A cobrança precisa, contudo, ser feita com precisão.

Seria incorreto afirmar que o MPDFT jamais atuou sobre o transporte público. Atuou — e existem ações e investigações que comprovam isso.

A questão agora é outra: qual tratamento está sendo dado especificamente à relação patrimonial entre a governadora e o dono de uma concessionária que recebe dinheiro do governo comandado por ela?

Não faltaram provocações formais.

O deputado distrital Gabriel Magno (PT) protocolou Notícia de Fato pedindo investigação sobre eventual conflito de interesses. Posteriormente, integrantes do PSB foram pessoalmente ao MPDFT cobrar o andamento de representação sobre o caso. Em 20 de julho, Ricardo Cappelli reuniu-se inclusive com o procurador-geral de Justiça do DF, Georges Seigneur, para tratar do assunto.

Portanto, o Ministério Público conhece formalmente a controvérsia.

A sociedade precisa agora conhecer a resposta.

Mais R$ 508,5 milhões aumentam a necessidade de transparência

O assunto ganhou novo capítulo em agosto.

Um pedido encaminhado ao MPDFT solicitou investigação sobre a destinação de R$ 508,5 milhões previstos para o sistema de transporte público do Distrito Federal e pediu que fosse verificado se a Urbi ou empresas relacionadas poderiam ser beneficiadas pelos recursos.

A própria representação ressalta que a destinação do dinheiro não comprova favorecimento nem qualquer ilícito. É exatamente por isso que investigação, transparência e rastreabilidade são indispensáveis.

Não cabe condenar ninguém antecipadamente.

Mas também não cabe às instituições fingirem que uma relação dessa natureza é politicamente irrelevante.

Politização ou seletividade?

É nesse ponto que surge uma segunda discussão incômoda sobre o MPDFT.

Quando órgãos de controle demonstram enorme disposição em determinados episódios, mas oferecem pouca informação pública diante de outros casos igualmente sensíveis, abre-se espaço para uma percepção perigosa: a de seletividade institucional.

Isso não permite afirmar, sem provas, que o MPDFT esteja politizado.

Permite — e exige — perguntar.

Qual é o número do procedimento?

Quem conduz a análise?

Quais diligências foram realizadas?

A governadora foi chamada a prestar esclarecimentos?

O empresário foi ouvido?

Os documentos relativos ao negócio foram requisitados?

Foi analisada eventual participação da Urbi em decisões administrativas tomadas depois da constituição dessa relação privada?

A representação será convertida em inquérito civil, arquivada ou submetida a outras providências?

Essas respostas interessam à sociedade.

Instituições fortes não deveriam temer perguntas. Deveriam respondê-las.

O que diz Celina Leão

A governadora confirmou o negócio.

Segundo sua assessoria, Celina e o marido realizaram a parceria com Edmundo Pinheiro quando ela ainda ocupava a vice-governadoria, durante um leilão público realizado em setembro de 2025, e o pagamento foi dividido em 30 parcelas.

O governo também informou que a Secretaria de Transporte publicou, em maio de 2026, portaria suspendendo processos de revisão da tarifa técnica até que fossem concluídos estudos para padronização da metodologia utilizada nos cálculos.

Questionada pelo UOL especificamente sobre se considerava problemática a manutenção de uma relação societária com empresário cujos rendimentos dependem de decisões do governo, a assessoria não apresentou resposta sobre esse ponto.

Esse silêncio político não prova irregularidade.

Mas tampouco elimina o conflito de interesses que precisa ser esclarecido.

O poder consegue silenciar os poderes?

E então chegamos à pergunta mais grave.

O poder consegue comprar o silêncio das instituições?

Até o momento, não existe evidência pública que permita afirmar que Celina Leão ou qualquer integrante do GDF tenha comprado o silêncio do Legislativo, do Judiciário ou do Ministério Público. Fazer essa acusação como fato, sem provas, seria irresponsável.

Mas existe uma questão democrática muito maior.

O poder não precisa necessariamente comprar silêncio com dinheiro para enfraquecer instituições. A ausência de fiscalização efetiva, a acomodação política, a demora injustificada, a falta de transparência ou o tratamento desigual de casos sensíveis também podem produzir um efeito semelhante: uma sociedade que deixa de confiar nos seus mecanismos de controle.

E Brasília deveria conhecer bem os riscos desse caminho.

Também seria injusto dizer que toda a Câmara Legislativa permaneceu calada, porque parlamentares de oposição provocaram formalmente os órgãos de fiscalização. O que precisa ser cobrado é se essas iniciativas resultarão em fiscalização institucional efetiva — independentemente de partido ou de quem esteja sentado na cadeira de governador.

Quanto ao Judiciário, vale a precisão jurídica: juízes não funcionam como investigadores de ofício. Para que a Justiça decida, investigações, ações ou representações precisam chegar até ela pelos canais competentes.

Por isso, os holofotes recaem especialmente sobre Ministério Público, Tribunal de Contas e demais órgãos responsáveis pela fiscalização da administração pública.

O DF precisa de respostas, não de torcida

A questão central não deveria ser se alguém apoia ou rejeita Celina Leão.

Nem se o episódio beneficia um candidato ou prejudica outro em pleno período eleitoral.

A pergunta é institucional.

É aceitável que a chefe do Executivo mantenha uma relação patrimonial privada com empresário que recebe recursos públicos definidos pela administração comandada por ela?

Se é legal, os órgãos competentes devem explicar por quê.

Se existe conflito de interesses, devem apontá-lo.

Se há irregularidade, devem investigar e responsabilizar.

E, se não existe qualquer irregularidade, uma apuração independente é justamente o melhor instrumento para afastar suspeitas.

O que não pode existir é um enorme ponto de interrogação pairando sobre uma relação entre poder público, interesse privado e centenas de milhões de reais enquanto as instituições responsáveis pela fiscalização permanecem sem apresentar à população respostas claras.

Cadê os “guerreiros” do MPDFT?

Não é uma condenação.

É uma cobrança.

E, numa democracia, quem fiscaliza o poder também precisa aceitar ser fiscalizado pela sociedade.

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