ANA PAULA BRANCO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
As empresas Carrefour, Kalunga, Casas Bahia, Caoa e Center Castilho estão sendo investigadas pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) em uma nova fase de operação que apura um esquema de corrupção envolvendo a liberação indevida de créditos do ICMS pela Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo (Sefaz-SP).
O auditor Artur Gomes da Silva Neto é apontado como o principal responsável pelo esquema, atuando como operador na liberação irregular de créditos que movimentaram mais de R$ 1 bilhão em propinas por meio de uma empresa de fachada.
Em nota, a Sefaz-SP, que está ligada ao governo de Tarcísio de Freitas e comandada por Samuel Kinoshita, declarou que colabora com o MP-SP por meio da Corregedoria da Fiscalização Tributária (Corfisp).
Até o momento, o Carrefour não se pronunciou, e as outras empresas investigadas também não responderam aos contatos feitos pelos jornalistas. A defesa de Silva Neto também não foi localizada. Representantes da Center Castilho não foram encontrados.
De acordo com o MP-SP, a chefe da área tributária do Carrefour, Luciene Petroni Castro Neves, teria mantido contato frequente com o auditor entre julho de 2021 e agosto de 2025, período em que ele oferecia uma espécie de assessoria criminosa para a empresa.
Conversas interceptadas via WhatsApp mostram que o auditor orientava o Carrefour na apresentação de documentos, acelerava processos de ressarcimento de ICMS-ST e concedia créditos em desacordo com a lei, garantindo um tratamento diferenciado à rede varejista.
O MP-SP também identificou o uso de aplicativos criptografados, como Wickr e Session, para dificultar a fiscalização das negociações ilícitas.
Os promotores acreditam que Luciene, responsável pela gestão fiscal e compliance do Carrefour, participou da estrutura que favorecia a empresa mediante pagamentos ilegais e lavagem de dinheiro.
A operação, chamada de Fisco Paralelo, é uma extensão da Operação Ícaro e envolve 22 mandados de busca e apreensão em cidades como São Paulo, Campinas, Vinhedo e São José dos Campos, focando em servidores de várias delegacias tributárias e da diretoria de fiscalização.
Em Campinas, foram apreendidos cerca de R$ 22 mil em espécie, US$ 1.800, 95 libras, além de aparelhos eletrônicos com informações importantes para a investigação.
A Sefaz-SP informou que 33 processos administrativos estão em andamento para apurar irregularidades envolvendo servidores, que podem ser punidos inclusive com demissão.
A secretaria também atua na prevenção à sonegação, lavagem de dinheiro e crimes contra a ordem tributária, em parceria com o Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos (CIRA-SP).
A Operação Ícaro, iniciada em agosto de 2025, revelou um esquema de corrupção bilionário que envolvia pagamento de propinas para acelerar créditos fiscais para grandes varejistas como Ultrafarma e Fast Shop. A Fisco Paralelo amplia essa investigação para outras unidades da Fazenda Estadual.
O objetivo principal da ação é coletar mais provas para entender como essa rede de corrupção funcionava dentro do fisco paulista.
Recentemente, o MP-SP também realizou a Operação Mágico de Oz, que investigou esquema semelhante em Osasco, envolvendo servidores públicos, empresários e intermediários suspeitos de manipular processos fiscais para obter ganhos ilegais.
Em outra ação, foram apreendidos mais de US$ 68 mil e R$ 288 mil em espécie, além de criptoativos avaliados em cerca de R$ 1,8 milhão, em perícias que buscam identificar a origem dos valores e seu vínculo com o esquema investigado. O total dos ativos bloqueados soma R$ 2,4 milhões.

