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sexta-feira, 03/04/2026

Canetas para emagrecer e apostas tiram parte do orçamento em casa

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DANIELE MADUREIRA
FOLHAPRESS

Desde o começo dos anos 2000, o aumento real da renda dos brasileiros foi pequeno, chegando a uma média anual de 1,7% entre 2003 e 2025. No entanto, a quantidade de serviços usados nas casas cresceu muito nesse período: celulares agora estão em 97% dos lares, internet em 85%, serviços de streaming em 43%, além de mais pessoas investindo em ensino superior (20,5% da população, contra 7% no início dos anos 2000) e pagando aluguel (23%, contra 12%).

Esses gastos tiraram uma parte do dinheiro que costumava ser gasto em supermercado, especialmente em alimentos, bebidas, produtos de higiene, beleza e limpeza. Em 2023, esses produtos representavam 23,5% do orçamento das famílias, conforme dados da NielsenIQ Brasil, hoje diminuíram para 21,9%.

Esse valor deve diminuir ainda mais rápido devido a uma nova categoria de produtos: canetas para emagrecer, além das apostas online, que já fazem parte de pelo menos um em cada quatro lares brasileiros.

Pesquisas exclusivas da NielsenIQ mostram que 26% das casas no Brasil fazem apostas online, principalmente nas classes D e E. Já as canetas para emagrecer, conhecidas pelos nomes de Ozempic, Wegovy e Mounjaro, estão presentes entre 25% e 30% dos lares, seja na versão oficial com receita médica, genéricas ou versões manipuladas aplicadas em consultórios (prática proibida pela Anvisa).

Estes dados foram antecipados, pois as pesquisas completas só serão divulgadas no final do mês. As informações são baseadas no Painel de Lares da NielsenIQ, que monitora mais de 8.000 domicílios, e no NielsenIQ Retail Index, que acompanha as vendas no varejo, incluindo farmácias.

Na última Black Friday, três dos cinco produtos mais vendidos nas farmácias foram canetas emagrecedoras. O tratamento com Mounjaro, considerado o mais eficaz, custa a partir de R$ 1.400 ao mês, mas existem opções nacionais mais baratas, como o Olire, da EMS, que custa R$ 300 ao mês.

A patente do Ozempic, que atualmente custa cerca de R$ 1.000 mensais, termina em março, o que deve permitir a produção de versões nacionais mais acessíveis. Recentemente, a Câmara dos Deputados aprovou urgência para um projeto que permite a quebra da patente do Mounjaro.

Gabriel Fagundes, diretor de insights da NielsenIQ Brasil, explica que as canetas para emagrecer são mais consumidas pelas classes mais altas, mas devem se popularizar com a redução dos preços, impactando os hábitos de consumo nos próximos anos.

Ele ressalta que não apenas as apostas e canetas influenciam a redução do consumo de produtos básicos, mas um consumidor mais diversificado em suas escolhas.

As apostas estão concentradas nas classes D e E, que veem isso não como diversão, mas como uma chance de aumentar a renda. “Esse número de 26% pode ser ainda maior, pois muitos não admitem publicamente o hábito”, diz Fagundes. “Para manter as apostas diárias, esses consumidores deixam de comprar alguns alimentos e bebidas, buscando uma renda extra.”

O crescimento do consumo financeiro permitiu que as pessoas comprassem produtos mais caros, como eletrônicos e eletrodomésticos, cujas vendas aumentaram 16,6% entre 2015 e 2025.

Mesmo com crises financeiras, pandemia e inflação, os consumidores fizeram diversos ajustes para continuar comprando alimentos, bebidas e produtos de higiene e beleza.

Em 2023, o preço dos alimentos subiu 12%, enquanto o consumo caiu 0,6%. Ou seja, os brasileiros gastam mais para comprar menos.

Fagundes afirma que o consumidor diversifica seus locais de compra, incluindo farmácias, e mesmo sendo cuidadoso com preços não abre mão de produtos que considera um mimo.

Assim, é comum escolher marcas mais baratas para itens básicos, mas também comprar cremes e produtos premium. Para economizar, pode preferir embalagens menores, mesmo sabendo que não compensam financeiramente a longo prazo.

“O consumidor escolhe alguns produtos para comprar mais barato”, finaliza Fagundes, “e isso aumenta o consumo de marcas premium e baratas, enquanto produtos de preço médio têm menor demanda.”

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