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sábado, 14/02/2026

Brasil fica para trás na produção de vacinas próprias

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Em Brasília

PHILLIPPE WATANABE
FOLHAPRESS

O Brasil tem sido exemplar na distribuição e no acesso a vacinas, mas não avançou na fabricação e produção próprias, um setor avançado e dominado por poucos países.

Carla Domingues, epidemiologista e ex-coordenadora do Programa Nacional de Imunizações (PNI), afirma que o Brasil nunca participou dessa corrida: não temos vacina desenvolvida completamente aqui, do início ao fim, liberada para a população.

Esper Kallas, diretor do Instituto Butantan, apresenta uma visão mais otimista, destacando que o Butantan está entre os dez maiores produtores mundiais de vacinas contra a influenza, embora reconheça que o setor nacional enfrente muitas dificuldades frente ao cenário global.

Alcançar autossuficiência significa ter todo o processo de produção de vacinas – desde a matéria-prima até o produto final – inteiramente no país, algo considerado utópico devido aos altos custos.

Kallas explica que a produção de vacinas é descentralizada no mundo, com insumos vindo de diversos países. Por exemplo, a vacina contra HPV do Butantan é produzida pela Merck nos EUA, mas registrada e envasada no Brasil.

A China e a Índia são exemplos de países que avançaram bastante, especialmente durante a pandemia da Covid-19. A Coronavac, primeira vacina contra o Sars-CoV-2 usada no Brasil, foi criada pelo laboratório chinês Sinovac e envasada aqui pelo Butantan.

Carla Domingues destaca que esses países investem muito dinheiro porque o mercado de vacinas é lucrativo, tornando-os grandes exportadores, enquanto o Brasil fica no meio do caminho.

Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha também são importantes investidores em desenvolvimento vacinal, mas a produção vem se deslocando para a Ásia.

No caso da Índia, empresas familiares como Bharat Biotech e Serum Institute dominam o mercado, fruto de profissionais que adquiriram conhecimento no exterior e retornaram para desenvolver suas estruturas.

A China conta com forte apoio governamental para fomentar o crescimento da indústria de vacinas.

Esper Kallas informa que no Brasil apenas duas instituições (Butantan e Fiocruz) têm registros de vacinas, enquanto na China quase 60 empresas possuem registro oficial.

Em 2021, 65 empresas brasileiras estavam registradas para produzir vacinas, mas a China é um dos poucos países capazes de atender a seu programa vacinal integralmente com produção própria.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, o mercado global é controlado por poucas empresas: 73% das vacinas são produzidas por dez players principais, entre eles Pfizer, Merck, Serum Institute, Bharat Biotech, GSK e Sanofi.

Por que desenvolver vacinas próprias?

Mesmo existindo um mercado externo, as necessidades vacinais variam por país. O investimento para desenvolver uma vacina é muito alto, tornando difícil para laboratórios privados criarem imunizantes específicos para o Brasil.

Carla Domingues destaca a importância de o país ter capacidade própria para produção.

Um exemplo negativo foi a Butanvac, projeto interrompido após anos de pesquisa. Já a vacina contra dengue do Butantan, aprovada pela Anvisa, é um caso promissor, embora parte do desenvolvimento tenha ocorrido fora do Brasil.

Onde o Brasil perdeu o rumo?

Nos anos 80, o país tinha forte produção de vacinas. A partir dos anos 2000, com a adoção de normas regulatórias mais rigorosas, muitas vacinas foram interrompidas para adaptação.

Esper Kallas aponta que investimentos recentes começaram a recuperar a capacidade produtiva do Butantan.

Carla Domingues aponta que o baixo investimento em pesquisa e a dependência de transferência de tecnologia são problemas sérios.

Segundo ela, o Brasil continuará dependendo de laboratórios privados externos para obter tecnologia e conhecimento para produzir vacinas no futuro.

Investimentos no setor são de longo prazo, com resultados já visíveis, como os soros produzidos pelo Butantan. São fundamentais para enfrentar o aumento dos custos de produtos farmacêuticos avançados.

Esper Kallas conclui que é estratégico para o Brasil investir e prosperar no setor de imunobiológicos, assim como aconteceu com a indústria de medicamentos genéricos, para se tornar um ator relevante internacionalmente.

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