MAURO ZAFALON
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Poucos países no mundo não têm alguma proteína animal proveniente do Brasil no seu prato. Isso é muito diferente das décadas de 1980 e 1990, quando o Brasil ainda dependia de importações para suprir parte do consumo interno.
Nos últimos anos, a produção de carne no país cresceu rapidamente, e o Brasil se tornou um importante fornecedor para o mercado global, respondendo por uma grande fatia da demanda crescente no exterior.
Essa mudança principal ocorreu nos últimos cinco anos, período em que problemas de saúde animal como vaca louca, febre aftosa, peste suína africana e gripe aviária afetaram a produção em vários países, fazendo do Brasil um dos poucos fornecedores seguros e estáveis.
A produção de carnes bovina, suína e de frango atingiu cerca de 30 milhões de toneladas no último ano, um aumento de 7% em comparação com o período anterior, conforme dados do IBGE e da Conab.
Esse aumento estimulou as exportações, que por sua vez incentivaram ainda mais a produção. Nos últimos cinco anos, o Brasil exportou 40 milhões de toneladas de carne, 27% a mais do que no período anterior, gerando receitas que superam US$ 105 bilhões desde 2020.
Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o Brasil deve ser responsável por 11% da produção mundial de carnes e por 28% das exportações internacionais dessas proteínas em 2023.
O crescimento das exportações é maior na carne bovina e suína, que ampliaram sua participação global de 17% para 29% e de 8% para 16%, respectivamente, nos últimos anos. A carne de frango, que já detém 39% do mercado externo, também registrou crescimento.
A pecuária desempenhou papel tradicional no desenvolvimento do Brasil, abrindo regiões como o centro do país e parte da Amazônia. Com o avanço da agricultura, a pecuária precisou aumentar sua produtividade para continuar competitiva.
José Bento, professor da USP e especialista em genética bovina, destaca que a genética brasileira é reconhecida mundialmente e que o país possui uma infraestrutura em escala incomparável, apesar de tecnologias ainda pouco difundidas entre pequenos e médios produtores.
A atual chegada da gripe aviária ao Brasil também reflete no aumento da produção e das exportações de aves, segundo Ricardo Santin, presidente da ABPA. Ele ressalta que o consumidor brasileiro compra 70% da carne produzida, enquanto as exportações elevam o nível de exigência do setor.
Para Roberto Perosa, presidente da ABIEC, o reconhecimento da qualidade sanitária da carne brasileira tem sido fundamental para seu sucesso global.
Rafael Ribeiro de Lima Filho, assessor técnico da Comissão Nacional de Bovinocultura de Corte, indica que o potencial de crescimento na produção de carne é grande, apoiado por tecnologia, clima favorável, genética aprimorada e disponibilidade de terra.
Externamente, o aumento da renda em países asiáticos impulsiona a demanda por proteína animal, enquanto concorrentes como Estados Unidos, Austrália, Europa, Argentina e Uruguai enfrentam limitações.
Além disso, o Brasil se beneficia da boa oferta de grãos para ração e dos resíduos da indústria de etanol de milho, que colaboram na alimentação dos animais.
Maurício Palma Nogueira, da consultoria Athenagro, prevê que o Brasil poderá ultrapassar os Estados Unidos também em produção bovina, com crescimento significativo esperado nos próximos anos.
Apesar disso, a produtividade média ainda é baixa, e há grande disparidade entre produtores, o que indica espaço para melhorias, conforme mostram dados da Athenagro.
O avanço em produtividade também ajuda a reduzir a área de pastagem necessária, diminuindo a pressão sobre o meio ambiente. Contudo, o desmonte da assistência técnica dificultou a difusão de tecnologias entre produtores menores, segundo José Bento.
O desafio para o setor é aumentar a eficiência para se manter competitivo, já que países como os Estados Unidos produzem mais carne com menos rebanho.
A concentração do mercado também é alta, com os maiores produtores movimentando a maior parte das vendas, conforme aponta Maurício Nogueira.
Os países asiáticos continuam sendo mercados chave para a pecuária brasileira, com a China em destaque, tendo comprado mais de 2 milhões de toneladas no ano passado.
Por fim, a sustentabilidade é um ponto essencial para o futuro da produção. Mariana Vieira da Costa, bióloga, destaca que a pecuária deve equilibrar produção econômica e responsabilidade ambiental para evitar custos elevados causados por mudanças climáticas.
Um estudo da Unifesp aponta que práticas sustentáveis poderiam evitar bilhões de dólares em prejuízos até 2030, mostrando a importância de ações conscientes no setor.