JÉSSICA MAES e DIANA YUKARI
FOLHAPRESS
Pesquisadores observaram que os corais na costa do Brasil estão sofrendo danos devido ao calor intenso dos oceanos nos últimos meses.
Na região dos litorais sul de Pernambuco e norte de Alagoas, foi notado o branqueamento em grande escala, enquanto no sul da Bahia, apenas algumas colônias foram afetadas até agora.
Esse processo, que pode causar a morte dos corais, ocorre quando a temperatura dos oceanos permanece elevada por várias semanas. O branqueamento é uma consequência das mudanças climáticas causadas pelas atividade humanas, já que o calor extra do aquecimento global é absorvido principalmente pelos mares.
Na Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais (APACC), que fica entre os municípios de Tamandaré (PE) e Maceió (AL), diversas colônias foram atingidas, conforme explicou a professora Beatrice Ferreira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Ela disse que o branqueamento em massa ocorre quando cerca de 50% das espécies ou colônias em uma área grande sofrem estresse térmico.
Segundo a professora, os alertas começaram em março. O nível 1 de alerta da agência americana NOAA indicou que o branqueamento das espécies mais sensíveis já havia começado. Esse alerta significa que é muito provável que o branqueamento seja significativo na região.
Em 2023, devido ao aumento recorde da temperatura dos oceanos, a NOAA expandiu sua escala de alerta, que antes ia até o nível 2 (que indicava branqueamento grave e possível mortalidade alta), para um nível 5, que sugere risco de morte quase total dos recifes.
Beatrice Ferreira afirmou que não são todas as espécies e colônias que foram afetadas, mas que a costa dos corais e grande parte da costa nordeste do Brasil está em níveis de alerta 1 ou 2 há algum tempo, indicando branqueamento em massa.
A pesquisadora estuda essa área há 30 anos através do Programa Ecológico de Longa Duração Tamandaré, apoiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
A espécie de coral mais impactada na Costa dos Corais é o coral-de-fogo Millepora alcicornis.
Beatrice Ferreira estima que mais de 80% das colônias dessa espécie em áreas rasas foram atingidas. Agora, percebe-se que a maioria das espécies e colônias nessas áreas também foram afetadas.
Em março, a NOAA emitiu um aviso de que estava prestes a ocorrer o quarto evento global de branqueamento em massa. Logo depois, o governo da Austrália informou que a Grande Barreira de Corais está sofrendo branqueamento generalizado.
As autoridades australianas dizem que 75% da Grande Barreira já branqueou e corais afetados foram encontrados a até 18 metros de profundidade na região sul.
O último evento global de branqueamento em massa foi entre 2014 e 2017, quando a Grande Barreira perdeu quase um terço dos seus corais. Estudos preliminares indicam que cerca de 15% dos recifes no mundo tiveram alta mortalidade.
Eventos globais anteriores aconteceram em 2010 e 1998, anos associados ao fenômeno El Niño, que também está presente em 2024.
O calor faz com que os corais fiquem brancos porque eles perdem as microalgas coloridas (zooxantelas) que vivem em seus tecidos. Essas algas produzem uma substância tóxica para o coral em águas muito quentes, que as expulsa, revelando o esqueleto calcário dos corais.
Um coral branqueado não está necessariamente morto, mas fica fraco e mais suscetível a doenças, pois as zooxantelas fornecem os açúcares essenciais para sua alimentação por fotossíntese.
Se a temperatura da água retornar ao normal rapidamente, os corais podem recuperar as algas e a energia. Porém, ondas de calor longas e intensas aumentam o risco de morte dos corais.
O Brasil possui os únicos recifes de corais do Atlântico Sul, concentrados principalmente na região Nordeste.
No Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, no sul da Bahia, o aquecimento da água ainda não atingiu níveis tão altos como na costa nordestina, mas algumas espécies já apresentaram branqueamento.
Rodrigo Leão de Moura, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que estuda a área há mais de vinte anos, afirmou que o branqueamento em Abrolhos está abaixo de 5% e apenas parcial em algumas colônias, enquanto no norte do Espírito Santo não houve registros.
Ele alertou que a situação pode piorar se o calor continuar nas próximas semanas e que a repetição desses episódios deteriora a saúde dos corais ao longo do tempo.
Rodrigo Leão de Moura explicou que embora muitas colônias se recuperem após eventos de branqueamento, a mortalidade tende a aumentar com o passar dos anos e a cobertura de corais diminui.
Em Abrolhos, foram observados seis eventos de branqueamento em massa nas décadas recentes: 1993, 1998, 2003, 2010, 2016-2017 e 2019.
Beatrice Ferreira mencionou que, na costa brasileira, ocorrem eventos simultâneos de branqueamento com intensidades variadas, como em 1998, 2010, 2016 e 2019-2020.
Além do aumento da temperatura, o excesso de carbono na atmosfera causado por atividades humanas, que é absorvido pelos oceanos, provoca a acidificação das águas, dificultando a formação dos esqueletos dos corais e de animais marinhos como moluscos e crustáceos.
Os cientistas também destacam que a saúde dos corais brasileiros é afetada pela má qualidade da água, poluição e concessão inadequada de licenças para obras, como dragagens e atividades industriais.
Beatrice Ferreira destacou que, apesar dos avanços na conscientização das comunidades locais, problemas como esgoto, erosão costeira e uso irregular do solo ainda persistem. A criação de áreas protegidas e melhores práticas de turismo e pesca ajudaram, mas não foram suficientes.
Os recifes de coral são comparados às florestas tropicais em biodiversidade, abrigando um quarto de toda a vida marinha, embora ocupem apenas 1% da superfície da Terra.
Recentemente, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) lançou um edital para destinar até R$ 60 milhões a projetos de proteção dos recifes de corais no Brasil.
O foco será melhorar a qualidade da água, combater espécies invasoras e a pesca predatória, organizar o turismo, além de mapear, monitorar e proteger os corais.
