MARCOS HERMANSON
FOLHAPRESS
O Bradesco apresentou uma proposta aos fundos de pensão que controlam a Invepar, empresa responsável pela administração de ativos importantes, como o Aeroporto de Guarulhos e a Linha Amarela no Rio de Janeiro, para prorrogar os prazos de pagamento da dívida e alterar a gestão da companhia.
Esse plano foi divulgado em um documento obtido pela reportagem, que mostra detalhes da negociação.
Desde o ano passado, a Invepar tem enfrentado dificuldades para pagar suas dívidas e chegou até suspender alguns pagamentos. A empresa deve cerca de R$ 1,4 bilhão, entre empréstimos bancários e débitos com acionistas.
Os fundos de pensão ligados a empregados da Petrobras (Petros), Banco do Brasil (Previ) e Caixa Econômica Federal (Funcef) também possuem títulos de dívida da Invepar. Eles já concordaram em adiar o pagamento de R$ 442 milhões que venceriam em agosto para dezembro deste ano.
O Bradesco, que faz parte do grupo de credores financeiros junto com outras instituições, propõe adiar o pagamento do valor principal dessas dívidas para a próxima década e deseja indicar o novo CEO da companhia.
O banco formalizou essa proposta em junho, solicitando mais 60 dias de exclusividade para negociações, com prazo até agosto, mas ainda não recebeu uma resposta definitiva. Além disso, o Bradesco ofereceu comprar R$ 200 milhões em ações da Invepar, o que poderia assegurar-lhe 25% do capital social, o que resultaria em diluição das participações dos fundos.
Outros R$ 655 milhões em títulos de dívida teriam seu vencimento postergado para 2033, podendo ser convertidos em participação acionária, dependendo da aprovação dos acionistas. No meio desse processo, a Invepar também planeja emitir novos títulos com vencimento em 2031.
Em troca, o Bradesco quer um assento no Conselho da Invepar, que passaria a ter cinco membros, o comando da empresa, o direito de indicar o diretor financeiro e a organização da escolha de um novo CEO para o Aeroporto de Guarulhos.
O Bradesco informou que todas as negociações estão sob confidencialidade e não comenta assuntos específicos sobre clientes.
Os fundos de pensão estão divididos sobre a proposta: a Previ teria aceitado, enquanto a Petros pediu esclarecimentos adicionais ao Bradesco. Parte da crítica da Petros refere-se à avaliação baixa da Invepar, estimada em R$ 600 milhões.
Até agora, os fundos concordaram apenas com o adiamento do pagamento das dívidas que vencem ainda este ano. A Invepar alertou que, sem isso, poderia haver o risco de a dívida ser cobrada antecipadamente pelos bancos.
Os fundos discordam sobre a autorização para aumentar o capital da Invepar em até R$ 1,5 bilhão, uma medida prevista na proposta do Bradesco. A Previ aprovou, mas Petros e Funcef se opuseram. A Petros quer que sejam incluídas cláusulas no acordo, como direito de preferência na compra futura de ações e reavaliação do valor da empresa.
A Previ declarou que participou das assembleias da Invepar que discutiram o aumento do capital, apoiando a medida que pode facilitar a entrada de novos investidores.
A Funcef informou que não comenta assuntos relacionados a ativos específicos no momento. Invepar e Petros também preferiram não se manifestar.
O memorando firmado prevê que a Invepar quite as dívidas com os fundos de pensão através da entrega do controle da Linha Amarela e parte da Transolímpica para Petros, Previ e Funcef.
Na assembleia de junho que discutiu o aumento do capital, a Invepar afirmou que a negociação sobre a dívida é vital para a sobrevivência da empresa.
A companhia está em situação complicada, com endividamento alto e pressão sobre o fluxo de caixa, necessitando de reforço financeiro para continuar operando normalmente.
O Bradesco destacou que a recapitalização é fundamental para manter as operações, equilibrar as finanças e reduzir riscos de inadimplência e falência.
Se a Invepar falir, os participantes dos fundos de pensão acionistas, compostos por aposentados da Petrobras, Caixa e Banco do Brasil, podem ter que fazer aportes extras para cobrir os prejuízos.
