TAMARA NASSIF
FOLHAPRESS
A Bolsa de Valores do Brasil terminou o dia com uma alta forte de 2,19%, alcançando 175.589 pontos. Essa alta continua a série de recordes, batendo o maior valor de fechamento do índice pelo quarto dia consecutivo. Entre quarta e quinta-feira, o Ibovespa ultrapassou pela primeira vez a marca de 167 mil pontos, chegando no pico do dia a 177.741 pontos, outro recorde. O dólar também caiu, desvalorizando 0,69%, negociado a R$ 5,282.
O mercado foi influenciado pelas discussões sobre a compra da Groenlândia pelos Estados Unidos. O presidente Donald Trump declarou nas redes sociais que um acordo estrutural envolvendo a Groenlândia e toda a região do Ártico foi formado. Ele também afirmou que não aplicará as tarifas que estavam previstas para começar em 1º de fevereiro.
Esse recuo de Trump foi interpretado depois de uma reunião com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte. Na quarta-feira, ele já havia descartado o uso da força para obter a ilha, que pertence à Dinamarca, durante o Fórum Econômico Mundial, na Suíça.
O comportamento inconsistente do presidente, conhecido desde o período do aumento de tarifas no ano anterior, tem levado investidores a diversificarem seus investimentos fora dos Estados Unidos. Muitos estão buscando menor exposição à volatilidade dos mercados americanos, beneficiando os mercados emergentes.
Adriana Ricci, fundadora da SHS Investimentos, explica que os investidores estão revisando os riscos, diminuindo a exposição em mercados valorizados e procurando alternativas onde o retorno compense o risco. O dinheiro global não desaparece, apenas muda de lugar.
O Brasil se destaca por fatores específicos, como os juros elevados – a taxa Selic está em 15% ao ano desde junho passado – e a forte presença de commodities na Bolsa, incluindo petróleo e minério de ferro. As ações das empresas brasileiras ainda estão a preços atrativos, mesmo com os recordes do Ibovespa, que opera com múltiplos abaixo da média histórica.
Rodrigo Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos, comenta que a diminuição nas tensões geopolíticas incentiva a entrada de recursos estrangeiros na Bolsa brasileira. Como a capitalização do Ibovespa é baixa, qualquer fluxo de capital novo causa impacto, especialmente em momentos de poucas vendas.
Ele prevê que esse movimento continuará até abril, quando as eleições começam a influenciar os preços dos ativos, podendo aumentar a volatilidade.
A chegada de investidores estrangeiros também afeta o câmbio, porque eles precisam converter dólares em reais para investir no país.
José Faria Júnior, diretor da consultoria Wagner Investimentos, afirma que o dólar deve continuar caindo até alcançar cerca de R$ 5,25, sugerindo que apenas compras de curto prazo sejam feitas.
O recuo de Trump em relação à Groenlândia também incentiva investimentos mais arriscados, e combinado com a rotação dos investimentos para fora dos EUA, favorece a Bolsa brasileira, que é um mercado emergente.
Na Europa, os índices acionários também subiram na mesma quinta-feira. O índice alemão DAX e o francês CAC 40 cresceram mais de 1%, enquanto o Euro Stoxx 50, principal referência do continente, avançou 1,25%. O dólar também caiu frente a moedas emergentes, como o rand da África do Sul, o peso chileno e o peso mexicano.
Os investidores ainda estão analisando os dados do Produto Interno Bruto dos Estados Unidos do terceiro trimestre de 2025, que registrou um crescimento anualizado de 4,4%, o ritmo mais rápido desde 2023.
O índice PCE, que mede os gastos dos consumidores e representa grande parte da economia dos EUA, cresceu 3,5% no terceiro trimestre. Esse índice é a métrica preferida do Federal Reserve para tomar decisões de política monetária.
Na próxima semana, tanto o Fed quanto o Banco Central do Brasil devem decidir sobre as taxas de juros, sem muitas mudanças esperadas. O Fed deve manter os Fed Funds entre 3,5% e 3,75%, e a Selic deve permanecer em 15%.
