EVELYN AIRES E GABRIELA CECCHIN
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Usuários do programa Gás do Povo têm relatado cobranças adicionais ao retirar botijões em algumas revendas. Pessoas que moram em Ribeirão das Neves (MG), Padre Bernardo (GO), Flores (PE) e Timon (MA) disseram que precisam pagar valores extras para completar o preço do gás, pois o programa não cobre o custo total.
Antes, as famílias recebiam o benefício em dinheiro a cada dois meses pelo Auxílio Gás. Agora, o auxílio é dado por voucher que deve ser trocado por um botijão nas revendas cadastradas.
O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome afirma que a lei proíbe cobranças extras para o benefício. “A recarga do botijão será gratuita para todos os beneficiários”, esclarece o ministério, informando que taxas só valem para serviços adicionais, como entrega ou instalação.
Quando o programa mudou, já havia alertas que o valor fixo do auxílio poderia causar pressão nos preços em regiões onde o gás é mais caro.
José Luiz Rocha, presidente da Abragás, diz que o valor pago pelo governo em alguns estados é menor que o preço praticado, o que desmotiva revendas a participar.
“Avisamos ao governo que os valores devem seguir, no mínimo, os preços regionais da ANP. Em alguns lugares, o valor ficou abaixo do custo, fazendo com que revendedores desistam do projeto”, afirma.
No Amazonas, essa diferença chega a quase R$ 30 no botijão de 13 quilos, e em São Paulo é perto de R$ 16.
Rocha alerta que se o governo não atualizar os valores conforme o mercado, muitas revendas podem sair do programa para evitar prejuízo.
Nem todos os municípios têm revendas cadastradas
Em 1.290 cidades brasileiras não há revendas credenciadas para o Gás do Povo, segundo a Caixa Econômica Federal. Mesmo sem pontos locais, todos os municípios possuem beneficiários do programa.
A regra exige que distribuidoras com 10% ou mais de participação no estado garantam o acesso ao gás. Uma moradora do sertão de Pernambuco contou que precisa viajar 60 km para encontrar uma revenda autorizada.
O governo garante que o programa cobre todo o território nacional e que novas revendas são incorporadas o tempo todo. Hoje, há mais de 20 mil revendas registradas, o que é cerca de um terço do setor.
Se não houver revendas no município, a distribuidora deve garantir o benefício de alguma forma, e o beneficiário pode ter que buscar o gás na cidade mais próxima.
O Sindigás também afirma que locais sem revendas são atendidos por pontos alternativos e rotas criadas junto ao governo.
Os estados com mais municípios sem revendas são Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Tocantins. A cidade com mais beneficiários sem revenda registrada é Belém (AL), com 27.423 pessoas.
Grandes centros como São Paulo, Salvador e Brasília têm mais revendas. Brasília é a cidade com mais beneficiários por revenda, seguida por Belo Horizonte, Belém (PA) e Salvador.
Guerra no Irã pode impactar preços do gás
O conflito no Irã pode influenciar os preços do GLP caso se prolongue, afetando a logística no estreito de Hormuz, por onde passa até 30% do petróleo mundial.
José Luiz Rocha comenta que pode haver alta no preço se o conflito durar, devido a problemas logísticos e falta de vasilhames.
Sergio Bandeira de Mello, do Sindigás, diz que ainda não é possível prever impactos concretos.
O preço médio do botijão no Brasil é de R$ 109,91, com estabilidade nas últimas semanas.
Como acessar o Gás do Povo
O beneficiário pode verificar seu direito pelo aplicativo “Meu Social – Gás do Povo”, onde também é possível consultar o vale e localizar revendas.
A retirada do gás é feita na revenda, com validação via cartão do Bolsa Família, cartão de débito da Caixa ou CPF com código enviado por SMS. Quem não tem internet pode usar cartões físicos ou informar o CPF diretamente na revenda.
É preciso estar inscrito no Cadastro Único, ter renda familiar de até meio salário mínimo por pessoa, e dados atualizados nos últimos dois anos. O programa prioriza beneficiários do Bolsa Família.
O programa começou em novembro de 2025 em dez capitais, expandiu em janeiro de 2026 para 17 cidades e, em fevereiro, atingiu todo o país.
Com nova expansão em março, cerca de 15 milhões de famílias são atendidas, e 9,4 milhões recebem o benefício mensalmente, com investimento de R$ 957,2 milhões. A política prioriza famílias de baixa renda, principalmente as chefiadas por mulheres.

