PEDRO S. TEIXEIRA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
O Banco Master, antes conhecido como Máxima, realizou transferências cambiais no valor de US$ 531 bilhões para uma empresa que está sendo investigada por suspeita de lavar dinheiro para o grupo criminoso PCC e o grupo terrorista Hezbollah. Esse valor corresponde a cerca de R$ 2,8 bilhões na cotação atual.
A Polícia Federal está investigando a One World Services (OWS), uma empresa brasileira que vende criptoativos de forma direta, sem usar intermediários tradicionais como a Binance e o Mercado Bitcoin. A OWS comprou bitcoins para pessoas condenadas por lavagem de dinheiro para organizações criminosas, utilizando contas no Banco Master sem fornecer a documentação exigida pelo Banco Central na época, conforme relatório da polícia.
Essas operações ocorreram entre dezembro de 2018 e abril de 2021, período em que os serviços cambiais ganharam importância para o então Banco Máxima antes das mudanças no nome e na estratégia da instituição. Daniel Vorcaro ingressou na Máxima em 2017 e assumiu o controle em 2018, com aprovação do Banco Central em agosto de 2019.
Segundo a Polícia Federal, as oito instituições investigadas, incluindo o Master, ignoraram de forma deliberada o perfil estranho de seus clientes, incompatível com os valores movimentados. Na Operação Colossus, iniciada em 2022 e com desdobramentos previstos para 2024 e 2025, as autoridades monitoram movimentações de cerca de R$ 60 bilhões, sendo R$ 8 bilhões em operações de câmbio.
Em relação ao Master, foram feitas 331 operações para justificar o aumento de capital de uma offshore da OWS em Miami. Na época, cada operação precisava ser acompanhada de uma ata comprovando o aumento de capital, mas a instituição entregou apenas 15 atas às autoridades. Além disso, o Banco Central considerou a finalidade declarada inadequada, reduzindo o recolhimento de impostos, já que operações de aumento de capital pagavam IOF de 0,38%, enquanto compras de ativos no exterior pagavam 1,1%.
As atas apresentavam sinais de fraude, com documentos repetidos no mesmo dia ou em dias consecutivos, alguns digitalizados com poucos minutos de diferença, conforme o relatório policial.
A Polícia Federal repassou as informações ao Banco Central, que abriu uma investigação administrativa. O Master declarou que chegou a um acordo com o Banco Central que encerrou o caso, sem reconhecer irregularidades, mas não divulgou o valor da multa paga.
Em 31 de dezembro de 2022, o Banco Central eliminou a necessidade de documentação para justificar operações de câmbio internacionais, simplificando o processo. Essa regra era usada pela Polícia Federal para apontar irregularidades e sua revogação foi usada para justificar o acordo firmado.
A OWS é controlada pelo empresário José Eduardo Froes Junior e seus irmãos Adriano e Renato. Esse tipo de empresa é chamado de OTC, que comercializa criptoativos sem intermediários tradicionais, com menos regulamentação.
A investigação mostra que a OWS fez diversas compras de criptoativos para empresas ligadas a atividades terroristas e tráfico internacional de drogas.
Entre esses casos está o corretor de criptoativos Dante Felipini, apelidado de “criptoboy”, que enviou mais de R$ 700 milhões para a OWS. Condenado a 17 anos em 2025 por lavagem de dinheiro e associação criminosa, Felipini teria comprado bitcoins para uma pessoa usada como laranja por uma liderança do PCC.
Mensagens do WhatsApp de Felipini, interceptadas pelas autoridades, indicam que sua empresa, Makes Exchange Serviços Digitais Ltda, enviou recursos para carteiras de criptomoedas sancionadas pelo governo de Israel por ligação com o Hezbollah.
A defesa de Felipini afirmou que a acusação por financiamento ao terrorismo foi derrubada pela Justiça, e que as demais acusações ainda estão sendo analisadas para esclarecimentos judiciais.
Felipini foi preso em janeiro de 2024 ao tentar embarcar para Dubai. Ele morava nos Emirados Árabes Unidos desde 2022 e possuía uma offshore autorizada no país para vender criptoativos.
A Polícia Federal relata que pelo menos sete outras empresas suspeitas movimentaram milhões com a OWS.
A reportagem tentou contato com Froes Junior, CEO da OWS, que mora na África do Sul, mas não obteve resposta.
O juiz federal Diego Paes Moreira negou pedidos de prisão e bloqueio de bens contra Froes Junior, alegando que não há prova de que ele tinha conhecimento claro da origem ilícita dos recursos.
Na época das operações, havia resistência de bancos em lidar com criptomoedas. Poucos, como os citados na investigação, eram parceiros do mercado de criptoativos.
Os documentos mostram que bancos como Topázio e MS Bank encerraram relações com a OWS após consultar o Banco Central por falta de documentação adequada. O banco suíço UBS recusou abrir conta para Froes Junior por não aceitar recursos de criptoativos.
Desde o final do ano passado, operações de câmbio envolvendo criptoativos passaram a ser regulamentadas pelo Banco Central e precisam ser reportadas conforme regras aplicadas para outras casas de câmbio.
