DIEGO FELIX
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Firmas de auditoria responsáveis por revisar as contas de fundos vinculados ao Banco Master identificaram, desde 2019, várias dificuldades na obtenção de documentos essenciais, sugerindo possíveis irregularidades.
Os relatórios dessas auditorias, que avaliam a confiabilidade das informações financeiras dos fundos, destacaram a falta de comprovação dos valores investidos e a ausência de detalhes sobre outros fundos dentro das carteiras analisadas.
O Banco Central identificou uma rede de fundos suspeitos de participação em um esquema fraudulento associado ao Master, que também está sendo investigado na Operação Carbono Oculto, a qual apura a entrada do PCC no mercado financeiro.
A Folha examinou os relatórios de cinco dos seis fundos indicados pelo Banco Central como ligados ao Master: Hans 95, Maia 95, Olaf 95, Astralo 95 e Reag Growth. O fundo Anna não apresentou balanço auditado.
O fundo Arleen, embora relacionado, não está sob investigação formal.
Nos documentos mais recentes da CVM, os auditores optaram por não opinar ou emitiram pareceres com ressalvas, indicando dificuldades para obter informações confiáveis.
O fundo Hans 95, auditado pela Next Auditores de 2019 a 2021, apresentou problemas persistentes, culminando em um relatório que apontou 13 irregularidades na carteira, incluindo cotas sem comprovação e ativos avaliados sem evidências adequadas.
O Hans 95 é o maior fundo sob suspeita, com mais de R$ 34,9 bilhões em ativos.
A Next Auditores afirmou que, devido à confidencialidade e à independência, não comenta trabalhos específicos, mas destaca que limitações no acesso a informações são tratadas conforme as normas profissionais.
Em 2024, a YPC Auditun relatou à CVM que o Olaf 95, com R$ 19,4 bilhões em ativos, apresentava inconsistências, especialmente por alocar 97% dos recursos no Hans 95, que não é auditado.
As operações entre fundos parecem ter sido usadas para camuflar empréstimos do Master a empresas que desviavam dinheiro, com ativos sobrevalorizados circulando entre os fundos. As autoridades suspeitam que os beneficiários finais sejam pessoas ligadas a Daniel Vorcaro.
A defesa de Daniel Vorcaro e do Banco Master optou por não comentar.
O fundo Arleen, atualmente em liquidação, apresentou várias irregularidades identificadas pela Next Auditores entre 2022 e 2025, incluindo falta de documentos essenciais como registros societários atualizados e laudos de avaliação.
Embora não investigado formalmente, o Arleen está sob vigilância por sua conexão com fundos relacionados a Vorcaro e sócios do Master, e tinha investimentos em empreendimentos ligados a familiares do ministro Dias Toffoli do STF.
A Reag, empresa que administra estes fundos via suas divisões Reag Trust Administradora e Reag Distribuidora de Títulos, está sendo investigada por lavagem de dinheiro ligada ao PCC, e entrou em liquidação pelo Banco Central.
A Reag também atua como gestora e, em certos casos, como custodiante dos fundos. A companhia não se manifestou.
Fiscalização
A CVM fiscaliza o mercado de fundos de investimento, analisando relatórios de auditoria e exigindo esclarecimentos dos administradores.
Quando irregularidades são confirmadas, podem ser aplicadas sanções que incluem troca de administradores, suspensão de captação e liquidação dos fundos.
O órgão enfrenta limitações de pessoal para investigar todo o mercado, dependendo frequentemente de denúncias para iniciar apurações, segundo o advogado Guilherme Champs, especialista em mercado de capitais.
A CVM informou que acompanha as movimentações do mercado e moderniza suas regras e supervisão conforme necessidades.
Destacou também que os fundos devem obedecer à Resolução CVM 175 e que os auditores têm que seguir normas técnicas e profissionais determinadas pelo Conselho Federal de Contabilidade e pela CVM.
A WNT Gestora de Recursos, outra gestora envolvida, confirmou que deixou a administração dos fundos em 2024 e não mantém relações societárias com os envolvidos nas investigações.
