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domingo, 04/01/2026

Ataques de Trump revelam novo jogo geopolítico na América Latina

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As ofensivas dos Estados Unidos na América Latina ganharam novo impulso durante o segundo mandato de Donald Trump, mantendo uma estratégia histórica: assegurar a supremacia dos EUA em sua área de influência.

Embora Trump use táticas mais diretas de pressão, essa abordagem não é recente. Desde a Doutrina Monroe e o Corolário Roosevelt, a política americana na região visa proteger seus interesses estratégicos, limitar a influência de outras potências e controlar a autonomia dos países locais.

No início de dezembro, Trump elevou a retórica ao afirmar que países ligados à produção ou venda de drogas ao mercado dos EUA poderiam ser alvo de ações militares. Essa afirmação intensificou suas ameaças sob o pretexto de combater o “narcoterrorismo”. “Quem quer que produza e venda drogas ao nosso país estará sujeito a ataques, não só a Venezuela”, declarou.

Essa ameaça se concretizou em 3 de janeiro de 2025, quando os EUA bombardearam a Venezuela e capturaram o presidente Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores. Ambos foram acusados por um tribunal em Nova York por crimes relacionados ao tráfico internacional de drogas, embora as evidências ainda não sejam claras.

Corolário Roosevelt e Doutrina Monroe

O Corolário Roosevelt, criado em 1904 como extensão da Doutrina Monroe, modificou a política americana ao legitimar intervenções diretas na América Latina. Se a Doutrina Monroe, de 1823, queria afastar a presença europeia, o corolário colocou os EUA como a principal força intervencionista.

Os EUA passaram a se considerar a “polícia internacional” autorizada a agir militarmente para garantir estabilidade.

Escalada militar no Caribe

A retórica de confronto acompanha um crescimento significativo da presença militar dos EUA. A missão no Caribe, justificada como combate a cartéis, tem cerca de 15 mil militares, aeronaves de combate e navios, incluindo o porta-aviões USS Gerald Ford, o maior do mundo.

Desde setembro, as forças americanas destruíram mais de 24 embarcações ligadas ao tráfico, com mais de cem mortes decorrentes dos bombardeios. No entanto, as provas do vínculo dos barcos ao tráfico não foram divulgadas.

Essas ações ocorrem junto ao esforço de classificar o governo de Nicolás Maduro como patrocinador do narcoterrorismo, acusando-o de abrigar o cartel Los Soles, agora tratado como organização terrorista internacional.

Trump afirmou que a Operação Lança do Sul pode avançar para ataques terrestres. “É muito mais fácil, pois sabemos os trajetos e onde moram”, disse.

Trump decretou o espaço aéreo venezuelano como “fechado” e ordenou bloqueio marítimo ao país. Desde então, três navios petroleiros da Venezuela foram apreendidos na região pelas forças americanas.

Pressão sobre vizinhos e conflito com Petro

A ofensiva dos EUA também mira a Colômbia. Recentemente, Trump acusou o presidente Gustavo Petro de liderar o tráfico de drogas e suspendeu subsídios a Bogotá.

Posteriormente, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, anunciou ataque a uma embarcação colombiana ligada ao ELN.

Petro declarou que Trump planeja um golpe de Estado contra seu governo.

A retomada da retórica militar de Trump deve ser vista historicamente como a reativação da “Guerra contra as Drogas” para justificar novas intervenções e pressões na América Latina.

A narrativa da Casa Branca responsabiliza os países latino-americanos pelo crescimento do consumo de drogas nos EUA, criando argumento moral para ações rígidas na região.

Impactos sobre o Brasil

No centro dessas disputas, o Brasil enfrenta pressões contraditórias: tarifas americanas que foram recuadas e avanço dos interesses dos EUA no mercado digital brasileiro, principalmente das Big Techs.

O governo Lula age com cautela para evitar atritos maiores. Brasília busca evitar retaliações econômicas e monitora o aumento da pressão militar dos EUA sobre Venezuela.

“Embora Lula critique a ameaça do uso da força, evita defender com firmeza a soberania venezuelana”, observa Matheus Marreiro, internacionalista e doutorando em estudos estratégicos pela UFF. “Há temor que escaladas gerem novas tarifas que afetem setores estratégicos do Brasil.”

Doutrina Monroe na era Trump

Movimentos recentes sugerem que Trump busca reviver uma versão atualizada da Doutrina Monroe. Documento da Casa Branca afirma que os EUA impedirão competidores extrarregionais de controlar ativos estratégicos no hemisfério ocidental.

Especialistas veem esse esforço como uma tentativa de Trump recompor a hegemonia dos EUA diante de desgaste interno e externo.

O historiador Victor Missiato, do Mackenzie Tamboré, explica que o discurso antidrogas esconde o objetivo maior de restaurar o domínio estratégico americano.

“O governo Trump quer retomar o controle regional, num mundo dividido em zonas de influência — Rússia na Ucrânia, China em Taiwan, e os EUA buscando proteger sua vizinhança, onde a China crescia. A operação na Venezuela e o apoio à Argentina fazem parte desse redesenho.”

Missiato destaca que a América Latina virou um tabuleiro geopolítico para Washington compensar tensões globais.

Crimes de guerra e cenário em mudança

A ofensiva militar ficou mais grave após denúncia de que o Pentágono ordenou um ataque a náufragos, violando leis internacionais. A investigação no Congresso está em andamento.

Parlamentares democratas classificaram as imagens como alarmantes, enquanto republicanos próximos a Trump defenderam a ação como legítima e necessária.

Combinação de guerra retórica, ações militares e disputa econômica mostra que a América Latina voltou ao centro da geopolítica global, não por escolha, mas pela necessidade dos EUA de reafirmar seu poder num mundo em mudança.

“O foco estratégico do governo Trump continua sendo preservar a hegemonia dos Estados Unidos como principal potência global em todos os aspectos”, conclui Missiato.

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