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terça-feira, 03/02/2026

Ataques a terreiro no Gama durante festa religiosa

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A casa Tenda Espírita Pai Benedito do Congo, situada no Setor Oeste do Gama, tem sofrido ataques motivados por intolerância religiosa praticados por moradores vizinhos do condomínio Império. Em janeiro deste ano, mês que marca o combate nacional à intolerância religiosa, o terreiro foi alvo de dois ataques com o lançamento de pedras, tijolos e pedaços de concreto enquanto ocorria a celebração. O problema começou no ano passado durante as festas de Cosme e Damião e voltou a ocorrer no último final de semana.

De acordo com Anísio Pereira, 23 anos, sucessor e integrante da casa, os incidentes pioram em datas comemorativas religiosas. “No dia 17 de janeiro, quando fazíamos a preparação de ervas e as canções rituais, ouvimos barulhos fortes no telhado. Ao verificar, vimos pedras sendo jogadas do condomínio vizinho”, conta. Dois dias depois, a ocorrência foi registrada na Delegacia Especial de Repressão aos Crimes Raciais, Religiosos ou de Intolerância (Decrin) e na 20ª DP. “Não conseguimos identificar quem jogou as pedras pois a pessoa se escondia atrás dos muros do condomínio”, explica.

Quatorze dias depois, em um sábado à noite, um ataque ainda mais perigoso aconteceu: “Por volta das 21h55, durante a gira, as pedras foram arremessadas perto das pessoas, atingindo onde o público estava”, relata Anísio. Cerca de 60 pessoas participavam do ritual, incluindo crianças, idosos e famílias inteiras. “O terreiro é um local de acolhimento, onde ouvimos e cuidamos espiritualmente. Lá fazemos tratamentos.”

Anísio acredita que a motivação dos ataques é evidente: “No mesmo local do terreiro funcionam salões de festa com música ao vivo, DJs e alto volume. No terreiro, só cantamos e batemos palmas, sem instrumentos. Se fosse barulho, o incômodo seria com os salões. Por isso acredito que são ações de intolerância religiosa. Ano passado, durante Cosme e Damião, nossa eletricidade foi cortada propositalmente pelo condomínio, deixando-nos no escuro por cinco dias, tendo que usar gerador”, enfatiza.

Os frequentadores sentem insegurança, mas Anísio afirma que o terreiro continuará aberto: “Aqui acolhemos, escutamos e orientamos. Atendemos espiritualmente a comunidade e damos apoio a pessoas em sofrimento emocional. Continuamos pela fé, pela ancestralidade e pelo compromisso com a comunidade. Não iremos nos calar.”

Dados e declaração

Este caso no Gama mostra uma situação comum no Brasil. Dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania indicam que, de janeiro de 2025 a janeiro de 2026, foram registradas 2.774 denúncias de intolerância religiosa pelo Disque 100. Segundo a Constituição Federal e a Lei do Racismo (Lei nº 7.716/89), atos discriminatórios ou violentos contra manifestações religiosas são crimes com pena de reclusão de dois a cinco anos e multa, considerados racismo, não passíveis de fiança ou prescrição.

O condomínio Império comunicou que soube dos fatos em 2 de fevereiro de 2026 e vem investigando para esclarecer às autoridades. Até o momento, não houve solicitação policial oficial, porém o condomínio afirma que vai colaborar respeitando a privacidade dos moradores.

A administração também declarou que repudia qualquer forma de discriminação, intolerância ou violência, ressaltando que todas as religiões têm o direito legal de existir, manifestar e exercer suas atividades livremente e com respeito, conforme a legislação brasileira. O condomínio está à disposição das autoridades para ajudar na investigação.

Em defesa da liberdade

A líder comunitária de Samambaia, Mãe Francys de Oyá, condenou os ataques recentes a terreiros e casas religiosas de matriz africana no Distrito Federal. Segundo ela, as agressões vão além de danos materiais, ferindo a liberdade religiosa, a dignidade humana e a história do povo brasileiro. “Terreiros são locais de fé, acolhimento e cuidado espiritual. Atacá-los é negar direitos assegurados pela Constituição Federal e reforçar o ódio, que não deve ser tolerado numa sociedade democrática. Nossa fé não promove violência, mas respeito, equilíbrio, amor ao próximo e conexão com nossos antepassados. Exigimos respeito, justiça e que os responsáveis pelos atos de preconceito sejam punidos”, conclui.

Como denunciar intolerância religiosa?

Casos de intolerância religiosa podem ser denunciados por vários canais oficiais. Um dos principais é o Disque 100, serviço do MDHC, que funciona 24 horas, todos os dias, recebendo denúncias de violação de direitos humanos, inclusive ataques por discriminação religiosa. O serviço aceita denúncias anônimas e também está disponível pela plataforma digital do governo federal.

No Distrito Federal, as denúncias podem ser feitas na Polícia Civil do DF, em qualquer delegacia, ou diretamente à Decrin. O registro pode ser presencial ou pela delegacia eletrônica, recomendando apresentar provas como fotos, vídeos e testemunhos.

Em casos de flagrante, ameaça ou risco à integridade física, a orientação é chamar a Polícia Militar pelo telefone 190. Também é possível denunciar ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, especialmente em casos de reincidência ou omissão das autoridades.

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