JAIRO MARQUES
FOLHAPRESS
Após quase três anos de análise e pedidos de informações, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorizou nesta segunda-feira (5) a primeira fase dos testes clínicos da polilaminina, uma substância que mostrou, em estudos da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) conduzidos pela bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, capacidade de ajudar na recuperação de lesões na medula espinhal.
Agora, o laboratório Cristália, empresa brasileira que apoia a pesquisa, vai selecionar e acompanhar cinco voluntários para receberem o produto. A seleção deve ocorrer provavelmente nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo, segundo a farmacêutica, embora os detalhes ainda não tenham sido divulgados.
Se todas as etapas forem concluídas com sucesso, a polilaminina, que é produzida a partir de uma proteína da placenta, poderá ser fabricada em larga escala. Já há conversas entre a empresa e o Ministério da Saúde para que, em caso de aprovação, o medicamento fique disponível pelo SUS (Sistema Único de Saúde).
Somente poderão participar da fase clínica pessoas com lesão completa na medula, que tenham perdido totalmente a sensibilidade e os movimentos, apresentem paraplegia ou tetraplegia, tenham entre 18 e 72 anos, e que tenham sofrido o trauma há no máximo 72 horas, caracterizado como lesão aguda.
Esta etapa de avaliação, que deve durar pelo menos seis meses, tem como objetivo garantir a segurança do medicamento, que será aplicado diretamente na medula do paciente. Dependendo dos resultados, o estudo poderá avançar para as fases 2 e 3, que testarão a eficácia da polilaminina.
“Estou feliz e aliviada. Agora podemos avançar e obter mais respostas. Temos uma substância muito promissora. Espero que, se tudo der certo, possamos continuar a apresentar bons resultados para que a polilaminina possa chegar a mais pessoas,” disse Tatiana.
No último mês, sete pessoas que sofreram acidentes graves com lesões na medula receberam autorização judicial para usar o medicamento. Três delas, de Espírito Santo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, já passaram pelo procedimento.
Segundo a equipe de pesquisa, todas recuperaram parcialmente a sensibilidade nas pernas. Duas, que receberam o medicamento há mais tempo, conseguem realizar pequenos movimentos.
Outras três pessoas devem receber o medicamento por via judicial nos próximos dias, em Salvador (BA), Caraguatatuba (SP) e Maringá (PR). Nem todas apresentam lesões recentes.
A aplicação em casos crônicos, ou seja, ferimentos antigos e cicatrizados, não está sendo estudada neste momento e não é recomendada pela equipe científica.
A atleta tetraplégica Hawanna Cruz, 27 anos, que participou dos testes com uma lesão antiga, relata que ganhou mais controle do tronco e dos braços.
Lesões completas na medula, onde há o rompimento total, são raras de apresentar alguma melhora documentada.
O presidente da Anvisa, Leandro Safatle, que assumiu o cargo em setembro de 2025, havia declarado que a polilaminina seria uma das prioridades da agência naquele ano.
A fase atual busca avaliar os riscos para os pacientes e definir medidas para minimizá-los, além de avaliar a viabilidade para continuar com os estudos.
Nos testes feitos previamente, não foram observados efeitos colaterais em animais ou nos voluntários humanos. Um dos pacientes daquela época, Bruno Drummond de Freitas, 31 anos, que sofreu tetraplegia, recuperou movimentos após o uso do medicamento e reabilitação intensiva.
