Nas primeiras horas da manhã desta quarta-feira (12/8), a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), por meio da Divisão de Defesa do Consumidor da Coordenação de Repressão aos Crimes contra o Consumidor, a Propriedade Imaterial e a Fraudes (Corf), realizou a Operação Narciso, considerada a maior ação do ano contra o comércio ilegal de anabolizantes e outras substâncias proibidas no Brasil.
A investigação revelou um grupo criminoso que atuava na fabricação caseira, fornecimento de insumos, rotulagem, divulgação e venda de anabolizantes, medicamentos controlados, produtos veterinários e suplementos com ingredientes ocultos. O esquema tinha conexões em oito estados brasileiros, além do Distrito Federal, e ligações com a fabricação clandestina no Paraguai. As ações foram realizadas em Santa Catarina, Acre, São Paulo, Goiás, Rio Grande do Norte, Paraíba e Minas Gerais.
A Justiça expediu 43 mandados de prisão e 64 mandados de busca e apreensão. Também foram bloqueados e sequestrados R$ 32 milhões e quebrou-se o sigilo bancário de 58 investigados. Mais de 20 estabelecimentos comerciais foram fechados, 10 veículos de luxo apreendidos e mais de 30 sites de venda ilegal foram tirados do ar. A organização contava com a participação de nutricionistas, biomédicos, veterinários, personal trainers e influenciadores digitais.
O esquemas e atuação
O delegado Rodrigo Carbone explicou que o centro das atividades criminosas era o chamado “cozimento”: a fabricação artesanal de substâncias injetáveis e orais em locais improvisados como quintais e cozinhas, sem qualquer controle sanitário adequado. Para aumentar o rendimento e os lucros, misturavam insumos de países como Índia, China e Paraguai com aditivos como óleo de cozinha e óleos de sementes manipulados sem esterilidade.
Produtos termogênicos e suplementares continham substâncias proibidas que não eram informadas ao consumidor, como clembuterol, sibutramina, fluoxetina, bupropiona e diuréticos. Esses produtos causavam efeitos graves à saúde, incluindo reações alérgicas, infecções, embolias, tromboses e até mortes, como o caso recente de uma fisiculturista em Samambaia. O uso contínuo ainda traz riscos cardiovasculares e impotência sexual.
Estrutura e liderança do grupo
- Roberto Carlos Pereira de Carvalho, conhecido como Jiraiya, era apontado como um dos maiores traficantes de anabolizantes do país, dono de laboratórios clandestinos em vários estados e no Paraguai. Faturava cerca de R$ 500 mil líquidos por mês e patrocinava profissionais e atletas para divulgação dos produtos.
- André Luiz de Amorim Junqueira comandava a produção do produto “Yellow B” e dominava as técnicas de fabricação artesanal nos laboratórios underground. Também atuava na lavagem de dinheiro utilizando casas de apostas on-line. Ostentava luxo em seu condomínio e veículos.
- Ana Luiza de Nazaré Lima e Alam Manoel Lima eram influenciadores digitais que promoviam e gerenciavam a venda do “Yellow B” e produtos à base de testosterona, usando as redes sociais para atrair clientes com promessas falsas de emagrecimento rápido.
- Eduardo Vieira Euzébio, biomédico e proprietário de clínica estética, atuava como intermediário e aplicava os anabolizantes, mesmo sabendo da origem ilegal.
- Elisangela Pereira Acosta e Jorge Luiz Roa forneciam insumos importados clandestinamente do Paraguai, ocultando as substâncias em peças mecânicas para envio por correios e e-commerce. Jorge foi preso em operação conjunta no Paraguai.
Métodos para ocultar o dinheiro
O esquema usava diversas estratégias para disfarçar a origem do dinheiro ilegal, entre elas:
- Transferências fracionadas via Pix para contas em casas de apostas on-line, totalizando cerca de R$ 4 milhões lavados.
- Empresas de fachada e contas de “laranjas” no Brasil para ocultar depósitos.
- Fachadas comerciais, como restaurantes e lojas de suplementos, utilizadas como pontos de estocagem e venda, conferindo aparência legal aos produtos ilegais.
Rotas e alcance internacional
A origem das matérias-primas era importada principalmente da China, Índia e Paraguai. Em Foz do Iguaçu, a dupla Elisangela Acosta e Jorge Luiz Roa ocultava insumos para envio ao Brasil contornando a fiscalização. O líder Jiraiya controlava suas operações a partir do Paraguai, mantendo vida luxuosa no exterior.
O grupo utilizava de patrocínio a atletas e influenciadores digitais para promover os produtos clandestinos, que não revelavam os perigos à saúde dos usuários.
Conclusão
A operação Narciso evidencia a dimensão e periculosidade do comércio ilegal de anabolizantes no Brasil, mostrando como seus efeitos vão muito além de um mercado clandestino, colocando em risco a vida de consumidores e envolvendo uma rede complexa de criminosos que atuam com alto nível de organização e sofisticação.
