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sábado, 17/01/2026

Alunos do Rio e Recife destacam criatividade para nota mil no Enem

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GUSTAVO GONÇALVES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

“Sapere aude” (ouse saber). É com essa frase de Immanuel Kant que Caio Braga, 18 anos, resume sua forma de estudar. Sem seguir um horário fixo, ele conseguiu nota máxima na redação do Enem 2025, um objetivo de muitos candidatos. Ele explicou que seu método foi transformar o ato de ensinar em preparação para a prova.

Em 2025, Caio estudou ciência da computação na UFPE e, ao mesmo tempo, ajudava estudantes no Colégio Núcleo, em Recife, onde fez o ensino médio. Assim, sempre esteve em contato com o conteúdo do exame: “Eu estava sempre vivendo isso, pois trabalhava todos os dias com alunos”, disse.

O resultado saiu na sexta-feira (16), quando o Inep divulgou as notas do Enem 2025. A reportagem conversou com três estudantes que alcançaram a pontuação máxima na redação, sendo dois de Recife e uma do Rio de Janeiro. Cerca de 3,3 milhões fizeram as provas no último ano.

Na redação, Caio dedicou de cinco a dez minutos para planejar o texto antes de começar a escrever. O tema era “Perspectivas sobre o envelhecimento na sociedade brasileira”. Ele usou o livro “O Caraíba”, do escritor indígena Daniel Munduruku, para falar sobre o respeito aos idosos entre povos indígenas; mencionou a Lei dos Sexagenários, de 1885, para discutir o envelhecimento na época da escravidão no Brasil; e citou o filme “Vitória”, com Fernanda Montenegro, para mostrar a idosa como protagonista ativa da própria vida.

Caio destacou: “Consegui juntar três aspectos diferentes da cultura brasileira de um jeito que conversavam entre si e apresentavam ideias variadas dentro do tema”. Antes de tirar nota mil, sua maior pontuação foi 920 no Enem 2024, o que garantiu sua vaga na UFPE. Ele afirmou que se sentiu mais tranquilo porque já estava na universidade, o que ajudou na nota máxima.

Caio vem de uma família ligada à educação. Sua mãe e duas avós foram professoras. “Dar aula é uma virtude e um privilégio. É uma das formas em que a gente mais aprende, porque precisa saber ensinar”, disse.

Como monitor, Caio critica o uso de modelos prontos para redação, pois acha que isso prejudica o pensamento. Para ele, a preparação deve focar na leitura, compreensão do texto e no domínio da linguagem. “Quem usa modelo pronto perde a chance de pensar e entender profundamente”, afirmou.

Outro pernambucano com nota mil é Wellington Ribeiro, 19 anos. Quando o Inep divulgou os resultados à madrugada, ele acordou a família toda para comemorar: “Foi cansativo, mas incrível”, resumiu.

Wellington usou várias referências na redação, como o conto “Feliz Aniversário”, de Clarice Lispector; a Lei dos Sexagenários; e o pensamento do sociólogo Ruy Braga, para criticar a falta de políticas eficientes para o envelhecimento no Brasil.

Ele não seguiu métodos milagrosos, mas destacou a importância da constância. Fazia simulados toda semana para treinar tempo e conteúdo. “Entender que redação é um processo significa aceitar erros, ter paciência e persistência. Acreditar no processo facilita tudo”, disse. Agora, sonha em cursar Direito na UFPE.

A família foi fundamental na conquista. O pai, que tem o mesmo nome, compartilha a paixão pela escrita e mantém um blog sobre política. “Acho que esse dom veio dele. Ele sempre gostou de escrever e argumentar, e eu herdei isso”, contou Wellington.

Além da influência familiar, o apoio da professora Fernanda Pessoa, que o acompanha há três anos, foi decisivo. “Ela ensina mais que redação, ensina a crescer como pessoa. Com ela, aprendemos literatura de verdade”, disse o estudante.

Uma hora após Wellington, a carioca Maria Clara Cunha, 18, confirmou a nota máxima. Por volta da 1h, enquanto conversava com o namorado, viu o resultado e não acreditou: “Pensei que a nota ia desaparecer, olhei dezenas de vezes o mil”, contou, rindo.

Aluna do Colégio e Curso pH, no Rio, Maria enfrentou um ano difícil, com diagnóstico de TDAH e adaptação na rotina de estudos. “Antes, minha rotina era confusa. Com o diagnóstico, entendi o que funciona pra mim. Descobri que estudar 12 horas direto não dá; preciso de pausas, café, conversar com amigas”, explicou.

Ela não gostou do tema da redação no começo, pois fugia do padrão que treinava. Mas encontrou um jeito original de abordar: juntou o filme de terror “A Substância” com o contexto histórico do Segundo Reinado, mencionando os retratos envelhecidos de Dom Pedro II como símbolo de sabedoria.

Maria explicou: “As pessoas têm medo de envelhecer. Por que ser idoso é visto como algo ruim? Usei o filme para falar desse medo e da pressão pela aparência”.

Além das referências culturais, ela criticou o modo como o capitalismo vê o idoso como inútil por não acompanhar o ritmo do mercado.

A nota mil veio depois da aprovação que mais queria: uma vaga em Direito na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). “Escolhi esse curso por vontade própria. Sempre gostei da forma como o Direito trabalha a argumentação e o raciocínio lógico”, afirmou.

Maria defende a escrita livre e rejeita modelos prontos. “Nunca gostei do jeito engessado. Formatinho limita quem quer escrever bem. Escrever tem que ser fluido, como um livro ou jornal. Você precisa pensar fora da caixa”, disse.

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