PAULO SALDAÑA, NATÁLIA SANTOS E VITOR ANTONIO
BRASÍLIA, DF, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Alunos que estudam medicina em cursos particulares, mesmo tendo melhor condição financeira, foram menos bem avaliados que os estudantes da rede pública na maioria das questões do Enamed, avaliação feita pelo Ministério da Educação.
Essa diferença aconteceu em 85 das 90 perguntas válidas do exame, o que representa 94% da prova, de acordo com análise dos dados feita pela Folha de S.Paulo. Nas demais perguntas, não houve diferença significativa.
O resultado do Enamed foi divulgado em janeiro. Dos 107 cursos que obtiveram notas consideradas baixas (1 e 2), 87 são de instituições privadas, com mensalidades que podem chegar a R$ 17 mil. No total, 350 cursos tiveram seus resultados divulgados.
Estudos indicam que fatores socioeconômicos influenciam o sucesso acadêmico: quanto maior a renda e a educação dos pais, melhor o desempenho dos estudantes. Essa relação já foi comprovada em outros exames federais, como o Enade.
O setor privado frequentemente usa essa explicação para justificar seus resultados inferiores, mas o comportamento registrado no Enamed apresenta um cenário diferente.
Mais de um terço dos alunos de medicina privados têm renda familiar acima de seis salários mínimos, enquanto apenas 19% dos alunos das universidades públicas têm essa condição.
Em relação à escolaridade, 36% dos estudantes de medicina particular têm mães com ensino superior, contra 31% na rede pública. Esses dados consideram todos os estudantes aptos para realizar a prova, não somente aqueles com desempenho avaliado para as notas.
Também há diferenciação racial: 27% dos alunos privados se declaram pretos ou pardos, enquanto essa cifra é de 37% nas instituições públicas, que adotam cotas para ingresso.
O desempenho inferior dos alunos dos cursos privados, mesmo com melhor perfil socioeconômico, evidencia problemas de qualidade na formação oferecida nessas instituições.
Mario Scheffer, professor da USP e coordenador do estudo Demografia Médica no Brasil, afirma que o tipo de escola é mais determinante para o desempenho do que o perfil dos alunos. Ele ainda observa que falta dados individualizados para análises mais precisas.
Ele menciona que cursos com notas mais baixas também têm menos professores com doutorado, maior número de alunos por docente, são instituições recentes e com pouca concorrência para ingresso.
Relatório da Folha de S.Paulo mostrou que faculdades privadas criadas na última década e localizadas em cidades pequenas concentram os piores resultados.
Rodrigo Capelato, economista do Semesp (entidade que representa instituições privadas), explica que a maior quantidade de estudantes nessas instituições impacta os resultados. O exame teve 39 mil participantes, sendo 24,5 mil de cursos privados e 9.800 de públicos. Enquanto 61% dos alunos particulares atingiram desempenho adequado, na rede pública esse índice foi de 81%.
Ele ressalta que o exame avalia apenas um aspecto da qualidade do ensino e que o sistema cresceu rapidamente, o que gera desafios que precisam de supervisão e melhorias.
O exame contou com 100 questões, mas sete foram anuladas e três excluídas da análise estatística. Para esta avaliação, instituições privadas incluem as com e sem fins lucrativos.
A maior diferença entre os alunos privados e públicos apareceu em uma questão sobre insensibilidade androgênica, condição genética em que o corpo não responde aos hormônios masculinos. Nessa questão, 50,4% dos alunos públicos acertaram, enquanto apenas 24,4% dos alunos privados responderam corretamente.
Outra questão com diferença significativa envolvia o luto e a forma correta de abordagem na atenção básica. 72,6% dos alunos públicos marcaram a resposta correta, contra 55,1% dos privados.
A Anup (Associação Nacional das Universidades Particulares) declarou que é prematuro fazer inferências sobre diferenças socioeconômicas baseadas no exame, ressaltando falta de dados sobre o perfil inicial dos alunos.
O MEC classificou os cursos em cinco níveis conforme desempenho, e os que ficaram nas notas 1 e 2 não conseguiram que 60% dos estudantes alcançassem o nível mínimo exigido. Essas instituições podem ser penalizadas.
Além disso, entidades privadas tentaram impedir na Justiça a divulgação dos resultados e questionaram principalmente os cálculos de nota de corte, mas a análise das questões mostra um quadro geral de diferenças no desempenho.
Após os resultados, o MEC suspendeu a abertura de novos cursos de medicina em instituições privadas neste mês.

