JOÃO PERASSOLO
FOLHAPRESS
A indústria têxtil do Brasil está de olho em um acordo comercial novo entre a União Europeia e o Mercosul. Quando esse acordo começar a valer, o algodão feito no Brasil — que é o terceiro maior produtor do mundo — e roupas feitas com esse algodão podem ser vendidas com mais facilidade para a Europa.
Márcio Portocarrero, diretor executivo da Abrapa, que é a associação que reúne os produtores de algodão de vários estados brasileiros, explica que, com a eliminação das tarifas para o algodão prevista no acordo, os países da União Europeia poderão comprar mais tecidos de algodão do Brasil, porque o preço vai ficar mais baixo. Hoje, o imposto para entrar tecido de algodão brasileiro na União Europeia é de 8%, mas o acordo vai eliminar isso aos poucos.
Portocarrero comenta que os europeus podem se interessar em comprar roupas prontas do Brasil, mas que a moda brasileira precisaria se adaptar. O estilo e as tendências teriam que combinar mais com o que os consumidores europeus gostam, para que as roupas sejam aceitas lá.
Um problema para isso acontecer é que o Brasil não tem muitas marcas de moda conhecidas na Europa, com exceção da Havaianas, que é mais focada em calçados. Lojas de departamento famosas na Europa, como Rinascente, na Itália, e Galeries Lafayette, na França, não vendem roupas de estilistas brasileiros, apesar de alguns nomes brasileiros começarem a ser notados.
Outro ponto é que turistas não procuram moda brasileira na Europa, onde as marcas francesas, italianas, britânicas, belgas e japonesas dominam o mercado. Além disso, a isenção de impostos para compradores não residentes na Europa torna as compras de marcas europeias ainda mais atrativas.
Portocarrero destaca que os europeus têm um grande diferencial: eles possuem design reconhecido e marcas fortes que influenciam o mundo. Esse é um valor difícil de conquistar, criado ao longo de muitos anos. Mas acredita que o Brasil pode entrar nesse mercado com esforço.
Hoje, quando países europeus compram roupas do Brasil, eles pagam um imposto de 12% a 35%. Com o acordo, esses impostos serão eliminados gradualmente, o que pode deixar as roupas europeias mais baratas no Brasil, segundo Fernando Valente Pimentel, diretor da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção. Ele diz que produtos hoje caros poderão ficar competitivos.
Pimentel prevê que serão necessários cerca de oito anos para que o acordo tenha efeito prático para os dois lados. O Mercosul vai eliminar tarifas sobre 91% das exportações para a União Europeia em 15 anos, e a UE vai eliminar as tarifas sobre 92% das exportações para o Mercosul em 10 anos.
O acordo é importante porque a União Europeia é um mercado grande e com alta renda, e o Mercosul estava mais focado em países próximos antes. Mesmo assim, Pimentel lembra que o acordo não garante sozinho que os produtos brasileiros serão vendidos na Europa. É necessário que os empresários se interessem mais, e que o Brasil continue avançando em reformas para reduzir custos e aumentar a competitividade.
