As cores das penas, pinturas e artesanatos dos povos indígenas já estão presentes em Brasília. Representantes dos povos indígenas de todas as regiões do Brasil chegaram à capital federal para participar do Acampamento Terra Livre, que inicia nesta segunda-feira e vai até a sexta-feira.
O evento, que acontece todo ano, é organizado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e suas organizações locais. Este ano, o tema é “Nosso futuro não está à venda – a resposta somos nós”, protestando contra grandes projetos que ameaçam os ambientes naturais, como estradas e mineração.
Além disso, a questão das eleições, com candidaturas indígenas e o apoio a políticos aliados, será discutida em reuniões. O movimento enfrenta dificuldades no Congresso, especialmente com a presença da bancada ruralista, que tenta incluir o marco temporal na Constituição.
O marco temporal estabelece que os indígenas só podem reivindicar as terras que ocupavam em 1988. Embora essa regra tenha sido derrubada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), deputados e senadores tentam transformá-la em lei.
Segundo Kleber Karipuna, coordenador da Apib, as organizações indígenas seguem lutando contra essa proposta e outras em tramitação no Congresso, reafirmando a posição do STF sobre a inconstitucionalidade do marco temporal.
Karipuna afirmou que o acampamento reúne as demandas locais e coletivas dos povos indígenas, e que vão continuar a agir juridicamente, politicamente e com mobilizações para garantir os direitos indígenas.
O primeiro dia do evento será dedicado à apresentação das delegações e à escuta das demandas. O segundo dia terá uma marcha até o Congresso Nacional. No terceiro dia, ocorrerão debates em plenária sobre os territórios. O quarto dia terá outra caminhada e o último dia será dedicado à publicação de um manifesto.
À noite, serão realizados eventos culturais que destacam a diversidade dos povos indígenas, com shows, desfiles e apresentações de dança.
A expectativa da Apib é reunir cerca de 8.000 indígenas, como nas últimas edições. O acampamento acontece no Eixo Cultural Ibero-americano, localizado próximo aos prédios dos três Poderes.
Ewésh Yawalapiti Waurá, presidente da Associação da Terra Indígena Xingu (Atix), destaca a proteção dos territórios como uma prioridade, especialmente devido às invasões causadas pelo agronegócio, pesca ilegal e desmatamento no Xingu.
Ele ressaltou que o acampamento é mais que um evento, é uma ferramenta política importante para que as lideranças indígenas falem diretamente com o Congresso, o STF e o governo.
Ewésh Yawalapiti Waurá também destacou que as mudanças climáticas serão um tema importante no debate, pois os povos indígenas e seus territórios sofrem impactos diversos, como seca, incêndios e alteração dos rios.
Ele citou a necessidade de discutir financiamento climático justo e outras soluções para a crise ambiental.
A comunidade Waurá enfrenta o risco de perder uma prática ancestral devido às mudanças climáticas: a produção de cerâmicas feitas com cauxi, uma esponja de água doce que tem se tornado escassa com a seca dos rios.
Indígenas de outros países também participam do evento, unindo forças em pautas comuns, principalmente sobre a Amazônia e o financiamento climático para as populações mais vulneráveis.
O Acampamento Terra Livre comemora 21 anos de existência, organizado por diversas articulações e coordenações de povos indígenas do Brasil.

