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Economia

2 milhões trabalham por apps no Brasil, têm jornada maior e pagam menos INSS

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

LEONARDO VIECELI
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS)

Em 2025, cerca de 2 milhões de brasileiros usavam aplicativos para trabalhar, seja como atividade principal ou secundária, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Esses trabalhadores englobam motoristas, entregadores e outros profissionais registrados em plataformas como Uber, 99 e iFood, que se popularizaram nos últimos anos.

Mais da metade trabalha no transporte particular de passageiros que não seja táxi (1,1 milhão ou 53,9%). Em seguida, vêm os entregadores de comida e outros produtos (585 mil ou 29,9%), profissionais de serviços gerais (313 mil ou 16%) e taxistas (232 mil ou 11,8%). Alguns podem exercer mais de uma função.

Os dados vêm da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), que também avaliou os anos de 2022 e 2024.

Trabalhadores por aplicativos têm jornadas semanais mais longas do que outros profissionais e contribuem menos para o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).

O IBGE destaca que, apesar de os apps criarem renda, oportunidades e redução de custos para empresas, eles trazem desafios em relação às condições de trabalho.

Alta de quase 37% no trabalho principal

De 2 milhões, 1,8 milhão utilizavam apps para o trabalho principal (92,1%), número que cresceu 36,8% desde 2022, quando eram 1,3 milhão. Esse aumento é equivalente à capacidade de mais de seis estádios do Maracanã (78,8 mil lugares cada).

Além disso, 182 mil usavam apps para trabalho secundário, complementando renda de outra ocupação, e 28 mil atuavam nas duas modalidades em 2025.

Esta foi a primeira vez que a Pnad avaliou o trabalho secundário, dificultando comparações com anos anteriores nessa categoria.

Os 2 milhões representam 1,9% dos trabalhadores brasileiros com 14 anos ou mais, sendo o Sudeste a região com maior proporção (2,4%) e Sul e Norte com menor (1,4%).

Esse número supera a população de Curitiba (1,8 milhão), a oitava cidade mais populosa do país.

Jornada maior e contribuição menor para INSS

Em média, quem trabalha com apps tem jornada semanal de 44,7 horas em 2025, 5,4 horas a mais que a média dos empregados no setor privado (39,3 horas).

A contribuição para o INSS entre trabalhadores de apps é de apenas 34%, quase metade da taxa do setor privado não plataformizado (63%). A pesquisa não considera previdência privada.

A informalidade é alta, atingindo 72,1% dos trabalhadores por apps, contra 42,7% fora das plataformas.

Entre motociclistas, só 19,4% contribuem para o INSS, comparado a 37,1% dos que não usam apps. No caso de motoristas de carro, apenas 25,5% dos vinculados a apps têm cobertura previdenciária, ante 59,2% fora das plataformas.

O IBGE ressalta que poucos desses profissionais têm proteção social, apesar dos riscos de acidentes e outras situações.

Renda por hora menor

A média por hora de quem trabalha por apps é R$ 16,20 em 2025, 12% menos que os R$ 18,40 da média do setor privado não plataformizado. A diferença maior está entre quem tem ensino superior completo, com os plataformizados ganhando 25,3% menos (R$ 27,70 contra R$ 37,10 por hora).

Já entre quem tem menos estudo, a renda dos trabalhadores por apps é 11,5% maior que a dos outros (R$ 12,60 versus R$ 11,30 por hora).

Rendimento mensal estável

A renda mensal média dos trabalhadores que usam apps como profissão principal foi de R$ 3.147 em 2025, praticamente igual à dos demais trabalhadores do setor privado (R$ 3.148).

Enquanto o rendimento dos trabalhadores fora das plataformas subiu 4,1% em termos reais em relação a 2024, o dos trabalhadores por apps permaneceu estável.

Gustavo Geaquinto Fontes, analista da pesquisa do IBGE, explica que esse cenário pode ser por causa do aumento na oferta de trabalho nessas plataformas.

Motivos para trabalhar por apps

A pesquisa mostra que a flexibilidade é o principal motivo para usar apps como trabalho principal (26,8%), seguido pela falta de outro emprego (24,6%) e maior renda em relação a outras opções (20,8%).

Maioria homens

Os homens representaram 84,4% dos trabalhadores que usam apps como atividade principal em 2025, proporção maior que a dos homens entre trabalhadores fora das plataformas (58,2%).

A faixa etária predominante dos trabalhadores por apps é entre 25 e 39 anos (47%), enquanto entre os profissionais fora dos apps é entre 40 e 59 anos (39,3%).

Mais da metade dos trabalhadores por apps tem ensino médio completo e superior incompleto (62,5%), maior percentual do que o observado entre trabalhadores fora dos apps (45,3%).

Comércio eletrônico

Além dos apps de serviços, 210 mil pessoas vendem produtos em plataformas de comércio eletrônico, majoritariamente mulheres (51,8%). Esses vendedores digitais não estão incluídos nos 2 milhões de trabalhadores de aplicativos de serviços.

O IBGE realizou a pesquisa em parceria com a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e o Ministério Público do Trabalho (MPT).

A coleta dos dados para 2022 ocorreu no quarto trimestre, e para 2024 e 2025 no terceiro trimestre, o que pode influenciar comparações sazonais, segundo o IBGE.

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