JULIA CHAIB
WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) – O governo do ex-presidente Donald Trump e líderes do movimento ultraconservador nos Estados Unidos estão usando o argumento de que o Supremo Tribunal Federal (STF) está sendo usado politicamente para proteger o ex-presidente Jair Bolsonaro e para justificar punições ao ministro Alexandre de Moraes.
Um assessor influente da administração Trump explicou que, para o governo americano, Bolsonaro e seus apoiadores estão sendo atacados por um sistema judiciário que estaria sendo manipulado.
Esse auxiliar acredita que as decisões do ministro Moraes ferem a liberdade de expressão e, além disso, comprometem a democracia para manter o governo do presidente Lula (PT), que consideram impopular.
Steve Bannon, líder do movimento Maga (Faça a América Grande Novamente) e ex-estrategista de Trump, foi mais incisivo e chamou Moraes de “um dos maiores criminosos do mundo”.
Segundo Bannon, o ministro envergonhou o Brasil internacionalmente ao perseguir Bolsonaro em um tribunal que ele considera ilegítimo. Para ele e outros que acompanham o caso, penalidades contra Moraes podem acontecer em breve se o STF não mudar sua postura, o que é improvável.
Essa visão é refletida na postagem que Trump fez em sua rede social Truth Social, defendendo Bolsonaro, reforçando que essa narrativa tem ganhado espaço no governo dos EUA.
O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que mora nos Estados Unidos desde março após tirar licença do mandato, tem transmitido a autoridades americanas que Moraes viola direitos humanos ao censurar pessoas e empresas no país. O ex-comentarista da Jovem Pan Paulo Figueiredo também usou esse discurso em audiência no Congresso americano.
Bannon conhece a família Bolsonaro e foi um dos primeiros a pedir sanções contra Moraes, logo após o STF impedir Bolsonaro de participar da posse de Trump em janeiro.
Mesmo não estando no governo, Bannon tem grande influência e declarou que a mensagem de Trump indica prioridade ao assunto, afirmando que notificou Moraes.
Ele defende que as acusações contra Bolsonaro sejam arquivadas para que ele possa concorrer nas eleições contra Lula, de forma justa e livre.
Bannon, mesmo sem apresentar provas, compartilha a visão de que a eleição de 2022 foi fraudada, encontrando paralelos com a experiência de Trump.
Trump também questionou a legitimidade das eleições de 2020, que resultaram em sua derrota para Joe Biden, evento que levou à invasão do Capitólio por seus apoiadores. Trump enfrentou acusações de tentar subverter o resultado eleitoral e mais de 1.500 apoiadores seus também foram acusados. Bannon chegou a ser preso por não colaborar na investigação sobre o ataque ao Capitólio. Com a vitória de Trump nas eleições de 2024, o procurador do caso desistiu da ação, e o ex-presidente concedeu perdão aos seus apoiadores.
Enquanto Trump pôde concorrer mesmo sob acusações, Bolsonaro está inelegível por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e também é réu no STF, com julgamento previsto para agosto. Para ser candidato, ele precisaria recuperar seus direitos políticos, o que será difícil se for condenado e preso.
Bannon acredita que os Estados Unidos não ficarão passivos se Bolsonaro for preso. Ele compara a situação a ações tomadas contra o líder do Irã, sem detalhar possíveis medidas do presidente.
Bolsonaro é acusado de crimes graves como organização criminosa armada, tentativa de golpe de Estado e danos ao patrimônio público, com possibilidade de pena superior a 40 anos de prisão.
Sanções contra Moraes podem ser baseadas em decisões que atingem empresas americanas, como Rumble e X (antigo Twitter), e aliados de Trump e Bolsonaro nos EUA.
Moraes poderia ter sua entrada nos Estados Unidos proibida e sofrer sanções econômicas, como proibição de possuir bens ou realizar transações financeiras no país.
Para republicanos e democratas americanos, a liberdade de expressão é mais abrangente que no Brasil e garantida pela Constituição dos EUA. Assim, a ordem do STF para apagar publicações que teriam alimentado uma tentativa de golpe não seria aceita nos EUA.
Um relatório do governo americano lista ações contra 14 pessoas, incluindo Jason Miller, ex-assessor presidencial detido no Brasil em investigação sobre fake news, Elon Musk, dono do X, e Chris Pavlovski, CEO do Rumble.
Rumble e Truth Social, rede social do presidente Trump, apresentaram novas informações em um processo contra Moraes em um tribunal federal da Flórida. Moraes já foi intimado para se manifestar, com notificação mais recente nesta semana.

