BRUNO RIBEIRO E JULIANA ARREGUY
FOLHAPRESS
As tarifas mais altas que o governo dos Estados Unidos impôs ao Brasil, anunciadas por Donald Trump, colocaram o governador Tarcísio de Freitas em uma situação difícil. Ele tenta se manter equilibrado entre o apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro e o respeito às instituições democráticas e ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Líderes de partidos, deputados aliados a Tarcísio e membros da sua equipe dizem que sua imagem pode ser prejudicada entre os bolsonaristas se ele não apoiar Trump ou se não tratar as tarifas como consequência de uma suposta perseguição antidemocrática contra Bolsonaro.
Por outro lado, se apoiar as tarifas, pode perder apoio do mercado financeiro, dos agricultores e de eleitores que não são bolsonaristas.
Alguns bolsonaristas de São Paulo esperavam que os Estados Unidos aplicassem sanções apenas contra o ministro do STF, Alexandre de Moraes, não contra todo o Brasil.
As primeiras respostas de Tarcísio seguiram essa ideia, mas tiveram que ser ajustadas diante da desaprovação das tarifas.
No dia 7, quando Trump publicou um texto em defesa de Bolsonaro, Tarcísio rapidamente compartilhou a mensagem, vendo isso como uma vitória do bolsonarismo e criticou indiretamente o STF por julgar processos contra Bolsonaro.
Ele disse: “Jair Bolsonaro deve ser julgado apenas pelos brasileiros nas eleições. Força, presidente”, criticando também o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que condenou Bolsonaro e declarou ele inelegível até 2030 por uso da máquina pública e ataques ao sistema eleitoral.
Em 9 de julho, após o anúncio das tarifas, Tarcísio mudou o foco do STF para criticar o presidente Lula, dizendo que ele “apoia ditaduras, defende censura e ataca o maior investidor direto no Brasil”.
Ele afirmou: “Não adianta se esconder atrás do Bolsonaro”, ignorando que Trump também criticou o Brasil no mesmo comunicado.
Na quinta-feira (10), com a crise ganhando força e a insatisfação do setor empresarial, Tarcísio adotou um tom mais conciliador, falando em “diálogo” e “negociação” durante entrevista em uma obra do metrô em São Paulo.
Sobre o papel do Supremo no caso das tarifas, disse que há “posturas que não combinam com a nossa tradição democrática” e espera que o Brasil resolva o problema das tarifas conversando.
Quando perguntou se ele tentaria influenciar o Supremo para suspender o julgamento de Bolsonaro, como sugerido por Trump, Tarcísio evitou responder diretamente e disse que o foco agora é resolver as tarifas.
Aliados de Tarcísio lembram episódios anteriores, como um vídeo dele usando um boné com a frase “Make America Great Again” para mostrar que tenta agradar o eleitorado bolsonarista, que às vezes acha que ele não é leal a Bolsonaro.
Apesar de ser bem relacionado com ministros do STF, para ser o candidato apoiado por Bolsonaro em 2026, ele precisará ser mais crítico ao Supremo, mostrando ser bolsonarista e também um nome da centro-direita.
No último comício de Bolsonaro, Tarcísio criticou o governo Lula e repetiu o slogan “Fora PT”, mas poupou o STF, que foi duramente atacado nos demais discursos. Isso gerou críticas de pessoas próximas a Bolsonaro.
Embora diga que vai disputar a reeleição ao governo de São Paulo no próximo ano, ele representa uma aliança entre Republicanos, PL, PP, União Brasil, MDB e PSD contra Lula.
Um dirigente partidário comentou que o setor produtivo, que costumava apoiar Tarcísio, pode migrar para Lula para garantir apoio diante das tarifas americanas.
Pouco antes da entrevista de Tarcísio no metrô, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, criticou o governador, dizendo que ele seria um “candidato vassalo” dos Estados Unidos, ao que Tarcísio respondeu para o ministro “falar menos e trabalhar mais”.
Em sua fala com jornalistas, Tarcísio contou que tentou conversar com representantes americanos para tentar reverter as tarifas, mesmo sendo visto como alguém ligado ao bolsonarismo.
Um aliado de Tarcísio disse acreditar que um resultado positivo vai agradar tanto os eleitores fiéis a Bolsonaro quanto a população em geral.

