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sábado, 29/11/2025

Setores impactados por tarifas pedem diálogo e calculam perdas

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FERNANDA BRIGATTI E NICOLA PAMPLONA
BRASÍLIA, DF, E RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – A decisão anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nesta quarta-feira (9), de aplicar uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros a partir de agosto, surpreendeu vários setores da economia brasileira, que defendem a busca de soluções por meio do diálogo diplomático e desejam que o país evite envolvimentos em questões geopolíticas.

Na mensagem em que comunicou a taxação, Trump mencionou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que responde a processo no STF (Supremo Tribunal Federal) por suposta participação em esquema golpista em 2022.

José Augusto de Castro, presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), afirma que a tarifa anunciada não tem base econômica. “É uma das maiores taxas já aplicadas na história do comércio mundial, normalmente direcionada apenas aos maiores adversários, o que não é o caso do Brasil”, declarou.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) também vê a medida como política e prevê impactos graves para o setor industrial. Em comunicado, a entidade pediu o fortalecimento das negociações com a administração Trump para “preservar a importante relação comercial” e ressaltou a necessidade de “uma comunicação positiva entre os países”.

Para José Ricardo Roriz, presidente da Abiplast (Associação Brasileira da Indústria do Plástico), o Brasil perdeu a chance de evitar entrar em disputas comerciais e conflitos. Ele destacou que o impacto do aumento da tarifa afetará vários segmentos da indústria e do agronegócio, pois “quase todo produto industrializado utiliza plástico na embalagem ou na composição”. Com esse nível de tarifa, segundo ele, as exportações tendem a ficar quase inviáveis, principalmente as de maior valor agregado.

Marcos Matos, diretor executivo do Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil), acompanha o caso de perto e informa que está trabalhando junto à National Coffee Association e demais empresas para estabelecer uma agenda positiva diante da taxa. Os Estados Unidos são o maior mercado consumidor mundial de café, e o Brasil responde por cerca de 30% desse mercado.

Matos ressaltou a importância econômica do café para os EUA, com estimativas de que cada dólar gasto em café importado gera 43 dólares localmente, além de sustentar 2,2 milhões de empregos no país. “Esperamos que prevaleça o bom senso e a previsibilidade no mercado, pois quem pagará mais será o consumidor americano, e isso afeta negativamente o comércio e a indústria”, afirmou.

A Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes) declarou que “qualquer aumento de tarifas sobre produtos brasileiros dificulta o comércio internacional e prejudica a cadeia produtiva da carne bovina”. Os EUA são o segundo maior comprador de carne bovina do Brasil, com 12,33% das exportações totais no primeiro semestre, totalizando 181,3 mil toneladas, volume que mais que dobrou em relação ao ano anterior, tornando a proteína brasileira uma alternativa para a escassez de produção local.

A associação pediu que questões políticas não se transformem em barreiras ao abastecimento global e que se mantenha a cooperação e estabilidade entre as nações para garantir a segurança alimentar. Também afirmaram estar disponíveis para dialogar, visando evitar impactos negativos tanto para os produtores brasileiros quanto para os consumidores americanos.

Na indústria têxtil, o presidente da Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil), Fernando Pimentel, comentou que as tarifas de 50% podem excluir o Brasil do mercado americano. Embora os EUA representem apenas 7% das exportações têxteis brasileiras, esses produtos são de alto valor e incluem nichos como a moda praia. O setor vinha crescendo após as tarifas contra a China, com recorde de interesse para participar de feiras nos EUA. Ele alerta que as tarifas prejudicam tanto exportadores atuais quanto futuras oportunidades, além de afetar o mercado interno indiretamente.

Para a indústria de calçados, Haroldo Ferreira, presidente da Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados), disse que a tarifa é um “balde de água fria” para a recuperação do mercado. Os EUA são o principal destino das exportações brasileiras de calçados, tendo recebido no último junho 1 milhão de pares, gerando US$ 20,76 milhões em receita, valores superiores ao mesmo período do ano anterior.

O setor químico, que enfrenta déficit comercial e forte concorrência de produtos americanos, pode ser beneficiado caso o Brasil adote medidas recíprocas às tarifas de 50%. André Cordeiro, presidente da Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química), explicou que o governo americano pode acabar sendo mais prejudicado que o Brasil, mas que espera-se a retomada das negociações, embora reconheça dificuldades pela natureza política da questão.

No ramo do aço, que já sofria tarifas de 50% desde abril, o presidente do Instituto Aço-Brasil, Marco Polo de Mello Lopes, afirmou que a nova tarifa não será acumulada, mas teme que o clima político dificulte a renovação do acordo de cotas para a exportação sem tarifas. Produtos siderúrgicos representam quase 10% das exportações brasileiras para os EUA, sendo esse mercado responsável por cerca de 40% das vendas do setor.

A Frente Parlamentar do Agronegócio (FPA) alertou que o anúncio de Trump representa um sério alerta sobre o equilíbrio das relações comerciais e políticas entre Brasil e Estados Unidos. A FPA, muitas vezes oposição ao Governo Lula (PT), defende que a solução diplomática é a alternativa mais estratégica e chama para uma resposta firme, mas cautelosa, com atuação ativa do Brasil nas negociações.

Outra bancada, a Frente Parlamentar pelo Livre Comércio, afirmou que a tarifa é uma consequência direta das violações à liberdade de expressão, Estado de Direito e segurança jurídica promovidas por autoridades brasileiras.

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