EDUARDO CUCOLO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Um ano depois que o presidente Donald Trump anunciou tarifas de 50% sobre produtos brasileiros em 9 de julho de 2025, a participação dos Estados Unidos nas exportações do Brasil chegou ao ponto mais baixo desde 1997, início das estatísticas comerciais.
A queda foi de 2,7 pontos percentuais no período considerado. Enquanto isso, a China aumentou sua fatia na mesma medida, o que indica que o Brasil começou a buscar outros mercados, tornando-se mais dependente da economia chinesa.
A parcela dos EUA nas exportações brasileiras diminuiu de 12,1% para 9,4% quando se compara o primeiro semestre deste ano com o mesmo período do ano anterior, conforme dados da Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio para o Brasil).
Apesar de os EUA continuarem sendo o segundo maior destino dos produtos brasileiros, a Argentina, em terceiro lugar, também viu sua participação diminuir para 4%.
A China ampliou sua liderança, respondendo por quase um terço das vendas externas, passando de 28,9% para 31,5%. Esse é o maior valor desde 2021, quando atingiu o recorde de 34,5%.
Em termos financeiros, as exportações do Brasil para os EUA somaram US$ 17,4 bilhões no primeiro semestre de 2026, uma redução de 13% em relação ao mesmo período do ano anterior. Isso contrasta com um aumento de 11,5% nas vendas para o mundo, e crescimentos para parceiros importantes, como China (+21,9%) e União Europeia (+12,8%).
O comércio entre Brasil e EUA ainda mostra déficit para o Brasil, contrariando a alegação de Trump de que os brasileiros teriam vantagem comercial. No semestre, as importações dos EUA superaram as exportações brasileiras em US$ 1,5 bilhão (R$ 7,76 bilhões).
Houve queda de 13% nas exportações e nas importações entre os dois países. Ou seja, o Brasil vendeu menos para os EUA e também comprou menos dos americanos. Assim, a participação dos EUA no comércio bilateral caiu para 11,1%, valor mais baixo da série histórica.
Setores ainda impactados pelas tarifas
Segundo o Painel de Medidas Tarifárias dos EUA, divulgado pela ApexBrasil, 25% das exportações brasileiras para os EUA enfrentam tarifas adicionais de 12,5% a 25%. Outros 20% estão sujeitos às regras da Seção 232, que restringem setores estratégicos para a segurança americana, como aço, alumínio, veículos e autopeças.
Os setores mais atingidos são o de couros (14%) e o de revestimentos cerâmicos (18%). Produtos com dependência quase total do mercado norte-americano incluem mel (84%), sebo bovino (96%), filés de tilápia (94%) e madeiras específicas (98%).
Para enfrentar essa situação, a ApexBrasil realizou mais de 80 ações de promoção comercial no ano passado, com 72% das empresas apoiadas conseguindo acessar pelo menos um novo mercado.
ApexBrasil também forneceu treinamentos e consultoria técnica para diversos setores, ajudando-os a preparar defesas e participar de audiências públicas nos EUA.
Nos últimos vinte anos, a dependência do Brasil no mercado americano diminuiu, de 19% em 2005 para 11% em 2025. Atualmente, apenas seis estados brasileiros têm os EUA como principal parceiro comercial, enquanto quatorze estados têm a China nessa posição.
O café não torrado foi um dos maiores prejudicados, com redução de 35% nas vendas no semestre. Embora o café in natura tenha conseguido isenção das tarifas, esforços continuam para incluir o café solúvel na lista de exceções.
Marcos Matos, diretor-geral do Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil), participou das audiências da Seção 301 e está confiante na recuperação das vendas para os EUA, especialmente após uma safra recorde e possibilidade da inclusão do café solúvel na lista de exceções.
Ele também ressaltou o crescimento das exportações de café para a Europa, que subiram de 43% para 54%, com a Alemanha se tornando o principal comprador, superando os EUA.
Impacto nas exportações com tarifas
Jorge de Souza, gerente técnico da Abrafrutas, afirmou que as tarifas forçaram os produtores brasileiros de frutas a buscar novos mercados, mesmo que com custos maiores de transporte, como Índia e países do Sudeste Asiático.
O setor agrícola conseguiu isenção para manga, porém as vendas de uvas ainda estão sujeitas a tarifas elevadas.
De acordo com a Amcham, as exportações de produtos tarifados caíram 20,5% nos 12 meses encerrados em junho deste ano, comparados aos 12 meses anteriores.
Essa análise leva em conta a decisão da Suprema Corte dos EUA de fevereiro, que encerrou sobretaxas extras de 40% e 50%, e as alterações feitas em abril na Seção 232.
Com as tarifas atuais, as adicionais são de 10% (Seção 122) ou até 50% (Seção 232). No semestre, as exportações de produtos tarifados diminuíram 17%, enquanto os produtos sem tarifas caíram 9%.
O cenário comercial bilateral permanece incerto, com possíveis novas tarifas sendo avaliadas em investigações em curso.
Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil, alertou que as novas tarifas podem prejudicar ainda mais as relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos e que é necessário um acordo para evitar essas medidas adicionais.
Medidas tarifárias em vigor
Seção 232 – Tarifas Setoriais
- Vigente
- Justificadas por segurança nacional; afetam ferro, aço, cobre, alumínio, automóveis e autopeças
Seção 122 – Medida Temporária Global
- Ativa até 24/7/26
- Tarifa global adicional de 10% aplicada amplamente nas importações
Seção 301 – Investigação Comercial contra o Brasil
- Em investigação
- Analisa práticas comerciais consideradas injustas ou discriminatórias
Seção 301b – Investigação sobre Trabalho Forçado
- Em investigação
- Abarca todos os países de forma ampla
Fonte: ApexBrasil – Painel de Medidas Tarifárias dos EUA
