Cláudia Collucci
São Paulo, SP (Folhapress)
Crianças e adolescentes hospitalizados por pneumonia estão presentes em quase todos os bairros de São Paulo. Porém, as mortes causadas pela doença são mais frequentes nas áreas pobres e vulneráveis da cidade.
Esse cenário, revelado em estudo publicado na Revista Paulista de Pediatria, indica que fatores relacionados às desigualdades sociais, às condições de moradia e ao ambiente da cidade aumentam o risco de morte mais do que o risco de adoecer.
O estudo analisou os 96 distritos administrativos da capital entre 2010 e 2020. Durante esse período, foram registradas 1.486 mortes e 156.112 internações por pneumonia em crianças e adolescentes com até 19 anos. Em média, houve 4,2 óbitos e 446 internações por 100 mil habitantes por ano. Embora ambos tenham caído na década, a redução não foi igual em toda a cidade.
As internações ocorreram em diversas partes da cidade, inclusive em bairros mais ricos, como Morumbi e Jardim Paulista. Já as mortes ocorreram principalmente na zona leste e no extremo norte.
Segundo William Cabral, coordenador do Núcleo de Geoprocessamento e Ciência de Dados do Instituto Pensi e um dos autores do estudo, a intenção foi comparar onde ocorrem as internações e as mortes.
“Em estudos anteriores, era esperado que as doenças piorassem nas áreas mais afastadas do centro, nas periferias. Queríamos ver se isso também valia para a pneumonia.” Para isso, usaram geoprocessamento para estimar o risco de internação e de morte em cada distrito, considerando o número de crianças e adolescentes.
A análise mostrou que os distritos com pior índice socioeconômico, medido pelo GeoSES — que reúne dados sobre renda, educação, pobreza, mobilidade, segregação social e acesso a recursos — apresentaram um risco de morte por pneumonia cerca de 75% maior do que o esperado. Já os bairros com casas de padrão médio e alto tiveram risco 45% menor.
Além do índice social, a presença de muitas vias rápidas também esteve ligada a maior risco de morte.
Cabral explicou que as vias rápidas foram usadas como um indicador da exposição à poluição. “Foi surpresa encontrar essa relação. Tanto as vias quanto o índice social seguiram ligados ao risco de morte.”
Embora não se possa afirmar que a poluição cause a mortalidade, estudos anteriores mostraram que ela pode agravar doenças respiratórias.
Outro ponto interessante foi que os distritos com melhores condições sociais tiveram mais internações, o que pode indicar que nessas áreas as pessoas usam mais os serviços de saúde.
“Não basta ter acesso ao serviço; é preciso que o acesso seja de qualidade. A hospitalização acontece porque a doença ocorreu. A morte, que é pior, parece depender do atendimento ser bom e oportuno.”
Uma variável ligada à oferta de serviços de saúde foi testada, mas não mostrou relação significativa com a mortalidade.
Esse padrão em São Paulo não parece único. Pesquisa em todo o estado encontrou resultados parecidos ao analisar pneumonia, infecção sanguínea e urinária.
Um estudo do Gaia (Grupo de Análise de Infecções e Antimicrobianos), da Unifesp, identificou regiões com maior morte por essas infecções.
Carlos Kiffer, professor da Unifesp e líder do Gaia, disse que a diferença entre onde ocorre internação e onde ocorrem mortes sugere que adoecer e morrer não têm as mesmas causas.
“Esses resultados indicam que a organização da assistência, o acesso aos serviços e as desigualdades regionais podem influenciar a sobrevivência dos pacientes”, disse. Ele acrescenta que essa ideia precisa ser confirmada por estudos sobre as causas reais das mortes.
Para Cabral, o maior valor do estudo é mostrar onde as mortes acontecem, ajudando a direcionar melhor as ações de saúde pública.
“O primeiro passo é saber onde está o problema e quem sofre mais. O geoprocessamento ajuda a identificar esses locais e fatores associados, permitindo planejar intervenções melhores.”
Ele também destacou a relevância do tema diante das mudanças climáticas. Se as ondas de calor passaram a ser preocupação, as de frio também podem afetar crianças em casas precárias.
“Quem sofre mais com calor provavelmente também sofre com frio. Crianças que vivem em casas frias, com pouca luz e má habitação ficam mais expostas à piora da pneumonia.”
Por ser um estudo que analisa dados por regiões, não foi possível apontar fatores individuais para o risco de cada criança.
Gustavo Wandalsen, pediatra, alergista e imunologista do Hospital Sabará, sugere que má nutrição, baixa vacinação e acesso precário ao atendimento podem explicar maior risco de morte em áreas pobres.
“Acesso rápido ao serviço de saúde permite tratar logo, evitando complicações. Mesmo se complicar, tratar e internar cedo reduz o risco de morte.”
