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O fungo assassino

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Estudo revela que microrganismo descoberto nos anos 90 é o mais letal de que já se teve notícia — e foi responsável pela dizimação de anfíbios em 60 países

Um mistério que assombrava a ciência desde a década de 70 — a drástica redução da população de sapos no planeta — foi enfim desvendado. Na sexta-feira 29, 41 pesquisadores de diversas nações publicaram um estudo na revista americana Science com a resposta para o fenômeno. Não, o culpado por mais esse dano ao meio ambiente não é o homem, nem suas atividades industriais, nem as mudanças climáticas que destroem hábitats e poluem os mares. Pelo menos desta vez o destruidor é, por assim dizer, “natural”. Trata-se de um fungo de nome impronunciável — o Batrachochytrium dendrobatidis. Ou, simplesmente, Bd.

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Bd foi identificado ainda na década de 90 em sapos coletados na Austrália e no Panamá. Sabia-se, pela análise do microrganismo, que ele é letal para anfíbios. Ao provocar uma doença chamada quitridiomicose, o fungo invade células cutâneas, descamando a pele. Como os anfíbios realizam suas trocas gasosas com o ambiente por meio da pele, a interferência do Bd faz com que eles não consigam respirar, levando-os à morte.

Os cientistas não tinham, entretanto, noção do tamanho do estrago. Ao compilarem, de forma inédita, dados de anfíbios infectados em todo o mundo, os pesquisadores apresentaram na Science um levantamento completo da destruição. Ao todo, 501 espécies tiveram sua população reduzida em grande escala — cinquenta delas são nativas do Brasil. Além disso, a ação do fungo culminou na extinção de noventa espécies de anfíbio. O patógeno espalhou-se por sessenta países, com focos maiores no México e na América Central, atingindo países como Guatemala e El Salvador.

O impacto rendeu ao Bd o título de o patógeno mais letal de que se tem conhecimento. O caso foi classificado como o de maior perda ambiental causada por uma única doença. Devastador, o fungo faz lembrar o poder destruidor da própria natureza, a despeito do homem — a maioria dos grandes eventos de destruição em massa de seres vivos ocorridos na Terra está associada a mudanças naturais do ambiente. Em tempo: embora não nos ataque diretamente, ao dizimar anfíbios o Bd acaba afetando o homem. Os sapos, por exemplo, são fundamentais no controle de pragas na lavoura e de insetos que transmitem doenças.

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Ciência

Evidências condenam a maconha

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Os riscos

Folhas de maconha (Victoria Bee Photography/Getty Images)

Em fevereiro deste ano, uma das publicações científicas mais respeitadas do mundo, o JAMA Psychiatry, divulgou um artigo que traz uma conclusão alarmante: quem usa maconha na adolescência tem um risco maior de desenvolver depressão ou comportamento e pensamento suicida anos mais tarde.

O que qualifica este artigo? Os pesquisadores analisaram os resultados de 11 trabalhos internacionais publicados com os melhores critérios científicos, envolvendo, no total, 23.317 participantes, da juventude até a fase adulta. Eles foram divididos em dois grupos, um era composto por pessoas que consumiram maconha até os 18 anos de idade e o outro por aqueles que não fizeram uso da droga neste mesmo período. O que fizeram foi medir o impacto real da cannabisna vida dos pesquisados, utilizando sofisticadas análises estatísticas. E os resultados impressionam – de uma forma negativa.

Quem usa maconha na adolescência tem um risco 37% maior de ter depressão na fase adulta, do que aqueles que não fizeram uso da droga neste período.  As conclusões não param por aí. Estes mesmos usuários também têm 50% mais chances de apresentarem pensamentos suicidas e um risco de tentativa de suicídio três vezes maior do que quem não usou maconha. Tal análise confirma vários estudos anteriores que mostram a vulnerabilidade do cérebro em sua fase de desenvolvimento, dos 15 aos 25 anos, quando exposto às drogas.

Suas características, como número de usuários, período de observação e credibilidade dos dados analisados, além da metodologia utilizada, elegem este trabalho como um dos mais relevantes já feitos nesta área, fazendo com que seja impossível ignorar tal evidência. Não se trata de achismo e sim de um trabalho científico sério.

O assunto é extremamente pertinente, pois aqui no Brasil estão acontecendo duas importantes iniciativas ligadas a uma eventual legalização das drogas. Deve ser retomado neste mês, no Supremo Tribunal Federal (STF), o julgamento da descriminalização do porte de drogas para uso pessoal. Quando foi interrompido, em 2017, o ministro Gilmar Mendes votou a favor da descriminalização de todas as drogas. Luis Roberto Barroso e Edson Fachin, por sua vez, votaram pela descriminalização apenas da maconha, sendo que o ministro Barroso sugeriu a fixação de um limite de 25 gramas para a posse da droga. Se prevalecer essa tendência as drogas serão legalizadas de fato no Brasil.

O papel do STF não é de fazer leis. A orientação da política de drogas brasileira cabe ao legislativo, aos representantes eleitos pela população. As drogas matam, provocam imenso estrago na saúde pública e sequestram a esperança e o futuro de milhões de jovens. Não é assunto para ser decidido por um colegiado, sobretudo de costas para a cidadania. Encerro como comecei: as evidências condenam a maconha e as políticas públicas irresponsáveis.

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Ciência

Novo método usa calor produzido pela luz no tratamento do câncer

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Técnica desenvolvida na USP de São Carlos usa luz infravermelha para induzir a morte de células cancerosas por hipertermia

O calor gerado pela luz induz a morte das células tumorais (Jonathan Pow/Getty Images)

Um método otimizado para o tratamento de tumores baseado no uso do calor produzido pela luz (fototermia) foi desenvolvido por pesquisadores do Grupo de Nanomedicina e Nanotoxicologia (GNano) do Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP).

A técnica consiste em usar nanocápsulas feitas com membranas obtidas de células cancerosas para transportar antitumorais e materiais fotoativos (ativados pela luz) em escala nanométrica (da bilionésima parte do metro) até um tumor. Ao serem irradiadas por luz infravermelha, as nanocápsulas de membrana se rompem e liberam o material presente em seu interior. O calor gerado pela luz promove o aquecimento do material fotoativo, induzindo a morte das células tumorais por hipertermia.

O trabalho foi desenvolvido durante o doutorado de Valéria Spolon Marangoni, bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Resultados da aplicação do método no tratamento de câncer de bexiga em animais foram apresentados durante o Simpósio de Pesquisa e Inovação em Materiais Funcionais, promovido pelo Centro de Desenvolvimento de Materiais Funcionais (CDMF) nos dias 23 e 24 maio na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

O CDMF é um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) apoiado pela FAPESP.

“Desenvolvemos um nanocarreador que pode ser um potencial candidato para melhorar o transporte, a liberação e a ativação de fármacos usados no tratamento do câncer por fototermia”, disse Valtencir Zucolotto, professor do IFSC-USP e orientador da pesquisa, durante o evento.

O novo sistema foi desenvolvido a partir de nanopartículas feitas de materiais chamados de teranósticos – com aplicações simultâneas em terapia e em diagnóstico – desenvolvidos pelos pesquisadores nos últimos anos.

Ao serem colocadas no sistema circulatório, essas nanopartículas tendem a migrar e a se incorporar a células tumorais. Sua localização no organismo pode ser mapeada por meio de tomografia, ressonância magnética ou de espectroscopia fotoacústica, por exemplo.

Uma vez visualizadas, é possível promover o aquecimento das nanopartículas por magneto – se possuírem um núcleo magnético, como a magnetita, por exemplo – ou por fototermia, a fim de promover a morte das células tumorais a que estão incorporadas por hipertermia.

“Ao serem irradiadas por luz infravermelha, nanopartículas de óxido de grafeno incubadas em células Hela [tipo de célula ‘imortal’, que pode ser cultivada em laboratório indefinidamente], por exemplo, promovem um aquecimento de oito a 12 graus nessas células, induzindo-as à morte”, disse Zucolotto.

Nanobastões de ouro

Além do grafeno, os pesquisadores têm usado ouro para criar as nanopartículas teranósticas nas formas de estrelas e de bastões. Com esses formatos, explicaram, o nanomaterial se torna capaz de absorver luz no infravermelho e promover aquecimento.

As nanopartículas de ouro com forma esférica, apesar de serem muito boas para aplicação em sistemas de entrega de fármacos [drug delivery], só absorvem luz na região visível do espectro eletromagnético. “Isso impede o uso em fototermia, pois a luz visível não atravessa os tecidos como a luz infravermelha”, comparou Zucolotto.

Nos últimos anos, porém, engenheiros de materiais descobriram que ao “esticar” um pouco nanopartículas esféricas de ouro elas ganhavam a forma de bastões, o que lhes confere um modo vibracional eletrônico longitudinal que permite a absorção de luz no espectro infravermelho.

Com base nessa descoberta, os pesquisadores do IFSC-USP começaram a produzir nanobastões de ouro e testá-los no tratamento de alguns tipos de câncer por fototermia.

Para transportar esses compostos para as células alvos foram desenvolvidas nanocápsulas feitas de membranas celulares cultivadas em laboratório, obtidas de linhagens de tumor de pulmão, por exemplo.

Hoje, a maioria das nanocápsulas para carrear fármacos e moléculas pelo organismo e entregá-los em regiões específicas ou dentro de células são fabricadas a partir de lipídeos e polímeros.

Segundo Zucolotto, a entrega dos compostos por meio de nanocápsulas feitas com membranas de células é mais eficiente por serem constituídas do mesmo material das células-alvo.

“Como as nanocápsulas de membrana celular têm composição muito parecida com as de células tumorais, com proteínas como as galectinas, o reconhecimento e a adesão entre elas é facilitado. Isso permite que as nanocápsulas tenham uma interação maior com as células-alvo e consigam entregar com mais eficiência o material que carregam”, disse.

Por meio de melhorias na técnica de obtenção dessas nanocápsulas, os pesquisadores têm conseguido colocar uma maior quantidade de nanobastões de ouro e de antitumorais em seu interior.

Em um estudo recente, publicado na revista Applied Bio Materials, eles usaram nanobastões de ouro e o quimioterápico betalapaxona, envoltos em nanocápsulas de membrana celular, para tratar tumores de bexiga induzidos em camundongos.

Os resultados dos experimentos, feitos em colaboração com o professor Wagner José Fávaro, do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mostraram que as nanocápsulas se ligaram aos tumores. Ao serem irradiadas com luz infravermelha uma única vez, por dois minutos, as cápsulas de membrana se romperam e liberaram os nanobastões de ouro e a betalapaxona entre dez e 20 minutos depois de iniciado o processo.

As análises dos tecidos também revelaram que nenhum dos tumores na bexiga dos animais cresceu e alguns até regrediram.

“Constatamos que esse método de tratamento promoveu a destruição das células cancerosas por fototermia e por quimioterapia de foma sinérgica”, disse Zucolloto.

O artigo Photothermia and activated drug release of natural cell membrane coated plasmonic gold nanorods and β-Lapachone (DOI: 10.1021/acsabm.8b00603), de Valeria S. Marangoni, Juliana Cancino Bernardi, Ianny B. Reis, Wagner J. Fávaro e Valtencir Zucolotto, pode ser lido na revista Applied Bio Materials em https://pubs.acs.org/doi/10.1021/acsabm.8b00603.

 

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Ciência

Pesquisadores encontram enorme reservatório de água congelada em Marte

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Um estudo de uma dupla de cientistas da Universidades do Texas, nos Estados Unidos, contatou a presença de expressivas camadas de gelo localizadas no pólo norte de Marte que poderiam ser um dos maiores reservatórios de água do planeta. A pesquisa, publicada na Geophysical Research Letters, foi liderada pelo astrônomo Stefano Nerozzi e contou com a participação do pesquisador norte-americano Jack Holt.

A equipe fez a descoberta usando medidas coletadas pelo Radar Shallow (SHARAD) a partir da sonda Mars Reconnaissance Orbiter (MRO), equipamento da NASA lançado em 2015 e que tem o objetivo de encontrar pontos de água em Marte. O SHARAD emite ondas de radar que podem penetrar até 2,4 quilômetros abaixo da superfície marciana, e acabou encontrando várias camadas de areia e gelo a cerca de 1,6 km  abaixo do pólo norte do planeta.

Essas camadas tinham 90% de água em alguns lugares, e acredita-se que sejam os remanescentes das antigas camadas de gelo polar. Caso essas camadas sejam derretidas, seria formado um oceano com profundidade de pelo menos 1,5 metro.

Os autores acreditam que as camadas se formaram quando o gelo se acumulou nos pólos durante as eras glaciais passadas em Marte. Cada vez que o planeta aquecia, um remanescente das calotas polares ficava coberto por areia, o que protegia o gelo da radiação solar e impedia que o material fosse para a atmosfera.

“Não esperávamos encontrar tanto gelo de água aqui”, afirma Nerozzi em um comunicado. “Isso provavelmente torna o terceiro maior reservatório de água em Marte depois das calotas polares.”

A presença de gelo na superfície de Marte é uma das características que mais desperta a curiosidade dos cientistas. O Planeta Vermelho contém esconderijos de água que poderiam nos dizer muito sobre sua história — além de ser fundamental caso os humanos decidam colonizar Marte do futuro.

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