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Extinção de espécies aumenta em escala sem precedentes, alerta relatório

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Pesquisadores alertam que diminuição da biodiversidade é resultado direto da ação humana e representa risco ao bem-estar em todas as regiões do planeta

A poluição plástica cresceu 10 vezes desde 1980 (Jordi Chias/ Proteção Animal Mundial/Divulgação)

As taxas de extinção de espécies animais e vegetais estão aumentando em uma escala sem precedentes. A abundância média de espécies nativas na maioria dos principais hábitats terrestres caiu em, pelo menos, 20%, principalmente desde 1900. Mais de 40% das espécies de anfíbios, quase 33% dos corais e mais de um terço de todos os mamíferos estão ameaçados.

Essa perda é resultado direto da atividade humana e constitui uma grave ameaça ao bem-estar humano em todas as regiões do mundo, alerta um grupo de cientistas de 50 países, incluindo do Brasil. Eles são autores da primeira avaliação global do estado da natureza da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, na sigla em inglês).

O sumário para os formuladores de políticas do relatório foi lançado nesta segunda-feira (06/05), em Paris, após ter sido aprovado por 132 países durante a sétima sessão plenária do órgão, chamado de “IPCC para a biodiversidade”, que aconteceu na semana passada na capital francesa.

“A saúde dos ecossistemas de que toda a humanidade e as espécies dependem está se deteriorando mais rapidamente do que nunca. Estamos erodindo os próprios alicerces de nossas economias, meios de subsistência, segurança alimentar, saúde e qualidade de vida em todo o mundo”, disse Robert Watson, presidente da IPBES.

Elaborado ao longo dos últimos três anos por 145 especialistas, com contribuições de outros 310 autores, o relatório avaliou mudanças na biodiversidade e nos serviços ecossistêmicos – como o fornecimento de alimentos e de água – durante as últimas cinco décadas. Para isso, foi feita uma revisão sistemática de cerca de 15 mil fontes científicas, governamentais e de conhecimento indígena e de comunidades tradicionais.

“Esse é primeiro relatório intergovernamental que foca não só a biodiversidade, mas também suas interações com trajetórias de desenvolvimento econômico e com fatores que afetam a natureza, como as mudanças climáticas”, disse Eduardo Sonnewend Brondizio, professor da Indiana University, dos Estados Unidos, à Agência FAPESP.

“Nunca tantos dados, de diferentes áreas, como das ciências naturais e sociais, foram reunidos para fazer uma avaliação detalhada da condição do ambiente em escala global e em uma perspectiva integrada de interação com a sociedade”, disse Brondizio.

Radicado há mais de 20 anos nos Estados Unidos, o cientista brasileiro, que foi um dos três copresidentes do relatório, é um dos pesquisadores responsáveis por um projeto apoiado pela FAPESP em parceria com o Belmont Forum – um consórcio das principais agências financiadoras de projetos de pesquisa sobre mudanças ambientais no mundo.

Os outros brasileiros autores do relatório são Ana Paula Aguiar, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe); Bernardo Baeta Neves Strassburg, do Instituto Internacional para Sustentabilidade (ISS); Cristina Adams, da Universidade de São Paulo (USP); Gabriel Henrique Lui, do Ministério do Meio Ambiente; Maria Manuela Ligeti Carneiro da Cunha, da USP; Pedro Henrique Santin Brancalion, também da USP; e Rafael Dias Loyola, da Universidade Federal de Goiás (UFG).

“A contribuição dos autores brasileiros foi excepcional porque todos eles conseguiram trazer uma perspectiva social e ecológica integrada para o relatório. Eles colocaram suas respectivas especialidades, como ecologia, políticas públicas e cenários ambientais, em um contexto interdisciplinar”, disse Brondizio.

Rede mais desgastada

O relatório aponta que ecossistemas, espécies, populações selvagens, variedades locais de plantas e de animais domesticados estão encolhendo, deteriorando ou desaparecendo. Dessa forma, a rede essencial e interconectada da vida na Terra está ficando menor e cada vez mais desgastada.

Pelo menos 680 espécies de vertebrados foram levadas à extinção desde o século 16 e mais de 9% de todas as raças domesticadas de mamíferos usados para alimentação e agricultura foram extintas até 2016. Além disso, estima-se que 1 milhão de espécies animais e vegetais estão agora ameaçadas de extinção.

Entre os fatores responsáveis por esse declínio de espécies estão, em ordem decrescente, as mudanças no uso da terra e do mar, a exploração direta de organismos, as mudanças climáticas, a poluição e espécies tóxicas invasoras.

Desde 1980, as emissões de gases do efeito estufa dobraram, elevando a temperatura média global em pelo menos 0,7 ºC. O aquecimento global já tem afetado a natureza, do ecossistema à genética das espécies, e os impactos devem aumentar nas próximas décadas, em alguns casos, superando o impacto da mudança do uso da terra e do mar e outros fatores, apontam os autores.

“O sumário mostra que a situação da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos, essenciais para a qualidade de vida, é ainda mais crítica do que a do aquecimento global”, disse Carlos Joly, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do programa BIOTA-FAPESP.

Joly coordenou o Painel Multidisciplinar de Especialistas da IPBES nos seus primeiros anos de existência, ao lado do australiano Mark Londsdeale, da Organização de Pesquisa Científica e Industrial da Commonwealth (CSIRO), e é membro da coordenação da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES, na sigla em inglês), cuja criação foi inspirada na IPBES.

O relatório também destaca que três quartos do meio ambiente terrestre e 66% do ambiente marinho foram significativamente alterados pelas ações humanas. Em média, essas tendências foram menos severas ou evitadas em áreas mantidas ou geridas por povos indígenas e comunidades locais.

Mais de um terço da superfície terrestre do mundo e quase 75% dos recursos de água doce são agora dedicados à produção agrícola ou pecuária. O valor da produção agrícola aumentou em cerca de 300% desde 1970, a extração de madeira aumentou em 45% e aproximadamente 60 bilhões de toneladas de recursos renováveis e não renováveis são extraídos globalmente a cada ano – número que quase duplicou desde 1980.

A degradação da terra, contudo, reduziu a produtividade de 23% da superfície terrestre global. Até US$ 577 bilhões em safras globais anuais estão em risco de perda de polinizadores e entre 100 e 300 milhões de pessoas estão em risco aumentado de inundações e furacões devido à perda de hábitats costeiros e proteção, ressaltam os autores do relatório.

A poluição plástica cresceu 10 vezes desde 1980 e entre 300 e 400 milhões de toneladas de metais pesados, solventes, lama tóxica e outros resíduos de instalações industriais são despejados anualmente nas águas do mundo.

Os fertilizantes usados na agricultura e que entram nos ecossistemas costeiros produziram mais de 400 “zonas mortas” oceânicas, totalizando mais de 245 mil quilômetros quadrados (km2) – uma área combinada maior que a do Reino Unido, calcularam os pesquisadores.

“O relatório mostra que as populações mais ricas ou privilegiadas se acostumaram a ignorar os problemas ambientais porque não convivem com os impactos no dia a dia. São as populações mais pobres ou menos privilegiadas que estão sofrendo o impacto desse padrão de vida, na forma de poluição, desmatamento e atividades de mineração em lugares longe dos olhos do resto do mundo”, disse Brondizio.

Segundo os pesquisadores, as tendências negativas na natureza continuarão até 2050 e, além desse período, persistem em todos os cenários de política explorados no relatório, exceto aqueles que incluem mudanças transformadoras – devido aos impactos projetados de mudanças crescentes no uso da terra, exploração de organismos e mudança climática, embora com diferenças significativas entre regiões.

Apesar do progresso nas políticas de preservação, os autores consideram que as metas globais para conservar e usar a natureza de forma sustentável e para alcançar a sustentabilidade não podem ser alcançadas nas trajetórias atuais. As metas até 2030 e para além desse período podem ser alcançadas apenas por meio de mudanças transformadoras e de fatores políticos e tecnológicos, ponderam.

Uma das ações indicadas é a adoção de abordagens integradas e intersetoriais de gestão que levem em conta as compensações da produção de alimentos e energia, infraestrutura, manejo de água doce e costeira e conservação da biodiversidade.

“Ainda não chegamos a um ponto de irreversibilidade na perda de biodiversidade e a consequente degradação dos serviços ecossistêmicos essenciais para a qualidade de vida. Se tomarmos decisões agora, para, em conjunto e de forma coordenada e cooperativa, promovermos mudanças transformativas integradas, inclusivas e baseadas no melhor conhecimento científico disponível, é possível reverter a velocidade da degradação”, disse Joly.

“Isso passa, obrigatoriamente, por conseguir cumprir as metas do Acordo de Paris, pois o aquecimento global já é um dos principais impulsionadores da perda de biodiversidade e degradação dos serviços ecossistêmicos”, ressaltou.

Os autores também identificam como um elemento-chave de políticas futuras mais sustentáveis a evolução dos sistemas financeiros e econômicos globais, visando a construção de uma economia global sustentável, afastando-se do atual paradigma limitado de crescimento econômico.

“O relatório mostra que é preciso mudar a narrativa de que o desenvolvimento econômico é um fim em si mesmo e que todos os custos para alcançá-lo, como a degradação ambiental e a desigualdade social, são inevitáveis e justificáveis”, disse Brondizio.

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Trump pede verba extra de U$1,6 bilhão para Nasa voltar à lua até 2024

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A maior parte do aumento está reservada para pesquisa de um sistema de pouso lunar humano

Se o aumento for aprovado, a Nasa terá um orçamento de 22,6 bilhões de dólares em 2020 (Wikimedia Commons/Wikimedia Commons)

Washington — O governo Trump pediu ao Congresso na segunda-feira que aumente o orçamento da Agência Aeroespacial dos Estados Unidos (Nasa) no ano que vem em 1,6 bilhão de dólares, em uma “primeira parcela” para avançar a meta de levar os norte-americanos de volta à superfície da lua até 2024.

O pedido de aumento de fundos, anunciado pelo presidente no Twitter, vem quase dois meses depois de o vice-presidente Mike Pence declarar o objetivo de encurtar em quatro anos o cronograma anterior da Nasa para colocar astronautas na lua pela primeira vez desde 1972.

O aumento proposto elevaria o nível total de gasto da Nasa para o ano fiscal de 2020 a 22,6 bilhões de dólares. A maior parte do aumento está reservada para pesquisa e desenvolvimento de um sistema de pouso lunar humano, segundo um sumário fornecido pela agência.

 

“No meu governo, estamos recuperando a grandeza da Nasa e voltaremos à lua, e depois Marte”, tuitou Trump na segunda-feira. “Estou atualizando meu orçamento para incluir 1,6 bilhão de dólares adicionais para que possamos voltar ao espaço com tudo!”.

A princípio a Nasa almejava levar uma espaçonave tripulada à superfície lunar até 2028, depois de colocar uma estação de “Abertura” na órbita da lua até 2024.

A nova meta — uma empreitada que deve custar dezenas de bilhões de dólares — chega no momento em que a Nasa se empenha, com a ajuda de parceiros privados, em retomar missões espaciais humanas partindo dos EUA pela primeira vez desde que o programa de ônibus espaciais foi encerrado em 2011.

O administrador da Nasa, Jim Bridenstine, classificou o pedido de aumento revisado como uma “primeira parcela de confiança” da Casa Branca.

“Nossa meta aqui é construir um programa que nos leve à lua o mais rápido possível”, disse Bridenstine a repórteres em uma teleconferência na noite de segunda-feira. “Nos próximos anos, precisaremos de fundos adicionais”, disse. “Mas esta é uma boa quantia que nos coloca em movimento de uma maneira muito forte”.

O programa Apollo, antecessor da Nasa ao esforço de levar humanos de volta ao satélite natural da Terra, realizou seis missões tripuladas à lua entre 1969 e 1972.

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Ciência

Estudo pode ajudar a prever recaída em dependentes de cocaína

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Pesquisa da Faculdade de Medicina da USP analisou déficits cognitivos e do padrão de uso da droga para identificar os pacientes com maior risco de recaída

A pesquisa acompanhou 68 pacientes do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas durante 30 dias (FAPESP/Divulgação)

Um estudo feito na Universidade de São Paulo (USP) e publicado na revista Drug and Alcohol Dependence pode ajudar profissionais de saúde a identificar pacientes que, após passarem por um tratamento para dependência de cocaína, apresentam risco aumentado de recair no uso da droga.

Segundo os autores, os achados reforçam a necessidade de uma atenção diferenciada para esses casos considerados mais graves.

A pesquisa foi coordenada pelo professor da Faculdade de Medicina (FM) da USP Paulo Jannuzzi Cunha, bolsista de pós-doutorado da FAPESP. Também teve apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Os pesquisadores acompanharam 68 pacientes internados para tratamento da dependência de cocaína no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (HC-FM-USP) durante 30 dias. O monitoramento dos voluntários continuou por três meses após a alta hospitalar, visando o registro de eventuais recaídas. Apenas 14 pessoas permaneceram abstinentes durante todo o período de seguimento.

Um dos objetivos da pesquisa foi avaliar se os 11 critérios para diagnóstico da dependência química estabelecidos na quinta e mais recente edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM5) – publicação elaborada pela Associação Americana de Psiquiatria e considerada principal referência na área – eram eficazes também para predizer resposta ao tratamento.

“Nossa hipótese era de que esses critérios não seriam relevantes para a predição de recaídas. Após as análises, contudo, reconhecemos que eles podem sim ser úteis nesse sentido”, disse Cunha à Agência FAPESP.

Para diagnosticar a dependência de cocaína e a gravidade do caso, o DSM5 avalia critérios como: uso da substância em quantidades maiores ou por mais tempo que o planejado; desejo persistente e incontrolável; abandono de atividades sociais, ocupacionais ou familiares devido ao uso; manutenção do uso apesar de problemas sociais ou interpessoais; tolerância e abstinência, entre outros.

Pacientes com dependência leve são aqueles que apresentam dois ou três dos 11 critérios por um período de um ano. A presença de quatro ou cinco itens pelo mesmo período indica dependência moderada. Já a dependência grave é caracterizada por seis ou mais critérios.

“Em nossa amostra foram incluídos apenas casos classificados como graves. E conseguimos observar que existe uma grande diferença entre os pacientes que apresentam de seis a oito critérios e os que somam de nove a 11. O índice de recaída neste segundo grupo foi significativamente mais elevado”, disse Danielle Ruiz Lima, primeira autora do artigo.

Na avaliação dos pesquisadores, os dados sugerem que a divisão em três categorias proposta pelo DSM5 poderia ser revista. “Parece haver o grupo grave e o ultragrave”, disseram.

Refinando a análise

Outra hipótese investigada na pesquisa é a de que o padrão de uso de cocaína (o escore no DSM-5 somado a fatores adicionais, como a idade de início do consumo e a intensidade do uso no mês anterior à internação) e o déficit cognitivo causado pela droga seriam variáveis relacionadas, que poderiam ajudar a predizer recaída após o tratamento.

Os testes aplicados no estudo tinham o objetivo de avaliar o desempenho dos participantes nas chamadas funções executivas, que incluem memória de trabalho (necessária para o cumprimento de ações específicas, como a de um garçom que precisa gravar o pedido de cada uma das mesas até o momento de entregar o prato corretamente), atenção sustentada (requerida para a realização de tarefas longas, como o preenchimento de um questionário) e controle inibitório (a capacidade de refrear impulsos).

Os pesquisadores aguardaram em média uma semana após a internação para aplicar os testes, tempo necessário para que os exames toxicológicos ficassem negativos. Tal procedimento foi realizado para evitar qualquer tipo de efeito agudo da droga no organismo.

Um dos testes para medir atenção consistia em repetir uma sequência crescente de números apresentada pelos pesquisadores. Pacientes que tinham feito uso intenso de cocaína antes da internação (nos 30 dias anteriores) apresentaram maior déficit nessa habilidade.

Outra tarefa para avaliação da memória consistia em repetir uma série de cores na ordem em que eram apresentadas. Em outro desafio ainda mais difícil, cujo objetivo foi avaliar o controle inibitório, o nome de uma cor era escrito em outra cor diferente (a palavra “amarelo” escrita em azul, por exemplo).

“A resposta automática é ler o que está escrito em vez de falar a cor pintada, que era o objetivo. Para cumprir a tarefa, é preciso usar o controle inibitório, função extremamente importante nas fases mais iniciais da recuperação da dependência, quando o paciente tem de lidar com a fissura e com situações que vão estimular o desejo de usar a droga”, disse Cunha.

As análises mostraram correlação entre o resultado no teste de controle inibitório e a idade em que o paciente começou a usar a droga. “Quanto mais precoce o uso, mais erros foram cometidos – o que pode significar um risco aumentado de recaída. A ideia é identificar essas pessoas que têm mais dificuldade para podermos pensar em propostas individualizadas de tratamento”, disse Lima.

O uso intenso de cocaína nos 30 dias que antecederam a internação também foi correlacionado a pior desempenho no teste de controle inibitório e no de memória de trabalho (que consistia em falar a sequência numérica do teste anterior na ordem invertida) – habilidade importante para manipular informações e, a partir disso, tomar decisões.

Segundo os pesquisadores, há estudos mostrando ser possível recuperar as funções executivas com a abstinência, mas ainda não se sabe até que ponto o dano pode ser revertido ou quanto tempo demora para isso ocorrer.

O grupo da FM-USP defende a importância de se adotar um programa de reabilitação cognitiva para ajudar no processo de recuperação.

“Nós temos uma proposta de xadrez motivacional, que ainda está sendo estudada. Os terapeutas jogam com o paciente e, após a partida, é feita uma espécie de terapia. Discutem-se as jogadas, fazendo analogias com situações da vida real. A ideia é transportar o conhecimento adquirido no jogo de xadrez para o dia a dia e treinar controle inibitório, planejamento e tomada de decisões saudáveis na vida real”, contou Cunha.

Para o coordenador da pesquisa, a avaliação de déficits cognitivos é importante tanto para o diagnóstico da dependência como para a predição de recaída. “A dependência química é uma doença do cérebro e, com esses testes neuropsicológicos, podemos ter uma régua capaz de medir objetivamente se o dano é leve, moderado ou severo. Do mesmo modo que é feito no caso das demências.”

Os pesquisadores afirmam que, apesar da relevância clínica, os resultados dos testes neuropsicológicos ainda não fazem parte do DSM, cujos critérios são baseados no autorrelato e na observação clínica.

“Esperamos que a sexta edição do DSM apresente essa evolução a partir de nossos estudos e de outros grupos no mundo”, disse Cunha.

O artigo The role of neurocognitive functioning, substance use variables and the DSM-5 severity scale in cocaine relapse: A prospective study, de Danielle Ruiz Lima et al, pode ser lido em: www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0376871618306276.

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Ciência

Cortes sucessivos de verbas provocam autoexílio de cientistas no exterior

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Cenário anunciado pelo governo Bolsonaro, mas já iniciado em gestões anteriores, faz pesquisadores buscarem financiamento em outros países

Pesquisas: sucessivos cortes no setor fizeram pesquisadores serem obrigados a levar seus estudos para o exterior (Chris Ryan/Getty Images)

São Paulo — Um estudo que pode indicar um novo tratamento para o Alzheimer, outro que tenta recriar corações para transplante, uma investigação sobre a adaptação de manguezais às mudanças climáticas. São alguns exemplos de pesquisas produzidas por cientistas brasileiros que não conseguiram financiamento e tiveram de mudar para outro país para continuar o trabalho.

Com sucessivos cortes no orçamento das principais agências brasileiras de financiamento da ciência nos últimos anos, diversos pesquisadores se viram obrigados a levar seus estudos para o exterior. A situação, que chamam de “exílio científico”, parece ainda mais inevitável com o cenário anunciado nos últimos dias, com cortes para a área e declarações do ministro da Educação, Abraham Weintraub, de que o investimento em pesquisa e pós-graduação não será prioridade.

Mesmo pesquisadores com bolsa garantida no momento relatam procurar outras formas de financiamento para sua pesquisa, pois sentem insegurança para os próximos anos. Com medo de não conseguirem terminar o mestrado ou o doutorado com o auxílio financeiro, eles buscam bolsas em instituições de outros países.

É o caso de Ruan Macêdo, de 28 anos, que faz doutorado na Alemanha. “Meu sonho era contribuir com a ciência e poder dizer que minhas descobertas foram feitas em casa, no meu País. Infelizmente, alcançar esse objetivo fica cada vez mais difícil. É impossível manter a competitividade e inovar sem o apoio necessário”, disse.

“Ainda quando estava na graduação em Educação Física, descobri minha vocação para a pesquisa. Iniciei um estudo sobre o efeito terapêutico do exercício físico em mulheres pós-menopausa. Mas, logo depois de me formar, já senti o primeiro obstáculo: a falta de incentivo à ciência no Brasil, já que não havia pós-graduação nessa área no meu Estado, o Piauí”, contou.

“Eu me mudei para Minas para fazer o mestrado em Fisiologia. Nesse período, minha avó foi diagnosticada com Alzheimer e isso me motivou a mudar minha linha de pesquisa. Fui aprovado no doutorado da USP para estudar um tratamento para a doença com uma vitamina sinteticamente modificada. Como havia limitações para algumas análises, surgiu a oportunidade de vir para a Alemanha, com bolsa de estudos da Capes”.

“O contrato prevê que eu fique um ano e meio aqui e mais o mesmo período no Brasil. Mas, com esse cenário atual e a desvalorização da ciência, não me sinto seguro em voltar”, disse Macedo. “Eu quero muito voltar ao meu País e retribuir o investimento, mas não tenho garantia nem mesmo de ter bolsa para terminar o doutorado, quanto mais opção de trabalho depois que concluir”.

“Meu orientador na Alemanha vem acompanhando de perto as notícias do Brasil e tem se preparado para o pior. Não tenho certeza se terei a bolsa até o fim do meu período aqui, e ele está tentando garantir junto às agências de fomento, que financiam sua pesquisa, uma verba que me permita ficar ao menos o tempo prometido. Concomitante a isso, busco ofertas de vaga de pós-doutorado. Algumas ofertas permitem começar antes de finalizar o doutorado, o que seria o meu caso”, afirmou.

“Caso consiga alguma oferta aqui na Alemanha, cogito a possibilidade de devolver o dinheiro à Capes para não precisar voltar ao Brasil. A situação me entristece. Vejo a estrutura de primeiro mundo e percebo como estamos longe disso. É triste que tenhamos tanto potencial e tenhamos de abandonar nosso País para conseguir explorá-lo. Me sinto perdido, com medo. Não é fácil decidir abandonar seu país em uma espécie de exílio científico, tive de me mudar para seguir a carreira para a qual me preparei por anos”, concluiu o pesquisador.

Considerando apenas o orçamento para bolsas de pós-graduação e formação de professores, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) perdeu 24,4% dos recursos nos últimos cinco anos – em 2014, eram R$ 4,6 bilhões, na correção pela inflação acumulada até janeiro, e passaram a R$ 3,4 bilhões neste ano, antes do contingenciamento de 23%.

No Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) o orçamento para bolsas caiu 40,6% no mesmo período. “Isso não começou agora com o Bolsonaro, já se tornou uma rotina. O que agrava a situação nesse momento é a postura e as declarações de desprezo do novo governo com a ciência”, diz Helena Nader, membro da Academia Brasileira de Ciências e do Conselho Superior da Capes.

Não há um levantamento de quantos pesquisadores deixaram o Brasil nos últimos anos. No entanto, são indicativos da “fuga de cérebros” a queda de bolsas ofertadas e a falta de reajuste há seis anos do valor das bolsas de mestrado e doutorado no Brasil (giram em torno de R$ 1,5 mil a R$ 2,2 mil).

Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Ildeu Moreira diz que a redução constante de recursos coloca em risco a posição que o Brasil conquistou, de 13.º maior produtor de publicações científicas do mundo. “Há o risco de perdermos muito rapidamente o que levamos décadas para conseguir. Nem mesmo durante a ditadura se reduziu tanto o investimento em Ciências, porque já havia a compreensão de que é através delas que o País se desenvolve economicamente.”

Em nota, a Capes diz que manteve estável nos últimos anos o orçamento para o pagamento de bolsas de pós-graduação e formação de professores da educação básica. E não comentou sobre a queda de valores. Sobre as políticas para incentivo à pesquisa, a Capes diz que iniciou um programa de parceria com empresas para formar recursos humanos para a indústria. Diz também que vai lançar um programa de doutorados profissionais inédito, alinhado à indústria e com investimento em bolsas feito pelas empresas.

 

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